Fuga da privacidade

Incrível como as redes sociais criaram uma geração de pessoas que buscam se mostrar, serem vistas, notadas, percebidas, numa espécie de fuga da privacidade, não? Pra que permanecer no anonimato se se pode mostrar ao mundo como você é ridículo? E a TV, coitada, acoimada por essa tendência, vê-se como veículo de reverberação desse fenômeno.

O Fantástico convida o telespectador a enviar um vídeo cantando uma musiquinha da Copa. E, claro, há quem envie. O Bom Dia São Paulo pede fotos. Aí um monte de gente envia imagens de seu casamento, como se quem não foi convidado para a ocasião – meu caso e, creio, de mais milhões de pessoas — estivesse minimamente interessado nisso. Daí vemos noivos beijando uma escultura da Mônica na Paulista (!), uma noiva empurrando o carro na saída do casório (!!)… E eu me indago: tá, e daí?

TV abanando o rabinho pro telespectador (“envie seu vídeo cantando isso”, “envie seu vídeo fazendo aquilo”, “envie o vídeo de seu filhinho”, “mande um vídeo do seu cachorrinho”, “mande um vídeo de sua coreografia” – valha-me, Deus) dá nisso: patifarias mil, na maior sem-cerimônia.

E os selfies, então? Uma vez vi uma moça que postou uma foto com uma fatia de melancia na mão. “A troco de quê?”, me perguntei. Pro meu espanto, a imagem recebeu 30 mil curtidas. Como assim, gente?

Ah, sim, claro: agora, com um Facebook a um logon de distância, todo mundo se acha muito sabido e apto para opinar sobre tudo, não é mesmo? Com uma gramática trôpega, evidenciada pelas vírgulas salpicadas sem nenhum critério pelo texto, a gente entra em contato com a indispensável análise de milhares de pessoas, cujo primoroso conhecimento é de fazer inveja a muita gente graduada.

Economia, política, ciências jurídicas, sociologia, História, intervenção policial, capitalismo, socialismo…enfim, esses temas que exigem pouca formação e informação, vocês sabem, viraram alvo de pitacos a todo instante. Discorre-se sobre esses assuntos com a profundidade de um pires. Dá pra dar risada, claro; mas uma hora irrita. É quando elevo as minhas mãos aos céus e agradeço pela função “unfollow”, uma “bença” nas nossas vidas.

Fuga da privacidade

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