É de vomitar

Sabem a babá que virou fetiche social ?

Os colunistas do Facebook, tão logo a foto da moça empurrando o carrinho dos filhos brancos dos patrões disseminou-se pela internet, trataram de dar um tratamento bocó-marxista à questão, baixando o nível da discussão à velha luta de classes. É óbvio que o cheiro de naftalina tomou conta do ambiente. Ninguém mais engole esse arranca-rabo social.

Mais: houve, ainda, quem tentou ressuscitar o passado enterrado pela História, dando contornos escravocatas à foto: a moça negra trabalhando para patrões brancos representaria a escravidão dos nossos dias.

Dane-se se ela tem carteira registrada, se seu salário é pago em dia, se suas condições trabalho são boas, se é tratada com respeito e dignidade, se seu Fundo de Garantia é depositado, se todos os seus direitos são assistidos… Dane-se! O simples fato de ela ser negra e seus patrões serem brancos basta para asseverar que a semiótica da imagem nos remete, inescapavelmente, a Casa Grande e Senzala.

Veio parar em minha caixa de e-mail um texto de um uspiano (hahaha) sobre o episódio. Anotou o rapaz:

As críticas a você e sua esposa são as críticas a um país escravocrata cuja história sempre produziu bastante fetichismo dos trabalhadores mais pobres, de modo que não basta terem escravizado negros e dizimado índios durante séculos, é preciso se desresponsabilizar das coisas básicas da vida doméstica e usar o trabalhador como símbolo de inferioridade numa sociedade de classes e apresentá-los como prêmio de uma suposta vida meritocrática.

Quanta jumentice sintetizada em um único parágrafo, não?

Aos fatos:

1- quem sempre “produziu bastante fetichismo dos trabalhadores mais pobres” e ainda produz são justamente os intelectuais que, arvorando-se no direito de falar em nome daqueles que não lhe outorgaram voz, fomentam renitentemente uma luta de classes. Os trabalhadores em geral estão pouco se lixando pra isso. Querem apenas trabalhar, ganhar dinheiro, garantir o sustento de suas famílias e viver com o mínimo de dignidade. Se a fonte de seu salário é um banqueiro ou é o dono de um pequeno negócio, pouco importa. Se seus patrões são milionários ou não, pouco importa. A grande maioria dos trabalhadores quer apenas trabalhar e evoluir na vida. Só isso!

2- quando o rapaz diz que a elite “escravizou os negros”, parte de premissas erradas. Fica a impressão de negros foram escravizados porque era negros e de que os brancos foram os grandes artífices do fenômeno. É como se tudo se resumisse ao contorno racial. Nada mais falso! Primeiro: a escravidão não foi um fenômeno racial, mas sim econômico. Segundo: brancos não escravizaram negros, mas negros escravizaram negros. Potentados africanos foram construídos com base na escravidão, fosse por meio do sequestro e conquista de tribos rivais ou de guerras territoriais. Brancos compravam africanos já na condição de escravos. Isso não é opinião, é história amplamente amparada por vasta bibliografia.

3- ao dizer que ter uma babá é “usar o trabalhador como símbolo de inferioridade numa sociedade de classes”, o rapaz deixa claro ser babá, empregada doméstica, faxineira, ou ter qualquer outro emprego dessas naturezas, independentemente de serem trabalhos dignos como qualquer outro, é vexatório. No fundo, incorre na mais cruel das discriminações: para defender a babá, diz que ser babá é algo inferior.

É de enfiar o dedo na goela e vomitar.

É de vomitar

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