ROMEU E JULIETA, POR TCHAIKOVSKY

Vamos dar um passeio pela música erudita. Também falo de coisa boa aqui neste espaço, hehe. Quando iniciei meu primeiro blog, lá nos idos do UOL – cujo serviço de blog é um dos priores que já conheci –, tinha comigo o propósito de fazer resenhas de livros, CDs e filmes. No entanto, fui tomado pelo ímpeto de comentar coisas da política, da economia, da filosofia… e acabei relegando aquela intenção inicial. Não por falta de interesse, mas de tempo.

Sou um leitor voraz de livros. Gostaria de desfrutar de tempo suficiente para encetar algumas impressões sobre minhas últimas leituras, como A Queda, de Diogo Mainardi, experiência que cobriu meus olhos com o úmido véu da emoção; Sussurros, de Orlando Figes, história que percorre com sensibilidade única o drama vivenciado pelos “inimigos do povo” segundo a concepção de um dos maiores assassinos da história, Stalin; A Trégua, de Primo Levi, narrativa envolvente sobre o drama por que passaram milhares de judeus após o nazismo; Rumo à Estação Finlândia, uma viagem inteligente e viciante pelas mentes revolucionárias dos séculos XIX e XX; e até mesmo As Onze Mil Varas, de Guillaume Apollinaire, um texto de humor que percorre o improvável em matéria de sexo.

Adiante.

O vídeo acima traz uma de minhas obras favoritas em toda literatura musical do século XIX, a Abertura Romeu e Julieta, do compositor Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840 – 1893), um dos primeiros russos a ganhar notoriedade internacional no cenário da música erudita. Conquanto chamada de Fantasia-Abertura, Romeu e Julieta poderia ser considerada um poema sinfônico em forma sonata. Tchaikovsky não buscou retratar toda a ação da peça de Shakespeare. Preferiu ater-se a três pontos principais: o primeiro é notado pelos compassos executados pelas madeiras (clarinetes, fagotes e, mais adiante, flautas, acompanhadas por harpas), no qual Frei Lourenço é apresentado. O contorno musical a ele conferido o aproxima muito da Igreja Ortodoxa Russa. O segundo ponto é a guerra entre os Capuleto e os Montecchio, simbolizado pela música intensa e agitada. O terceiro é o tema de amor, melodia arrebatadora que traz em si a pulsão do amor entre as personagens principais.

A ideia de compor algo sobre o romance de Shakespeare foi de Balakirev, um dos expoentes do Grupo dos Cinco, que reunia, além do próprio Balakirev, os compositores Borodin, César Cui, Mussorgsky e Rimsky-Korsakov – todos com espírito nacionalista. O quinteto tinha uma sina: a busca por um jeito genuinamente russo de fazer música, oposto ao verniz das tendências francesas e italianas. Embora Tchaikovsky estivesse em constante contato com os cabeças desse grupo, seu trabalho só foi tido como aderente por eles com a feitura de Romeu e Julieta. Isso porque a obra ia de encontro às tais tendências europeizantes combatidas pelo grupo.

Escrever uma peça musical inspirada no grande romance shakesperaino pareceu-lhe, num primeiro momento, algo pouco propício, dado o fracasso com que sua ópera Ondina fora recebida pelos Teatros Imperiais. Em uma carta a Balakirev, Tchaikovsky escreveu: “Estou completamente esgotado (…) Não quero escrever até que tenha esboçado pelo menos alguma coisa, mas minha mente está completamente privada de pensamentos musicais que sejam ao menos toleráveis”. A resposta do amigo e tutor, que não demorou a chegar, estimulava-o a exercitar sua criatividade e o orientava detalhadamente sobre a nova obra, inclusive, com os primeiros compassos escritos e algumas sugestões de modulações. Vale lembrar que Balakirev já havia se inspirado em Shakespeare para escrever Rei Lear.

A estreia, em 1870, foi na cidade de Moscou, sob regência de Nikolai Rubinstein. Um escândalo envolvendo o maestro e uma aluna provocou uma viçosa manifestação no dia da apresentação, ofuscando o empreendimento de Tchaikovsky. Ninguém deu muita atenção à peça. Todos só falavam da balbúrdia. “Durante a noite inteira, ninguém me dirigiu uma palavra sobre a Abertura. E eu estava precisando tanto de apreciação e bondade”, escreveu Tchaikovsky. Esses apontamentos de carência eram freqüentes em sua vida. Homossexual, o compositor impôs-se um duro modo de viver: casar-se com uma mulher para manter as aparências e poupar o pai, enquanto encontrava-se secretamente com amantes masculinos.

Atualmente, o tema de amor de Romeu e Julieta tem sido utilizado vastamente como trilha sonora de filmes e outros musicais, como Columbo, Kim Possible, Sesame Street, Bob Esponja (onde chegamos, meu Deus?) e Três Mosqueteiros.

A execução da obra, no vídeo acima, é da Orquestra Sinfônica de Londres, sob a batuta de Valery Gergiev – uma das principais autoridades quando o assunto é música russa.

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