CRIANÇAS SÃO SERES MAUS, QUE PODEM, SIM, MATAR A FAMÍLIA FRIAMENTE

É claro que um menino de 13 anos, com cara de anjinho, pode muito bem ter planejado o assassinato da família. Não sei se foi de fato Marcelo Bovo Pesseghini que matou seus pais, tia e avó. Mas não descarto a hipótese.

Os cândidos pensam que crianças são a essência do bem, do bom, do belo e do justo porque, ora, são crianças, e logo seriam incapazes de cometer quaisquer atrocidades. Graças a Rousseau, esses serezinhos foram alçados à condição de plena imaculabilidade. Nascem bons, porque desprovidos dos interesses da civilização – posses, dinheiro, constituir família, esses valores absurdos, vocês sabem – e logo são bons selvagens. Rousseau desenvolveu essa teoria com risível profundidade em seu Discurso Sobre a Origem da Desigualdade. Diz ele que o homem, enquanto em seu estado de natureza, pode muito bem viver em comunidade, pois todos os recursos necessários à sua existência estão ao seu dispor, por toda a terra. A desigualdade surgiria à medida que o homem fosse tomando conhecimento que ele pode ser melhor do que é, pois enquanto uns, aptos a desenvolver suas habilidades, buscariam sair da mesquinhez do estado de natureza, outros permaneceriam nele. Podem rir.

A criança, nessa visão romantizada de mundo, nasceria, portanto, boa: sem interesses, sem malícia, sem desejos, sem informação, sem parâmetros; e tornar-se-ia um ser humano pior por culpa da sociedade – a civilização. Advém daí algumas teses estúpidas, dentre muitas, a de que um mundo governado por esses pequenos anjinhos seria um lugar ideal pra se viver, porque são cheios de amor e inocência. Lamento ter de ser a nota destoante desse coral. Crianças, no estado de natureza, são cruéis, autoritárias, frias, incapazes de amar conscientemente, interesseiras, calculistas… Esses valores vão sendo moldados e se invertendo à medida em que vão entrando em contato com a sociedade, com o mundo dos adultos. O ser humano nasce mau; a sociedade o civiliza e o torna bom.

Thomas Hobbes, em Leviatã, afirma que a vida humana seria “brutal e curta” sem a autoridade política, pois como não há limites claros sobre a extensão dos direitos das pessoas, o homem acaba sendo “lobo do homem”, pois entende ser livre para prejudicar os demais todas as vezes que o lampejo fortuito de seu juízo entendesse que estaria em alguma situação de risco. Hobbes nos mostra que o Leviatã (o Estado) é necessário para que os homens vivam com segurança, sem que um acabe ficando refém da selvageria de outro, cuja predisposição é, sim, matar.

Hobbes é a sociedade civilizada, é o homem adulto; Rousseau é a sociedade no estado natural, a criança.

Crianças não têm noção do que é certo e errado. Acham normal arrebatar pirulitos dos coleguinhas de creche e largar a vítima chorando. Acham de igual forma virtuoso cerrar o punho contra os pais nos primeiros “nãos” da vida. Se querem algo, esperneiam. Diante da recusa, choram mais alto ainda – sabem aqueles pestinhas escandalosos no meio do mercado entre as bolachas Trakinas?  — e chantageiam os adultos metendo seus cocurutos contra a parede, levando as mães ao desespero. Os petizes acham justo recorrer à força bruta para resolver suas diferenças, bem como não veem nenhum problema em satanizar o outro, o diferente. Quem leu o livro O Senhor das Moscas sabe como sofreu Porquinho. Crianças se comprazem em ver o sofrimento alheio. Não raro, muitas acham bastante engraçado os esboços de dor de um cachorro depois de ter-lhe dado um chute no meio do focinho. A agonia de outra pessoa, por sinal, é algo que faz brilhar os olhos dos pequenos. Quando eles nos batem e simulamos uma dorzinha, riem; daí fazem o quê? Batem mais forte; se fingimos que doeu mais, mais eles se divertem. Eles amam a tortura.

No filme A Caça, vemos todo o drama da personagem Lucas, interpretado pelo excelente Mads Mikkelsen, após uma aluna sua tê-lo acusado de assédio sexual. A menina, Klara, inventa essa abobrinha e testemunha todas as conseqüências sofridas por Lucas, mas não se comove; pelo contrário: reafirma vírgula por vírgula que o professor lhe mostrara as partes íntimas. Crianças mentem para se safar de algo errado que fizeram, mentem para prejudicar os outros, mentem por prazer… Crianças não são seres confiáveis. Em seus mundos frios e calculistas, impera apenas aquilo que elas acham ser o certo, sem a possibilidade do contraditório. Tanto que a primeira figura que odeiam é a do pai, símbolo da autoridade. Crianças não gostam de obedecer, detestam autoridade, não suportam ter de se submeter ao mundo civilizado. Graças à sociedade e aos adultos, essas características vão se amainando e se adequando ao razoável.

Quem pensa que um mundo dominado por crianças seria um paraíso está redondamente enganado. Seria uma carnificina, isso sim.

CRIANÇAS SÃO SERES MAUS, QUE PODEM, SIM, MATAR A FAMÍLIA FRIAMENTE

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