JUSTIFICANDO O INJUSTIFICÁVEL

O momento político por que atravessamos tem servido para descortinar opiniões estarrecedoras. O Estadão de ontem ouviu dois especialistas para tratar sobre as manifestações que movimento Black Bloc articula por todo o País.

Um dos entrevistados é Rafael Alcapipani Silveira, coordenador de pesquisas organizacionais da Fundação Getúlio Vargas. Disse ele: “Muitos dos jovens que estão usando essa estratégia de violência nas manifestações vieram das periferias brasileiras. Eles já são vítimas da violência cotidiana por parte do Estado e, por isso, os protestos violentos passam a fazer sentido para ele”. Eis aí uma ponto de vista propalado na academia, por cabeças pensantes, que estão por aí dando aulas e formando opiniões.

Não é uma pérola? Primeiro, vamos tratar de uma escancarada mentira: quem está indo às ruas não são os pobres, é a classe média. Não tenho dados estatísticos à mão que tracem o perfil dos manifestantes. Tenho somente a imagem em minha retina do que presenciei em três protestos aos quais compareci. Sim, meus caros, quando falo do assunto, não emito “opiniões de gabinete”; falo com base no que vi de perto. Vou tratar dessas experiências em um outro post, pois há aspectos que merecem dedicada atenção.

Pablo Ortellado, filósofo, também deu seus pitacos. “Depois de Seattle, os movimentos sociais passaram a aceitar a violência como uma das estratégias políticas e a debater abertamente a questão”, sustentou.

A opinião de ambos serve como um dos comburentes às badernas que varrem o Brasil. Impressionante é que o jornal, em nenhum momento, contrapôs as consequências desses pontos de vista caso sejam adotados como consenso pelas ruas. A reportagem completa está aqui. Quando Ortellado afirma que o uso da violência pode ser justificado de acordo com a necessidade, notem que o repórter não o inquire a descortinar sua subjetividade – afinal de contas, “necessidade” é muito relativo. Levando ao pé da letra tais argumentos, pode-se justificar o injustificável

Vamos aos fatos: Alcapipani não lista quais são as tais violências que o Estado impinge aos moradores da periferia. Ele deixa a questão no ar, e, claro, o espírito de demagogia se encarrega de conduzir os mais distraídos às conclusões populistas: ônibus lotados é uma violência, assim como são os postos de saúde em frangalhos, a falta de segurança etc. Então ficamos combinados assim: se há gargalos de gestão pública, a gente responde na base da porrada, esse expediente civilizado. Afinal de contas, como sabemos, as maiores democracias do mundo e os países de primeiro mundo fizeram do vandalismo seu baluarte de sustentação. Um conhecido, certo dia, foi vítima de uma tentativa de assalto. Revoltado, achou-se no direito de ir à Paulista apedrejar bancos. Confrontei-o com algumas lógicas da democracia. Ele esqueceu seu intento e preferiu ir tomar um café com a namorada.

É patente que carecemos de muitas melhorias. Já deixei isso claro no post anterior. Mas não podemos nos deixar levar pelos impulsos da massa anencéfala e sair por aí com o dedo em riste, berrando contra tudo-isso-que-está-aí Atemo-nos à realidade de São Paulo: somos o estado que mais prende criminosos no País, a cidade de São Paulo é a capital menos violenta dentre as 27, o estado é o quarto colocado no ranking nacional do Ideb (5,6) – atrás do Distrito Federal (5,7), Santa Catarina (5,8) e Minas Gerais (5,9). –, o melhor metrô do Brasil é o de São Paulo… Não estou dizendo que vivemos as mil maravilhas do mundo. Mas há de se reconhecer que avançamos em muitos aspectos. Quem vai às ruas, no entanto, parece reivindicar, via quebra-quebra, a reinvenção do Brasil.

Se puderem, busquem as páginas dos Black Blocs no Facebook. Os bravos guerrilheiros agendaram para o dia 7 de setembro “a maior manifestação da história do Brasil”. Há até quem defenda a invasão do Congresso Nacional e o enforcamento de deputados e senadores. Mesmo com tudo sinalizando o inferno que será esse dia, sabemos que qualquer ação das polícias visando coibir depredações serão tidas como arbitrárias. Evitar e reprimir os crimes cometidos por vândalos virou um estigma. Mais uma contribuição gestada no útero das massas.

JUSTIFICANDO O INJUSTIFICÁVEL

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