Petrolão: a culpa é de FHC — só que não

Dilma Rousseff, que passou semanas a fio dedicada ao silêncio, resolveu, hoje, dar com a língua nos dentes. “Se em 1996 e 1997 tivessem investigado e tivessem naquele momento punido, nós não teríamos o caso desse funcionário que ficou quase 20 anos praticando atos de corrupção. A impunidade leva a água para o moinho da corrupção”, disse a presidente. A afirmação é de uma estultícia ultrajante.

Se essa alegação faz sentido – e se Dilma a proferiu é porque em seu perturbado juízo ela faz –, caberiam outras duas perguntas. 1) Se a gênese do escândalo está em 1997 e o governo de FHC é responsável por não ter mandado investigar nada em 5 anos, por que Lula, em 8 anos, também se omitiu?; 2) Por que a própria Dilma, em 4 anos (ou seja, 12 anos de PT no total), não botou a turma de salafrários para correr da Petrobras?

Já disse aqui no blog e repito: essa senhora acha que brasileiro é idiota, e ela está coberta de razão.

Escrutinando mais a fundo a lógica do pensamento oco de nossa soberana, podemos dizer que FHC, do PSDB, é o culpado pelo o fato de o PT ter recebido de US$ 150 a US$ 200 milhões de dólares em propina no exterior – dinheiro oriundo dos 90 maiores contratos da Petrobras, dentre eles, o da refinaria de Abreu e Lima, segundo denunciou Pedro Barusco à Polícia Federal em novembro passado.

Entenderam? O PSDB foi artífice do roubo do… PT!!!

Eu defendo que todos os contratos fraudulentos da Petrobras, independentemente da gestão à época, sejam investigados e seus culpados, punidos. O que não dá pra engolir é que Dilma tente jogar os malfeitos do PT, havidos sob as barbatanas de Lula e dela própria, inteiramente nas costas de que bem lhe aprouver.

Ah, sim, em tempo. Eu também acho que FHC cometeu um gravíssimo erro em relação à Petrobras: não a privatizou quando podia.

Petrolão: a culpa é de FHC — só que não

50 Tons de Cinza: uma porcaria que dá sono

Por que fazemos certas coisas com nós mesmos, hein?

Inventei de ir assistir a Cinquenta Tons de Cinza. É de uma sucessão de clichês para lá de bregas e manjados. A história trata do relacionamento entre uma menina humilde que, para ajudar uma amiga em um trabalho de faculdade, vai parar na sala de um empresário bilionário, sedutor, jovem, de aparência notável. O nome dele é Christian Grey; o dela, Ana Anastasia.

Ok, há uns minutos dedicados a como eles se conhecem melhor. Pulo essa parte.

Ele a leva para seu apartamento, uma cobertura duplex com vista panorâmica para a cidade (ai, que preguiça). O percurso até sua casa é feito de helicóptero (mano, isso é serio?). Lá, por razões que não vou falar por não ser spoiler, Grey admite que nunca dormira (literalmente, de roncar ao lado )com nenhuma mulher antes: ela fora a primeira (e o sono bate fortemente). Geralmente, ele só faz sexo e cai fora. Depois que transam e tiram uma sonequinha, ele desce à sala, e toca um piano de cauda (brega).

O moço compra para ela um carro zero-quilômetro, em substituição a um Fusca (mas que merda de sequência de previsibilidades!). Ah, claro, na garagem do rapaz, há uma coleção de Audis.

Esse coquetel de dissabores me deixou com saudades de Café com Aroma de Mulher, novela mexicana exibida no SBT durante minha infância. Aquilo sim era uma boa produção!

Adiante.

Mas o bilionário tem um gosto atípico: gosta de ser dominador e ter uma submissa para lhe servir. Grey sente coisas ao açoitar sua parceira. Esse gosto somado à personalidade peculiar dele  — não gosta de ser tocado sem seu consentimento, não sorri, não é romântico, não gosta de vivenciar coisas convencionais de um relacionamento, como ir a um cinema… — magoa a pobrezinha, machuca seu coraçãozinho e a deixa confusa.

Por incrível que pareça, essa sequência de breguices desperta o frenesi de parte da plateia. Quando Grey pergunta a Anastasia por onde ela andou e ela responde “esperando [por você]”, ouvem-se dispersos “owns” pela sala de cinema. Quando ele diz que “não faz amor”, mas “fode”, batatas fritam (onomatopeia daquele som abominável que alguém faz quando entreabre os lábios, encosta a língua no céu da boca e suga o ar).

Ah, e quando Grey faz uma trança na moça? “Ai, genteeeee, até trança ele faz!”, comentaram à minha frente.

Por sinal, o público do filme merece um parágrafo a parte. Era composto majoritariamente por mulheres de meia idade e de aliança no dedo, mas que foram à sessão com as amigas, não com o namorado ou marido; e por adolescentes com cara de sapeca. Aposto que, na cabeça dessas infantes, fervilham ideias muito mais audaciosas do que as exibidas no filme. A juventude de hoje em dia é fogo na roupa.

E sim, o filme se encerra com uma deixa para uma possível parte II.

Sobre o filme: vi e não gostei. Sobre o livro: não li e não gostei.

50 Tons de Cinza: uma porcaria que dá sono

Com o patrocínio da ditadura

Graças a uma módica quantia de R$ 10 milhões da ditadura da Guiné Equatorial, governada com mão de ferro há 35 anos por Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, a Beija-Flor foi a grande campeão do Carnaval do Rio de Janeiro. A ONG Anistia Internacional tem várias denúncias contra Mbasogo, acusado de tortura, prisões arbitrárias e violações aos direitos humanos.

Quem sabe no ano que vem nossos carnavalescos não optem por fazer uma bonita homenagem ao Estado Islâmico. Basta que os decapitadores, os sequestradores de crianças, os vendedores de escravas sexuais e aqueles que ateiam fogo em pessoas vivas mandem um bom cascalho pra cá.

Com o patrocínio da ditadura

Bendini tenta vender algo que não tem: independência

Em entrevista exclusiva concedida ao Jornal Nacional de ontem (10/2), o novo presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, tentou mostrar que terá, sim, independência na condução da petrolífera. “Do ponto de vista de ingerência, se eu for dar o exemplo de onde estou vindo agora, seis anos na presidência de um banco que também é uma sociedade de economia mista, eu me senti muito confortável nesse período porque eu tive total liberdade e autonomia para trabalhar e é também o que me foi confidenciado pelo Conselho de Administração (da Petrobras)”, disse.

Bem, a coisa não foi bem assim como retrata o executivo. Dilma Rousseff, a presidente com capacidade de afundar qualquer coisa sobre a qual sobrevenham suas ideias, usou descaradamente o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal para forçar uma queda de juros nas operações de financiamentos imobiliários e de empréstimos. Isso era bom para o banco? Era oportuno? Que se dane! Nessas horas, o populismo sempre prevalece. O fato é que ela mandou, e ele bovinamente obedeceu.

Por sinal, cumpre lembrar o desempenho medíocre que o BB, ainda sob Bendine, teve em 2014. O lucro do banco caiu 28,6%, enquanto o do Bradesco e do Itaú subiram 25,6% e 29%, respectivamente.

Mais: esse senhor é especialista em derrubar o valor de ações. Ao assumir a Petrobras, as ações caíram 6%. Quando foi nomeado presidente do Banco do Brasil, a queda dos papéis foi de 8,15%.

Ah, o coquetel de infortúnios não para por aí. Uma analisada na lista dos membros do Conselho de Administração da Petrobras só corrobora a impressão de que o sócio controlador daquela geringonça, ou seja, o governo, continuará fazendo o que bem entender. Eis a plêiade do Planalto: Guido Mantega (como presidente!), Maria das Graças Foster, Luciano Coutinho e Miriam Belchior. Cada um, vale lembrar, carrega nas costas, em menor e em maior grau, maus momentos em suas respectivas áreas de atuação.

E o PT teima em dizer que quem quer privatizar a Petrobras, livrando-a dessa corja, é antinacionalista. Que piada!

Bendini tenta vender algo que não tem: independência

UM COQUETEL DE ASNEIRAS. É UM FILME DO TERRENCE MALICK? NÃO; É UMA COMPOSIÇÃO ERUDITA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA? NÃO; É UMA NOVA RECEITA GOURMETIZADA À PAULISTANA? NÃO! É UMA RESOLUÇÃO DO PT!

O PT divulgou nesta terça-feira (10) resolução política oriunda da comemoração dos 35 anos do partido. Pois é, meu caro leitor, mesmo com o petrolão, mesmo com a insatisfação popular atingindo o apogeu (e a pesquisa Datafolha veio apenas confirmar essa sensação de mal-estar, não revelando nada novo, a não ser o fato de o abismo de Dilma ser mais fundo do que o que se esperava) e mesmo com o clima bélico entre o governo e sua base, o partido achou conveniente celebrar mais um aniversário, como se o País estive todo pintado de tons róseos. “Ah, então não podiam?” Poder, podiam; mas, né…

A turba petista sempre se demonstrou descolada da realidade. Quando eram oposição, não ajustaram a sintonia para convergir para o bem do Brasil. Não homologaram a Constituição de 88, vociferaram contra as privatizações de Fernando Henrique Cardoso, não endossaram o Plano Real (o atual ministro-chefe da Casa Civil, Aloízio Mercadante, foi um dos expoentes do movimento do contra), não apoiaram o programa que deu fôlego às instituições financeiras continuarem operando em um cenário nada alvissareiro…

Mas divago.

Vergonha alheia. Este é o sentimento que me assalta a cada parágrafo que leio da tal resolução. Pelo documento, há, no Brasil, um grupo de pessoas que querem destruir o País, flertam com o golpe e visam à ruína da Petrobras. Diz a estrovenga: “[Temos de] condenar a ofensiva e denunciar as tentativas daqueles que investem contra a Petrobrás, pois, a pretexto de denunciar a corrupção que sempre combatemos, pretendem, na verdade, revogar o regime de partilha no pré-sal, destruir a política de conteúdo nacional e, inclusive, privatizar a empresa. É nosso dever fortalecer a Petrobrás e valorizar seus trabalhadores. É nossa tarefa também defender a democracia e as conquistas do povo, denunciar as tentativas de desqualificar a atividade política e de criminalizar o PT.”

Entenderam? Quem quer destruir a Petrobras, sob essa ótica, é o juiz Sérgio Moro, é o procurador geral da República, é a Polícia Federal, somos nós, que vibramos de alegria e alívio quando um vagabundo assaltante da coisa pública vai em cana. Já os petistas apaniguados na estatal, os indicados do partido para as diretorias envolvidas no escarcéu e os empresários amicíssimos de Lula arrolados na investigação são verdadeiro altruístas, que batalham pelo bem da empresa e por seu fortalecimento. Faça-me um favor! A resolução chega ao cúmulo de dizer que o anseio por privatizar a Petrobras é alinhado à vontade de aniquila-la. Estão enganados! Privatizar a joça petrolífera é o desejo de quem almeja salvá-la do desastre.

A vontade de rir vem quando chegamos ao parágrafo seguinte. “[Temos de] reafirmar o posicionamento adotado em Fortaleza em dezembro último, de apoiar as investigações em curso sobre a corrupção na Petrobrás e exigir que elas sejam conduzidas rigorosamente dentro dos marcos legais e não se prestem a ser instrumentalizadas, de forma fraudulenta, por objetivos partidários. O PT reafirma a disposição firme e inabalável de apoiar o combate à corrupção. Qualquer filiado que tiver, de forma comprovada, participado de corrupção, deve ser expulso.” Só faltou uma assinatura de José Genoíno e outra de José Dirceu logo na sequência, não é mesmo? Ah, sim: ambos os Josés não foram expulsos do PT, ainda que tenham sido condenados à prisão pela mais alta corte judiciária do País.

Um dos parágrafos mais espantosos afirma: “[É preciso] conclamar a militância a contribuir para a criação de uma articulação permanente de partidos, organizações, entidades – uma força política capaz de ampliar nossa governabilidade para além do Parlamento e de criar condições para realizar reformas estruturais no País. Reforçar as campanhas pela reforma política e pela democratização da mídia.”

Qualquer pessoa que leu Antonio Gramsci é capaz de identificar a sombra de um ente de razão pairando sobre os devaneios petistas. Ora, governabilidade se tem no âmbito de… governo! Quaisquer fenômenos paralelos a isso levados à sociedade não tem outro objetivo senão, como diria o próprio Gramsci, subverter todo o sistema de relações intelectuais e morais. E qual a referência para essa subversão? Bem, se o que os valentes querem é a “governabilidade”, nada mais razoável que a referência seja o… governo! E como este está tomado de assalto por um partido com um projeto de poder, logo se conclui que a força motriz do intento são os desígnio do…PT! E eles querem essa governabilidade extra governo para quê? Eis o pulo do gato: para a reforma política e o controle da imprensa. Para a primeira diretriz, o partido quer o voto em lista fechada e acabar com o financiamento empresarial de campanhas, deixando apenas o público. Ou seja, uma bela de uma tungada no bolso do contribuinte. Na segunda, querem acabar com imaginários oligopólios de mídia e propriedade cruzadas de veículos de imprensa. Puro besteirol. Mas sobre isso falo em um futuro post.

E a resolução se encerra festejando a vitória de Evo Morales nas eleições bolivianas, saudando o governo de esquerda recém-eleito na Grécia — que tem tudo para afundar o país — e o povo cubano, que, “por sua resistência, começa a quebrar o bloqueio imposto durante décadas pelo imperialismo”.

É tanta asneira junta que dá preguiça.

UM COQUETEL DE ASNEIRAS. É UM FILME DO TERRENCE MALICK? NÃO; É UMA COMPOSIÇÃO ERUDITA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA? NÃO; É UMA NOVA RECEITA GOURMETIZADA À PAULISTANA? NÃO! É UMA RESOLUÇÃO DO PT!

De novo, o Oscar é tomado pelo politicamente correto e pelo socialmente justo. Que preguiça!

Em Selma – Uma luta pela igualdade, que concorre ao Oscar de melhor filme, vemos um Martin Luther King político, frio e calculista. Por mais que se indigne com a violência e a acepção sofrida pelos negros, David Oyelowo, intérprete de Martin, não deixa transparecer em sua atuação quaisquer sinais de ódio – não o vemos esmurrando mesas nem tacando Selma filmeobjetos contra parede — nem sentimentalismos – as lágrimas não se vertem.

A benevolência com que a História trata o pastor americano e ativista político chega a obnubilar pontos escusos de sua vida. A fragilidade dos laços familiares, sua vocação para o mulherio e seus momentos de insegurança e titubeio –presente no filme quando Martin telefona a uma irmã cristã e lhe pede uma oração, que vem em formato de uma canção soul – têm lugar na trama, tudo devidamente tratado com o decoro e discrição.

O pano de fundo do filme é a marcha de milhares de pessoas liderada por Martin contra a segregação racial, especialmente no que se refere ao direto do voto dos negros. Saindo de Selma até Montgomery, no Alabama, em 1965, os manifestantes enfrentaram uma série de intempéries com as autoridades, que, inicialmente, proibiram o ato. Resistentes, mesmo assim ousaram marchar, no que foram duramente reprimidos pela polícia.

As imagens dos espancamentos e os relatos das brutalidades ocorridas ganharam os Estados Unidos via imprensa. O movimento ganhou coro, e atraiu a simpatia de brancos e religiosos, que se juntaram aos negros em uma segunda marcha. E é nessa segunda investida que o caráter frio do protagonista desponta, mostrando claramente como a opinião dos outros, para ele, pouco importa.

Apesar da acuidade do tema de que trata, Selma não apela à tentativa de conquistar a plateia pelas lágrimas. Há contenção – às vezes, até excessiva – nos diálogos, nas altercações entre Martin e o presidente Lyndon Johnson, nas cenas de espancamentos sofridos pelos negros, nas manifestações de indignação e na trilha sonora nos momentos dramáticos.

Trata-se, sem dúvida, de um bom filme, mas apenas isso. Não entendo a razão da euforia que orbita em seu entorno. Por sinal, a academia parece, nos últimos anos, ter-se imposto a condição de indicar em todas as edições do Oscar alguma obra que trate do drama vivido pelos negros. Histórias Cruzadas (bom), Lincoln (chatíssimo), 12 Anos de Escravidão (ótimo) e, agora, Selma (bom) são exemplos disso.

Comparemos as indicações de Selma com as demais, e veremos que sua média está bem abaixo. Sniper Americano concorre a 6 estatuetas; Birdman, a 9; Boyhood, a 6; Grande Hotel Budapeste, a 9; O Jogo da Imitação, a 8; A Teoria de Tudo, a 4; Whiplash, a 5; e Selma a apenas 2.

Os atributos que alçam Selma a um bom filme não são suficientes para a conquista do Oscar. Mas vai tentar convencer a academia, tomada por politicamente corretos, do contrário.

De novo, o Oscar é tomado pelo politicamente correto e pelo socialmente justo. Que preguiça!