A CULTURA CRISTÃ NÃO É A DO MEDO; É A DO AMOR

Deus é igual à contemporânea pensadora brasileira Valesca Popozuda. Bateu de frente? Então se prepare para tiro, porrada e bomba. Esta é a impressão que tenho ao trocar umas palavras com alguns cristãos adeptos das vertentes mais tradicionais e conservadoras do Cristianismo. Se, à luz da Bíblia, nosso liame com o Divino é o Amor — basta notar que o fio condutor da história de Cristo é a caridade —, para uns, o medo é a característica preponderante da vida religiosa. Mas medo de quê? Ora, do inferno, de reprimenda, de um castigo proveniente da metafísica, de uma desgraça qualquer… É como se vivessem constantemente sob um jugo, com uma espada sobre suas cabeças.

Antes de prosseguir, uma digressão. Passo meus fins de semana, das 9 da manhã às 6 da tarde, trancafiado numa sala de aula. Os conteúdos ali passados são indispensáveis à finalidade que é comum a todos os alunos. Uma falta são oito horas de aprendizado jogado ao vento. Para que tenham uma ideia do que isso representa, ontem, em meio período, recheei doze páginas de meu caderno com anotações das mais importantes.  Se se perde isso, recuperar o prejuízo requer uma maratona hercúlea.

Pois bem. Um dos alunos veio me pedir um favor: que lhe passasse o teor da próxima aula de sábado, pois não poderá ir, em virtude de um culto em sua igreja. Seria algo especial? Seria um evento fora da curva? Seria um fato extraordinário? Nada disso! A reunião em sua igreja é de Santa Ceia, um culto que, onde ele frequenta, ocorre mensalmente. “Mas por que você não vem assistir a quatro horas de aula e, depois, você vai?”, perguntei. Ele argumentou que há, antes do culto, uma série de indispensáveis atividades às quais necessita de estar presente, como ensaios e preparos. “Buscai primeiramente as coisas que são do céu, e as demais nos serão acrescentadas”, disse-me, sacolejando para frente e para trás, ao compasso do pronunciamento das sílabas, o dedo indicador de sua mão direita. “Mas e se você não for, o que ocorre?”, indaguei. “Não quero nem pensar nisso. Está fora de cogitação”.

Não entrarei no mérito da escolha desse colega. Quem sou eu para isso? Cada um faz de sua vida o que bem entender. Mas não pude deixar de lamentar comigo mesmo como o tal “temor a Deus”, tão recomendado a todos nós ao longo da leitura bíblica, metamorfoseou-se em “terror a Deus”. Também me nego a adentrar pelo o que a Bíblia diz ou deixa de dizer. É impossível tentar amparar quaisquer argumentos lógicos a partir do texto sagrado. Tantas são suas imperfeições, seus erros — históricos, matemáticos, geográficos… —, seus absurdos, que o risco ao qual nos expomos ao alicerçar-nos na Bíblia é o mesmo àquele corrido ao construir um edifício sem fundação. E não adianta: por mais que apontemos aos adeptos das Escrituras todos os defeitos nelas contidos, sempre se socorrerão no intangível para nos confrontar.

É inútil tentar costurar com os biblistas uma conversa minimamente pautada pela inteligência, porque eles abrem mão dela. Basta demonstrar-lhes qualquer despropósito, como a arca de Noé, para que imediatamente nos roguem a abrir mão do pensamento. Dizem: “para entender as coisas de Deus, não pode querer ser racional; as coisas d’Ele sãos as do impossível; não podem ser assimiladas pela cabeça do homem.”. Que mais nos resta argumentar? Eu perco todo respeito por quem pensa dessa maneira. Querer que o homem abra mão de sua racionalidade é convida-lo para a insanidade. Todas as maravilhas desta Terra, todas as conquistas científicas, tecnológicas, econômicas, entre outros, que obtivemos ao longo de nossa história são produtos da inteligência do homem, de sua capacidade de raciocínio. As incontáveis curas para diversas doenças, as vacinas, o carro, a escrita, o domínio sobre o fogo, as leis, enfim, tudo o que abarca nossa civilidade, conforto, saúde, segurança é oriundo da faculdade de pensar. A partir do momento em que, para entender algo, somos convidados a abrir mão da fonte de todo nosso potencial de realização — a lógica, o pensamento, a mente —, tenham certeza: estamos diante de um engodo, de uma falácia.

É justamente o medo de ser prejudicado por Deus que deixa muitos fiéis com uma inquietação imanente. É o terror de ser punido,

Stark: Solidariedade entre os homens permitiu que sobrevivessem à peste. Semente da resistência foi o amor, não o medo.

de achar que o capataz está sempre à espreita, aguardando qualquer deslize para, inescapavelmente, aplicar a pena. Para esse meu colega, abrir mão de um ensaio de grupo de jovens da igreja seria o suficiente para ser entendido como uma espécie de afronta a Deus, pois, primeiro, “as coisas do céu”, e, depois, as terrenas.

Não faz sentido que a filosofia cristã permita tamanho câncer no seio de suas convicções. A história não deixa dúvidas que foi o amor, a tolerância e a caridade que legaram ao mundo —principalmente ao Ocidente — a democracia, a civilidade e o humanismo; não o medo, o terror, o castigo e a coação. Em The Rise of Christianity: a Sociologist Reconsiders History, Rodney Stark, renomado professor de Sociologia da Universidade de Washington, aponta como o espírito de solidariedade imiscuído entre os cristãos criou condições para que sobrevivessem a duas grandes ondas de doenças nos primeiros séculos depois de Cristo. Em quinze anos, entre 165 e 180, a peste aniquilou cerca de um terço da população do império romano. Em 251, outra epidemia, desta vez de sarampo, ceifou vidas e mais vidas. A taxa de mortalidade foi menor justamente entre os cristãos; já entre os pagãos, foi imensa. Stark apontou o amor ao próximo e o espírito de solidariedade entre os que acreditavam na cruz de Cristo como os pontos favoráveis à resistência e à sobrevivência.

Esse cenário histórico proporcionou aos seguidores de Cristo oportunidades para que espalhassem o Evangelho às cidades, fundando, assim, as primeiras redes de solidariedade. Sim, meu caros, a solidariedade começou a ser disseminada pelos seguidores de Cristo. O resultado disso vemos refletido nos dias atuais. A maior rede de hospitais do mundo é… cristã. A maior rede de escolas do mundo é… cristã. A maior cadeia de assistência social do mundo é… cristã. A esmagadora maioria sob a égide da Igreja Católica.

Cristo e seu séquito são para o Ocidente as referências de civilização. Não especulo religiosamente, porque esse aspecto não me interessa; afirmo ancorado na história. Quando os cristãos consagraram o casamento como indissolúvel e alçaram a mulher à condição de seres humanos — por séculos, mulheres eram objetos; meninas, porque meninas, eram vítimas de infanticídio — plantaram, ali, a semente da família, o esteio da vida, da harmonia e da estabilidade.  Esses valores, perenes no tempo, são a matriz da cultura do Ocidente e costuraram a ética em nossas relações.

Notem, meus caros, que o pano de fundo de todo esse processo histórico e cultural é o amor. Onde há Cristianismo, há tolerância e fraternidade. Um homossexual pode exercer sua sexualidade num país cristão, sem temer morrer enforcado num guindaste por força de lei. Uma mulher que traia seu marido não será apedrejada por determinação de um tribunal popular. Um autor de crime famélico não terá suas mãos decepadas. Uma mulher cristã poderá se tornar budista a qualquer tempo, sem que seu direito à vida seja posto em xeque em razão de sua escolha. Um adepto de outra religião poderá pregar sua fé em praça pública, com a certeza de que nenhum juiz o sentenciará ao corte da língua. Uma mulher divorciada poderá se casar quantas mais vezes quiser, e não ficará presa à viuvez ou à solidão pro resto de seus dias. A congregação de um islamita não incendiada por uma turba de freiras…

Amor, meus caros, este é o princípio que fez do Cristianismo um imperativo cultural à nossa sociedade e nos trouxe até aqui. Não foi o medo, o terror, o pânico e o terrorismo dos céus, sob os quais muitos cristãos têm vivido atualmente. A caridade e o espírito das convicções de Cristo assistem a todos nós, cristãos ou não, ateus ou não. Isso não é loquacidade. É história.

Liberte-se do medo. Ele não faz nenhum sentido.

A CULTURA CRISTÃ NÃO É A DO MEDO; É A DO AMOR

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