CALORZINHO

Ao longo desta semana, tenho sido castigado por um calor de 36º. Com a pele vermelha, testa brilhando de sais minerais, pernas cozidas pelo jeans, garganta sôfrega por água e olhos ofuscados pelo Sol, pergunto-me como alguém pode gostar dessa estrovenga. E, sim, há quem curta “um calorzinho” aos borbotões.

Não há como tocar uma vida civilizada com esse inferno. Não fosse a infraestrutura pensada para amenizar os efeitos deletérios do calor – ar-condicionado, ventilador e caipirinha –, eu já estaria eternizado na terra dos pés juntos.

Passei parte de minhas férias de fim de ano no litoral. Ficava pensando comigo mesmo sobre que tipo de capacidade sobrenatural tinham aquelas pessoas que chegavam à praia logo cedo para passar o dia inteiro instaladas lá, naquela areia quente, sob o tórrido Sol de verão.

Eu, particularmente, tenho seriíssimas restrições a praia. Areia quente, água salgada, trânsito na orla, vendedor ambulante, compromisso inquebrantável com o protetor solar, idosos expelindo gases pelo ânus (sim, no calor, eles executam essa tarefa com mais regularidade) e porções e mais porções de frituras formam, para mim, um coquetel de infortúnios. Li, embasbacado, que em 29/12 a temperatura na areia de Copacabana atingiu píncaros 54 graus. A foto que ilustrava a reportagem d’O Globo era da praia tomada por banhistas. Que gente corajosa!

Ilustres do pensamento, há muito, já diziam que o calor pode levar à lassidão, a ter uma saúde mais frágil, a padecer de uma certa ausência de firmeza e constância mental e, consequentemente, a ter menos conhecimento (Jeremy Bentham).

Não, eu não acredito em determinismos categóricos. Sou daqueles que ainda acham que a vontade do homem compõe suas próprias veredas. Mas não há como negar que há, sim, elementos alheios à vontade humana que podem impactar suas escolhas.

O clima quente também pode tirar o vigor do corpo. Com isso, o homem perde curiosidade e nobreza de propósito, dado que a prostração, eventualmente, pode alcançar até mesmo o espírito. Nesse estágio, a preguiça se confunde com a felicidade (Montesquieu). A atividade vence o frio; a inatividade vence o calor. É um axioma atrativo ao hedonismo.

O calor é tão ruim, mas tão ruim, mas tão ruim, que chega ao ponto de me fazer concordar com Marx. Dizia o velho furuncoloso que o clima temperado favorece o capitalismo.

CALORZINHO

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