FIASCO

A manifestação convocada pelo Movimento Passe Livre e pelo PT para a tarde de ontem aqui em São Paulo foi um delicioso fiasco. Queriam parar a cidade. Não conseguiram. Nas contas da Polícia Militar, mil pessoas se reuniram no Vale do Anhangabaú; nas do Datafolha, três mil. Ambas, sem sombra de dúvida, nos fazem concluir que todo o gáudio com que os protestantes anunciavam o ato foi por água abaixo. Como de praxe, um grupo partiu pra violência e depredou agências bancárias. O pessoal do Mídia Ninja acha razoável que pedras sejam arremessadas contra bancos. Isso, para eles, seria a expressão dos “jovens de bairros carentes” que já estão “cansados da violência do Estado” e da “opressão imposta pelo capitalismo”. Bruno Torturra, uns dos líderes dessa imprensa alternativa, justifica os vandalismos da seguinte forma: não é, na verdade, violência no sentido estrito da palavra. Se fosse, a agressão também seria dirigida pessoas. Como os ataques são contra agências bancárias, logo podemos concluir que essas “microindignações” (eita terminho sem vergonha) são contra o “sistema”.

Mais do que tamanha boçalidade, o que me espanta é a adesão de parte de setores da imprensa tradicional a essa tese. Primeiro porque se trata de uma falácia essa história de que os movimentos são compostos por jovens carentes. Basta passar os olhos nas vestimentas dos dito-cujos e no físico típico de quem tem acesso a todas as boas proteínas para constatar que de pobre essa gente não tem nada – só ser for o juízo. Segundo, se, como diz Torturra, todo mundo com suas “microindignações” resolver se dar o direito de depredar o patrimônio alheio sob olhares complacentes do resto da sociedade, estaremos todos mergulhados em anarquia. Eu mesmo vou à praça e vandalizar umas vidraças de lojas de celular. Minha microindignação: pessoas que ouvem funk ou pagode sem fone de ouvido. Berlioz no último volume de um celular com mp3 ninguém ouve, né?

Alguns valentes se deslocaram à Câmara Municipal e outros à Assembleia Legislativa. Obtiveram êxito na invasão da primeira; na segunda, a Polícia Militar interveio reprimiu a tentativa – no que fez muito bem. “Ah, mas a tentativa de invasão era pacífica”, murmuram alguns. Que diacho! Não sei de onde essa gente tira que o binômio invasão-pacífica é possível. Se é invasão, como pode ser pacífico? Claro que a ousadia da súcia faz fervilhar os ânimos de muitos imbecis. Quando um grupo de pessoas tomou o teto do Congresso Nacional o que não faltou foi gente nas redes sociais proferindo aquele detestável clichê: se o Congresso é do povo, não foi invasão, foi reintegração de posse. Tenho, admito, enorme preguiça desses consensos que vão se formando aqui e ali, tomando a consciência de muitos como se tamanha barbaridade fosse uma virtude. Quem está lá dentro do Congresso – ou da Câmara Municipal ou da Alesp —  goste-se ou não, foi democraticamente eleito pelo povo. Representam, sim, parte da população. Já quem invade à base da truculência o faz com que legitimidade? Representam quem? Se querem derrubar vereador, deputado ou senador, que seja tudo feito pelos ritos da democracia – a urna é o melhor caminho.

Caráter político – Não houve como esconder o viés político da manifestação convocada para ontem. Embora o MPL se diga apartidário, não conseguiram afastar o PT da órbita do ato. Se o protesto era contra o cartel nas licitações do trem e metrô de São Paulo e contra desvios de dinheiro público nesses contratos visando que essas cifras fossem investidas em transporte público, a gente poderia interpretar que esse pessoal também teria a boa-vontade de aproveitar a manifestação para levar às ruas toda sua indignação contra quaisquer outros indícios de falcatruas, certo? Não, errado. Na terça-feira, o Estadão publicou reportagem dando conta de que o mesmo cartel havido em São Paulo também teria agido em contratos firmados pelo Ministério das Cidades em licitações federais. Diz a matéria assinada por Bruno Ribeiro, Fausto Macedo e Marcelo Godoy (em vermelho):

O Ministério Público Federal (MPF) vê indícios de que o suposto esquema de cartel nas obras do Metrô de São Paulo tenha atuado também em licitações federais envolvendo a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU). A afirmação foi feita nesta segunda-feira, 12, pela procuradora da República em São Paulo Karen Louise Jeanette Kahn, responsável pela investigação do caso na área federal. Algumas da principais empresas investigadas no caso mantêm e mantiveram contratos com a estatal federal, vinculada ao Ministério das Cidades, desde 1998 até agora. “Há vários contratos (federais) também. Há possíveis outros cartéis em âmbito federal. Aqui estamos falando, via de regra, em cartéis estaduais com efeito na esfera federal, crime de evasão. Envolve recursos da União”, disse Karen.

Karen afirmou que apura em tese diversos delitos. Além do cartel, haveria corrupção internacional, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e “formação de quadrilha, eventualmente com enquadramento na nova lei de organizações criminosas”. Muitas empresas citadas aparecem em outras apurações do MPF, o que reforça as suspeitas da procuradora Karen. A procuradora não especificou quais licitações teriam sido fraudadas nem o período em que elas ocorreram – se envolveriam, por exemplo, os governos de Fernando Henrique Cardoso (1995 a 2002), de Luiz Inácio Lula da Silva (2003 a 2010) ou de Dilma Rousseff.

O Ministério das Cidades, órgão ao qual a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) está subordinada, informou ontem que vai investigar qualquer irregularidade que eventualmente venha a surgir por causa de investigações tocadas pelo Ministério Público Federal.

Houve alguma faixa pedindo “Fora Dilma” por causa disso? Não, não houve. Como poderia haver tal coisa numa manifestação organizada por PT e MPL, não é mesmo? Assim, pode-se chegar à conclusão que, para essa turma, cartel em São Paulo é sempre ruim; cartel no governo federal pode ser tolerado. Em nome de quê? Sei lá.

Suborno – Sim, a Siemens, empresa que denunciou o truste ao Cade, pagou propinas milionárias a governos espalhados pelo mundo todo visando a conquista de contratos. Para realizar a manutenção de equipamentos hospitalares e de trânsito na Rússia, a empresa pagou 56 milhões de dólares a funcionários do governo. Na China, o suborno foi de 60 milhões de dólares em licitações para fornecimento de equipamentos de telecomunicações. Em Israel, funcionários de uma estatal de energia foram agraciados com 20 milhões de dólares. Na Nigéria, dois ministros embolsaram 10 milhões de dólares. Na Venezuela, 20 milhões de dólares foram pagos para conseguir contrato de construção de linhas de metrô. Todas essas informações foram levantadas pela própria Siemens, por intermédio de uma nova política de compliance de alcance mundial.

No Brasil, no entanto, ainda não há evidências de que a empresa pagou propina a políticos ou funcionários públicos. Até o momento, não há nenhum documento que ateste tal prática. Sabemos, apenas, do escuso expediente de combinar preço com concorrentes. No que se sustenta, então, os cartazes de “Fora Alckmin”? “Ah, ele, como governador, deveria saber. Certamente o PSDB foi leniente e fez vistas grossas”, dizem muitos. Engraçado. O Cade, que é o órgão cuja atuação é justamente antitruste, não conseguiu, em todos esses anos, ver nenhum indício de falcatrua. NENHUM. Só vieram à luz tais fatos porque a Siemens optou por colocar a boca no trombone. Se o Cade legitimou as operações, como poderia o governo do estado adivinhar que as empresas estavam em conluio?

Ah, o Cade é subordinado ao Ministério da Justiça. Não nenhuma faixa “Fora Cardozo”.

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