Piquenique à beira do abismo

Partindo da velha teoria do copo meio cheio e meio vazio, sob a ótica do primeiro desígnio, Aécio Neves pode levantar as mãos aos céus e agradecer ao Altíssimo por ter perdido as eleições. Livrou-se da herança pra lá de maldita de Dilma Rousseff. Quem diria, hein? O PT, que bradou eleição pós eleição como os “fantasmas do passado” levariam o País à bancarrota agora vê-se encalacrado pelo próprio discurso.

Dias depois de consumadas as eleições, ficamos sabendo que o governo de Dilma esbanjou dinheiro pra tudo quanto foi canto. Os gastos superaram a arrecadação, levando a contabilidade pública ao maior déficit desde o início do acompanhamento da série histórica. Foram R$ 20,4 bilhões no vermelho, considerando apenas o governo federal. Se entrar no balaio as contas de estados e municípios, o rombo vai a R$ 25,5 bilhões. É um piquenique à beira do abismo.

Não há contabilidade criativa que dê jeito. O governo não poupou nenhum mísero centavo para o pagamento da dívida. Com isso, o Tesouro Nacional pretende enviar ao Congresso Nacional – o mesmo que, após as eleições, impingiu duas derrotas ao Planalto – proposta para rever a Lei de Diretrizes Orçamentárias deste ano. Não é uma piada de mau gosto? Ao apagar das luzes de 2014, o governo quer reduzir a meta de superávit primário para posar de guardião da Lei de Responsabilidade Fiscal. O superávit estabelecido era de 1,55% do PIB (R$ 80,8 bilhões), e já foi pra casa do chapéu.

Lembram-se de quando o Lula discursou sobre os efeitos da crise internacional no Brasil? Seria uma marolinha, não é mesmo? Por quê? Ora, porque nossa economia continuaria pujante, estimulada pela indução do consumo interno e pelos gastos do governo. As desonerações fiscais concedidas à época, e, mais ainda, sua manutenção a partir de 2012, começam a se refletir nas contas deste ano. Se me permitem um paralelo, há uma famosa frase de Rumpelstiltskin, uma personagem de conto de fadas alemão que ganha protagonismo no seriado Once Upon a Time: “Toda magia tem seu preço”. O PT quis fazer mágica com a economia, está aí o preço.

Mas, como sabemos, o PT jamais praticaria nada contra o Brasil. Arno Augustin, queridinho de Dilma Rousseff e secretário do Tesouro Nacional, defendeu com afinco todas as escolhas fiscais do governo. “Optamos pelo que era melhor para o País”, disse ele. Imaginem se tivessem optado pelo pior… Augustin disse, ainda, que o resultado péssimo pode ser atribuído à arrecadação e crescimento inferiores às expectativas. A justificativa para o esquálido PIB será a crise internacional. Engraçado que nossos vizinhos não dizem a mesma coisa e crescem bem mais que nós.

A saída para essa encruzilhada é a receita que Dilma tanto condenou durante sua campanha: subir os juros e praticar uma rigorosa política de ajuste fiscal. Curiosamente, essas eram fórmulas que Armínio Fraga, então candidato a ministro da Fazenda de Aécio Neves, defendia. Ou é isso ou a credibilidade da política econômica e a sustentabilidade da dívida pública irão para o ralo. O Brasil não tem uma poupança interna como a da China, cujo limite é praticamente o céu, para continuar nessa sina de irresponsabilidade fiscal. Dependemos de recursos externos para investir. E eis aí um busílis: para conseguir o cascalho estrangeiro é preciso anuência das agências de classificação de risco. Mas com esse cenário desastroso, não temos muita reputação para figurar entre os diletos da Moodys, Fitch, Standar and Poor’s e companhia.

Como nosso orçamento é engessado, sem muito espaço para manobras, economistas já esperam aumento de impostos para este ano. Sabem como é, né? Governos não geram riqueza; trabalhadores, sim. Dilma já reconsidera a volta da Cide, o aumento do IPI (para desespero da indústria automobilística) e a recriação da CPMF. Ou seja, um belo pacote de maldades que vai atingir diretamente o bolso dos brasileiros. Mas, venham cá, quem durante a campanha eleitoral todo santo dia batia na tecla do arrocho salarial mesmo caso seu oponente ganhasse? Pois é…

E isso é só uma fração do todo. Há ainda a economia em recessão a ser recuperada, os investimentos em desenfreada queda, inflação alta (o teto da meta transformou-se no centro!) e artificialmente controlada (o governo seguro aumento de preços e controla o câmbio) e a volta da vulnerabilidade externa (conta corrente com déficit acima de US$ 80 bi neste ano).

Aécio, meu caro, você se livrou de uma bomba!

Piquenique à beira do abismo

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