JUSTIFICANDO O INJUSTIFICÁVEL

O momento político por que atravessamos tem servido para descortinar opiniões estarrecedoras. O Estadão de ontem ouviu dois especialistas para tratar sobre as manifestações que movimento Black Bloc articula por todo o País.

Um dos entrevistados é Rafael Alcapipani Silveira, coordenador de pesquisas organizacionais da Fundação Getúlio Vargas. Disse ele: “Muitos dos jovens que estão usando essa estratégia de violência nas manifestações vieram das periferias brasileiras. Eles já são vítimas da violência cotidiana por parte do Estado e, por isso, os protestos violentos passam a fazer sentido para ele”. Eis aí uma ponto de vista propalado na academia, por cabeças pensantes, que estão por aí dando aulas e formando opiniões.

Não é uma pérola? Primeiro, vamos tratar de uma escancarada mentira: quem está indo às ruas não são os pobres, é a classe média. Não tenho dados estatísticos à mão que tracem o perfil dos manifestantes. Tenho somente a imagem em minha retina do que presenciei em três protestos aos quais compareci. Sim, meus caros, quando falo do assunto, não emito “opiniões de gabinete”; falo com base no que vi de perto. Vou tratar dessas experiências em um outro post, pois há aspectos que merecem dedicada atenção.

Pablo Ortellado, filósofo, também deu seus pitacos. “Depois de Seattle, os movimentos sociais passaram a aceitar a violência como uma das estratégias políticas e a debater abertamente a questão”, sustentou.

A opinião de ambos serve como um dos comburentes às badernas que varrem o Brasil. Impressionante é que o jornal, em nenhum momento, contrapôs as consequências desses pontos de vista caso sejam adotados como consenso pelas ruas. A reportagem completa está aqui. Quando Ortellado afirma que o uso da violência pode ser justificado de acordo com a necessidade, notem que o repórter não o inquire a descortinar sua subjetividade – afinal de contas, “necessidade” é muito relativo. Levando ao pé da letra tais argumentos, pode-se justificar o injustificável

Vamos aos fatos: Alcapipani não lista quais são as tais violências que o Estado impinge aos moradores da periferia. Ele deixa a questão no ar, e, claro, o espírito de demagogia se encarrega de conduzir os mais distraídos às conclusões populistas: ônibus lotados é uma violência, assim como são os postos de saúde em frangalhos, a falta de segurança etc. Então ficamos combinados assim: se há gargalos de gestão pública, a gente responde na base da porrada, esse expediente civilizado. Afinal de contas, como sabemos, as maiores democracias do mundo e os países de primeiro mundo fizeram do vandalismo seu baluarte de sustentação. Um conhecido, certo dia, foi vítima de uma tentativa de assalto. Revoltado, achou-se no direito de ir à Paulista apedrejar bancos. Confrontei-o com algumas lógicas da democracia. Ele esqueceu seu intento e preferiu ir tomar um café com a namorada.

É patente que carecemos de muitas melhorias. Já deixei isso claro no post anterior. Mas não podemos nos deixar levar pelos impulsos da massa anencéfala e sair por aí com o dedo em riste, berrando contra tudo-isso-que-está-aí Atemo-nos à realidade de São Paulo: somos o estado que mais prende criminosos no País, a cidade de São Paulo é a capital menos violenta dentre as 27, o estado é o quarto colocado no ranking nacional do Ideb (5,6) – atrás do Distrito Federal (5,7), Santa Catarina (5,8) e Minas Gerais (5,9). –, o melhor metrô do Brasil é o de São Paulo… Não estou dizendo que vivemos as mil maravilhas do mundo. Mas há de se reconhecer que avançamos em muitos aspectos. Quem vai às ruas, no entanto, parece reivindicar, via quebra-quebra, a reinvenção do Brasil.

Se puderem, busquem as páginas dos Black Blocs no Facebook. Os bravos guerrilheiros agendaram para o dia 7 de setembro “a maior manifestação da história do Brasil”. Há até quem defenda a invasão do Congresso Nacional e o enforcamento de deputados e senadores. Mesmo com tudo sinalizando o inferno que será esse dia, sabemos que qualquer ação das polícias visando coibir depredações serão tidas como arbitrárias. Evitar e reprimir os crimes cometidos por vândalos virou um estigma. Mais uma contribuição gestada no útero das massas.

JUSTIFICANDO O INJUSTIFICÁVEL

PORQUE GOSTO DA DEMOCRACIA, DIGO NÃO ÀS MANIFESTAÇÕES

Um grupo de vândalos tentou invadir a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) na última sexta-feira. Desde ontem, acampam em frente ao Palácio dos Bandeirantes. Vocês sabem como andam nossos dias: basta que meia dúzia se reúna para reivindicar qualquer coisa e resolva travar a cidade, mandando às favas o direito constitucional de ir e vir de quem optou por não se manifestar por nada, que já ganham aplausos aquiescentes. Velhos babões, aos montes, esbanjam ânimo: “Jamais pensei que esses jovens iriam às ruas como vão hoje”, disse dias desses um graúdo empresário a mim. Voz das ruas, recado dos jovens, primavera brasileira, gigante acordou, enfim, essa coleção de clichês aboletada numa espécie de mal estar da nossa democracia impulsiona esses movimentos, conferindo-lhes especiais estima e legitimidade.

Não, meus caros. Não estou com essa gente. Sou desses que sempre desconfia de multidões. Qualquer pessoa que já mergulhou no livro Psicologia das Massas e Análise do Eu¸ do Freud, há de concordar comigo que coletividades são ameaçadoras, capazes de tudo. Tudo mesmo! O limite para seus intentos é o céu. Como vivemos numa democracia, a lei e a ordem definem até onde o povo é soberano. É simples de entender.

Logo no início dos protestos, um monte de amigos, alguns bem intencionados até, me indagaram o porquê de eu não aderir ao clamor das ruas. Como o PT está na mira das manifestações, uma porção de gente pensou que me deixaria embalar pelo coro dos descontentes. Não, não me deixei. Nem tudo que está contra o PT necessariamente me agrada. Não gosto do PT por seu autoritarismo, por seus métodos escusos de solapar a democracia e subjugar as instituições. Se, no entanto, as forças que emergirem se propõem a combater o PT por métodos que, no final, acabarão resultando em menos democracia e minando as instituições de sua legitimidade, coloco-as logo lado a lado de quem pretendem guerrear. Sim, queridos: se o que quer essa multidão (esses “jovens”, como uns babões estão adorando dizer) vier a ser implementado, assistiremos à democracia indo pra lama.

Eu não sou sociólogo nem cientista político. Sou um implacável seguidor da lógica. Só ela me orienta e ilumina minhas convicções. Eu sou eu e minhas ideias. Meu farol de Alexandria é minha consciência. E é com base nesses pressupostos que arrisco dar contornos aos fatos que estão ocorrendo no País. Preparem-se, este texto será longo.

É óbvio que entre as reivindicações das ruas muitas são honestas e procedentes. As expressões de descontentamento “contra tudo o que está aí” (toda vez que algum pseudoengajadinho me diz esse mantra, sinto uma preguiça aguda) podem ser levadas a quem de direito. A forma como o fazem, no entanto, pode contribuir para que o verniz supostamente democrático dessas vindicações se desfaça. O PT se tornou um dos principais alvos dos protestos. Dilma Rousseff, dos píncaros de seus 63% de aprovação do governo em março, despencou para 31%. Entretanto, não admito que manifestantes recorram a práticas que, se transformadas em norte político e moral, levariam o País ao brejo institucional e ao vácuo democrático – males maiores dos que se propuseram a combater.

Assistimos nas ruas, durante o mês de junho barulhento, a cartazes pedindo o fim dos partidos políticos. Esse anseio encontrou eco em muitas cabeças-de-vento. Não há como fazer política sem…política, da mesma forma que não há democracia sem representatividade – e esse papel cabe aos…partidos políticos. Isso justifica a razão de Marina Silva ter sido a grande beneficiada de toda essa barafunda. A sonhática (que coisa mais ridícula!) se diz, com a pompa da realeza, não pertencente a nenhum partido. Sua Rede estaria fora do campo gravitacional em torno do qual giram todas as demais agremiações políticas. E há quem caia de amores por esse discurso.

Sim, eu quero o PT fora do poder. Se vocês recorrerem aos arquivos deste blog, encontrarão uma fartura de posts que justificam essa minha posição. Só que, vejam como sou exótico, quero apear o PT do governo via urnas, via voto. Não quero – nem admito – quaisquer tentativas de golpes. Goste-se ou não, Dilma governa porque foi eleita, obedecendo todos os ritos democráticos previstos em lei. Se Dilma – ou Sérgio Cabral, ou Geraldo Alckmin, ou o prefeito de Arceburgo… – tiverem de cair fora, que sejam por esses valores.

O problema é que os manifestantes ignoram solenemente esses princípios. Eu tenho horror a minorias que querem impor sua vontade à maioria. Sempre vi com muita desconfiança ondas de coletivismos. Rogam para si uma legitimidade que ninguém lhes conferiu e, com isso, acham-se acima da ordem. Por que digo isso? Simples: desde junho, a Avenida Paulista foi travada por manifestantes inúmeras vezes. Dizem-se pacíficos. Mas não são. O que há de pacífico interromper abruptamente o direito de ir e vir da maioria? Como se julgam os portadores do bem, acham razoável que suas vontades sejam impostas aos demais. Eles acreditam Alckmin tem de ser deposto. Logo, tomam as ruas,  impedem motoristas de trafegar e, por que não?, pensam ser justo tomar a Assembleia Legislativa à base da força. Houve gente que só faltou ter orgasmos quando um bando de delinqüentes subiu ao teto do Congresso Nacional, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Não, meus caros, não é. “Mas são pacíficos”, dizem uns. O escambau! “Invasão” e “pacificidade” são termos que não se conjuminam.  

Pacíficos uma ova – O Datafolha realizou uma pesquisa para apurar o grau de aprovação às manifestações. 66% dos paulistanos são favoráveis; 34%, contra. Ora, isso também aprovo, até porque não tenho vocação pra ditador. Quando os protestos passam a atrapalhar a vida de quem optou por não se manifestar por nada, aí sou contra. 78% acham justa a ocupação da Paulista. Eu não acho. Dou, nesse caso, de ombros à maioria. Não é porque a maioria gosta e aprova que signifique que obnubilar o direito de ir e vir das pessoas é legítimo. Pensem no pandemônio que viraria a cidade se todo mundo com uma reivindicação embaixo do braço resolvesse tomar a Paulista. A praça é do povo como o céu é do condor, bem sei. Então que se faça esses protestos no Vale do Anhangabaú, por exemplo. Por que não marcam manifestações na Jacu Pêssego? Simples: porque esses valentes querem, sim, impor sua vontade a todo mundo.

“Ah, mas a maioria é de bem e não quer confusão”, dizem uns cândidos. Pode até ser verdade. Só que temos de levar em consideração os sentimentos que se arregimentam quando fazemos determinadas vindicações. Mais: nunca vi tantas manifestações infiltradas por vândalos. Tanto que vandalismo, em certa altura do campeonato, virou novilíngua: passou a ser manifestações pacíficas infiltradas por vândalos. “Os quebra-quebras são exceções”, dizem muitos. Nunca vi tanta exceção se repetir como se regra fosse. Mais: pesquisa encomendada pela TV Globo feita com participantes de manifestação e exibida no Fantástico recentemente traz um dado alarmante: 5% dos que engrossam o caldo desses protestos acham que depredações são válidas; 28% as interpretam como justificadas em alguns casos. Vamos à frieza cáustica dos números: 33% dos “pacíficos”, portanto, têm pré-disposição para sair por aí arrebentando lojas bancárias, depredando patrimônio público, promovendo cenas de violência pelas cidades. É pouca gente? Não, não é. Significa que se uma passeata reunir 100 mil pessoas na Paulista, 33 mil delas acham justo recorrer a métodos pouco republicanos para expressar seu descontentamento.

A Globo mostrou esse dado com a mesma naturalidade que se descortina a preferência do povo por chuchu ou abobrinha. Como o jornalismo anda em crise, não ocorreu ao repórter e ao editor fazer uma regra de três simples. Houve manifestações no Rio de Janeiro cujo público fora, segundo a Polícia Militar, de meio milhão de pessoas. Por que a Globo não disse que, perante os resultados de sua própria pesquisa, 165 mil pessoas, no mínimo, eram vândalos em potencial? Nadica!

A satanização das polícias – Para complicar, teve início o processo de demonização das Polícias Militares País afora. Ações legítimas de policiais passaram a ser encaradas como repressão, barbárie. Jovenzinhos idiotas e descolados quiseram logo brincar de um passado que desconhecem – ah, os livros, que falta fazem a muitos! – e nunca viveram a fim de evocar a sombra da ditadura. Disseram-se reprimidos. Tadinhos! Não se pode nem mais sair por aí travando uma cidade e quebrando tudo que se vê pela frente que a PM vem coibir, não é mesmo?

A fenda dessa retórica teve início em 13 de junho, em São Paulo. Os protestantes haviam firmado um acordo com a PM de não tomar a Paulista. Mas quê… Desobedeceram flagrantemente o compromisso assumido. Às 19h08, policiais pediram aos manifestantes que não subissem a Consolação rumo à Paulista. Os valentes deram de ombros e enfrentaram o cordão de isolamento da polícia. Ora, se é CORDÃO DE ISOLAMENTO, é pra não ser passado, certo? Teve aí o início da confusão, que foi maior desde o início dos protestos. Nota à margem: em nenhuma democracia do mundo a polícia fica quieta quando apanha. Por aqui, o povo acha lindo ver um agente da ordem levando paulada sem reagir. Adiante. Pipocaram cenas de policiais militares agredindo pessoas. Jornalistas feridos passaram a ser exibidos aos montes em milhares de sites.

Se houve abusos por parte da polícia, que sejam investigados e os culpados punidos. Ponto. Isso não significa que a PM, a partir de então, tivesse de ficar acossada pela patrulhae, consequentemente, constrangida de cumprir o papel que a lei lhe faculta. Os baderneiros passaram a contar com salvo-conduto da opinião pública e da imprensa para fazer o que bem lhes derem no juízo. As ruas foram seqüestradas. O direito de ir e vir foi cassado. Aos policiais restaram apenas acompanhar os manifestantes. Qualquer bomba de gás lacrimogêneo para reprimir ações de vandalismo passou a ser arrostada como abuso policial. A gritaria superabundou o imperativo da democracia. Pior: sob os aplausos de muitos.

Semanas depois, no Rio de Janeiro, assistiu-se a verdadeiras ações de terrorismo contra o patrimônio histórico, quando a sede da Alerj foi depredada. Um policial foi violentamente espancado. Seu sangue banhou as calçadas do centro. Seu drama não foi destaque, no dia seguinte, em nenhum telejornal. Não vi nas redes sociais indignação contra tamanha truculência. Já em favor dos baderneiros, bem, creio ser desnecessário mencionar os gracejos havidos.

“É por direitos” – O discurso catalisador que sequestrou psiquicamente as massas veio do Movimento Passe Livre. Mobilizaram-se contra os R$ 0,20 de aumento nas tarifas de ônibus e metrô e foram às ruas. Reuniram, no início, alguns gatos pingados. É possível que a iniciativa tenha sido o agente hegeliano do processo, pra remeter um tiquinho ao livro A filosofia da história, de Hegel. Nesta obra, o filósofo diz-se estar consciente de que as forças da sociedade se inserem nas ações de líderes, a fim de realizar seus propósitos inconscientes. Hegel afirma que Júlio César derrotou seus inimigos e destruiu a Constituição de Roma visando uma posição de supremacia, é verdade; no entanto, o que o torna uma figura importante para história é que ele fez o necessário para unificar o Império Romano, e o autoritarismo era o único caminho para isso. “Assim, não foi apenas seu interesse pessoal, e sim um impulso inconsciente, que ocasionou a realização daquilo cujo momento havia chegado”, escreveu o filósofo.

Colocar Hegel e MPL num mesmo parágrafo soa mal, eu sei. Mas recorrer à teoria é um caminho para explicar momentos e momentos. Em nenhum momento, até o arborescer dos grandes protestos, os líderes do movimento expuseram descontentamento contra as condições adversas do País em questões como educação, saúde e segurança. Sua pauta era, sim, única: contra os R$ 0,20. Se não baixassem as tarifas, São Paulo iria parar, de acordo com eles. “Os 20 centavos eram a gota d’água que faltavam para a explosão da indignação geral”, muitos constaram. Estava, então dada a senha para a materialização de uma máxima do interior: cada enxadada, uma minhoca. “Não é por R$ 0,20; é por direitos”, muitos emplacaram.

É claro o Brasil é violento. Os 50 mil homicídios ocorridos anualmente são a prova disso. Os hospitais públicos padecem de médicos e equipamentos. Nossas escolas, adeptas de Paulo Freire — cujos métodos de ensino abomino – e do besteirol do Construtivismo, não conseguem ensinar os alunos a destrincharem os objetos diretos do Hino Nacional. A claque política continua vivendo num paraíso paralelo, desconectada da realidade dos brasileiros e ensimesmada com seus próprios interesses. São, sim, reais e legítimos o combustível das reivindicações.  Há razões às dezenas para protestar, mas o clima criado para a realização das manifestações advém de tensões artificiais. Querem a prova? Comparem a quantidade de presentes aos protestos antes do dia 13 de junho e depois. A ação mais firme da PM de São Paulo somada à capacidade que as mentiras têm de ganhar corpo nas redes sociais confluiu para a criação uma espécie de mal estar geral. A partir daí, corolários equivocados foram alçados à condição de verdades imperativas.

Os manifestantes são pacíficos. Os casos de vandalismo são exceções.
Depredar é feio, mas fazer da cidade um território livre à ocupação é bonito.
Aqueles que impedem o acesso aos 16 hospitais da região da Paulista são democratas.
Os jovens estão mudando o Brasil. Eventuais vandalismos são efeitos colaterais. Só.
O importante é ir pra rua gritar. Contra o que? Qualquer coisa! O importante é berrar.
Não importa se os métodos são errados. Pelo menos alguém está fazendo algo.
Qualquer ação da polícia é repressão.

Dilma ouviu a voz das ruas. E no que deu? – A presidente Dilma resolveu dar aquela afagada na cabeça das ruas. Quebrou a cara, e várias vezes. A primeira proposta do Planalto foi uma constituinte exclusiva para a reforma política, algo escandalosamente autoritário e inconstitucional. Hugo Chavez recorreu a esse expediente na Venezuela para atrair para si todos os poderes. Até mesmo o vice-presidente da República, Michel Temer, veio a público dizer que o projeto era inviável. O PT é mesmo muito engraçado: essa gente está há 10 anos no poder; e só agora tiveram esse surto de boa vontade para fazer a reforma política. Foi uma tentativa natimorta. Dilma viu-se obrigada a voltar atrás.

Um investimento de R$ 50 bilhões em mobilidade urbana também foi prometido, bem como a destinação total dos royalties do pré-sal – que nem sequer existem ainda – à educação. Como executar essas cifras é o grande mistério. Números oficiais do governo mostram o abismo que há entre orçamento autorizado e recursos efetivamente aplicados. Dos R$ 50,6 bilhões prometidos para a saúde, apenas 39,6% foram executados; em saneamento, 48,6% dos R$ 16,7 bilhões; na educação, 61,3% dos R$ 53,3 bilhões; em transportes, 60,5% dos R$ 118,5 bilhões. Se o governo mal dá conta de investir o que tem, de que adianta anunciar mais recursos para isso ou aquilo? Mais: quem disse que o problema da educação é de financiamento? É, sim, de falta de gestão adequada de recursos. O resto é conversa pra boi dormir.

O Mais Médicos, programa que impingia a todos os estudantes de medicina o exercício do ofício em hospitais públicos para poderem ter diploma sob o argumento de que o sistema público de saúde carece de médicos, também foi por água abaixo. De um autoritarismo tremendo, o precedente que se abriria seria um perigo. Se amanhã os engenheiros em obras do PAC se tornarem escassos, o governo vai obrigar estudantes de engenharia a serem “engenheiros públicos”? Se faltarem professores, os estudantes de magistério terão de dar aulas compulsoriamente nas escolas do Estado? Se dentistas se tornarem raro no Amazonas, os formandos em Odontologia serão enviados às comunidades ribeirinhas, do contrário, não têm diploma?

Perceberam? No afã de dar resposta aos anseios das ruas, o governo pôs em xeque a Constituição, a liberdade individual, o apreço pelas instituições e, por conseguinte, a própria essência da democracia. É claro que não se pode culpar o povo pelas respostas desastradas que Dilma deu. As pessoas levam à praça suas reivindicações. Ponto. O PT, ruim de governo, é que tem de ser questionado pela desgraça de suas réplicas.

Concluindo – Fosse o Brasil um País com partidos políticos sólidos, que não servissem apenas como moeda de troca para tempo de propaganda partidária e alimento ao deplorável sistema de presidencialismo de coalizão, talvez tantas insatisfações represadas teriam sido captadas antes de eclodir todas essas manifestações. Boa parte de quem está nas ruas tem como referência de governo apenas os 10 anos do PT e tudo o que de ruim fizeram ao Brasil. O avanço social cantado em prosa e verso pela dupla Lula-Dilma perdeu o fôlego. As pessoas não querem mais apenas a TV de 42 polegadas, o notebook comprado a longas prestações e o iogurte na geladeira, igualmente financiada. Esses novos menos pobres querem qualidade fora de casa também: escolas boas, hospitais decentes e sentirem-se seguras. 

Demorou pro povo ir pras ruas porque durante muito tempo o PT teve o monopólio da praça. O partido deu dinheiro a ONGs, à UNE, ao MST, às centrais sindicais – ou seja, a todas as franjas capazes de mobilizar multidões. Num passado não muito distante, as pessoas foram às ruas para protestar contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, as privatizações, o Fundef e o Plano Real. Por trás das manifestações estava o PT, que arrebanhava multidões. Pergunto: a LRF não era boa? Não era igualmente benéficos o Fundef, o Plano Real e as privatizações? Sim, eram todos bons e deram inestimáveis contribuições ao Brasil. Mas e  daí? A turma engoliu as abobrinhas do PT e, bovinamente, foi protestar.

O momento do País serve para atestar a inapetência das oposições, que foram incapazes de detectar tantas reclamações reprimidas. Mas fazer o quê, não é mesmo? No Brasil, partidos de oposição sentem-se constrangidos de criticar, botar o dedo na ferida e representar o eleitor de…oposição.  Tanto que Marina Silva, virtual candidata à Presidência da República, foi a que mais ganhou com isso. Se Marina Silva foi a grande beneficiada, em boa coisa não vai acabar.

Assim, meus caros, como gosto da democracia, digo não às manifestações tal qual estão ocorrendo. O direito de tomar a praça e de se expressar é livre. Pena que essa liberdade tem sido usada para depredar patrimônio público e privado, censurar jornalistas, atacar agentes da ordem, impedir o sagrado de direito de ir e vir, invadir prédios públicos, promover bagunça, fazer apologia ao fim da representação política, desvirtuar a democracia, criar falsas tensões…

PORQUE GOSTO DA DEMOCRACIA, DIGO NÃO ÀS MANIFESTAÇÕES

PT E LULA, DEMOCRÁTICOS? FAZ-ME RIR!!!

Os petistas foram capazes de transformar tudo aquilo que julgavam danoso ao País em virtudes suas. Sequestraram o Brasil dos brasileiros. Passaram a borracha na história recente e a reescreveram a seu modo. Quem foi FHC? Ah, um Zé-Ninguém. Quem foi Lula? O homem que tirou o Brasil da miséria. Que foi FHC? Ah, aquele que entregou o patrimônio público do País ao capital a preço de banana. Quem foi Lula? Ora, um grande estadista. Quem foi FHC? Ah, foi aquele, do apagão elétrico. Que foi Lula? O da autossuficiência da Petrobras (o que é uma mentira, registre-se). Quem foi FHC? Ah, aquele que praticou genuflexão perante os americanos e retirou seus sapatos no aeroporto, uma humilhação nacional. Quem foi Lula? Ah, aquele que conquistou respeito internacional e não baixou a cabeça pros imperialistas (argh!). Quem foi FHC? Um intelectual esquerdista de meia-tigela que no início de seu governo se rendeu ao conservadorismo do PFL em nome da governabilidade. Quem foi Lula? Ah, foi o grande progressista que se aliou até a José Sarney — tudo tendo em vista o bom andamento do País, claro.

Eis aí a coleção de absurdos cultivada em dez anos de petismo no poder. Claro que isso não se deve somente à habilidade do PT de falsear os fatos e submete-los a torções mil. As oposições, inépcias, também devem ser chamadas à razão. Parece que só agora, depois de uma década, alas do PSDB pretendem fazer um resgate histórico dos feitos de FHC. Às vezes me dá uma saudade danada de Mário Covas…

O PT remodelou a história. Foram muito bem habilidosos nessa sina. Como o projeto de poder dessa gente é eternizar-se na suserania do Brasil, fizeram o que lhes aprouveram para o êxito: desconstruíram com inverdades o discurso dos adversários, às vezes, apelando à truculência. Quem não se lembra do senhor Luís Inácio Lula da Silva apregoando a extinção do DEM em Santa Catarina? Agora, no entanto, há um novo imperativo na praça. Aquilo que Lula disse ser uma farsa, aquilo que o PT sustentou ao longo dos últimos anos não passar de caixa dois de campanha está devidamente provado e nominado: existiu o mensalão, sim, e seu objetivo era dar um golpe na República. Doravante, urge, mais do que nunca, que a máquina de escrever do PT encontre meios para editar mais esse episódio da cena política brasileira. Os meios aos quais se socorrerão para isso já estão, em parte, definidos: cortes internacionais, desestruturar as decisões dos ministros do STF com base em teorias de juristas de outros países, demonizar a imprensa e regulamenta-la, preparar a militância para pressionar imprensa e STF no julgamento do mensalão mineiro, apresentar José Dirceu como mártir, construir um elo entre as sentenças do Supremo e um suposto preconceito das tais elites – como se o primeiro elemento derivasse do segundo. E por aí vai.

Querem saber de uma coisa? Novamente, eles têm tudo para, mais uma vez, sobrepujar as verdades factuais. A nota da executiva nacional do PT é uma declaração de guerra. Todos os componentes, todos os indícios, toda a astúcia do partido para reverter o dano à sua imagem estão ali. Impressionantemente, como sempre, a oposição assiste passível a esse show de horrores, silenciosa, inapta, incapaz de mostrar à sociedade o quão nocivo é às instituições e à própria democracia o processo iniciado pelo PT. Cadê Aécio Neves, o senador promessinha? Cadê Sérgio Guerra? Onde está Roberto Freire? Não se ouve a indignação de Agripino Maia. Por quê? A sempre mui vigilante imprensa, onde está? O perigo da regulamentação dos meios de comunicação é real. O PT, que vive tachando os veículos de “mídia elitista” e “golpista”, recorre a eles para legitimar suas opiniões. A Folha, por exemplo, dá voz a essa turma no seu espaço Tendências e Debates. Até que ponto é saudável um jornal vocalizar aspirações cujos interlocutores querem mais é ferrar a… imprensa?

Por que ninguém vocifera? Os sindicatos estão nadando no dinheiro. Devem eterna gratidão a Lula, que não acabou com esse vergonha que é a contribuição sindical compulsória, garantindo às entidades milhões e milhões de reais anualmente. A UNE, aparelhada pelo PC do B, vez por outra recebe um dinheiro oficial. As ONGs, idem. A quem resta, portanto, jogar luz sobre os fatos e não permitir que sejam obnubilados pela metafísica reinante do PT? A quem ficará o papel de arauto do alerta de que o povo entregou ao PT o direito de governar o País, mas não o de violar o Estado, não o de reescrever o passado à custa do futuro. Quem? Sinceramente, não sei.

Os construtores da democracia

No post abaixo deste, publico um vídeo em que o deputado petista José Guimarães declara que criminalizar o Lula é “criminalizar a democracia brasileira”. Nem nos Estados Unidos, país no qual vigoraram por anos e anos as leis de segregações raciais, um político ousaria dizer que “criminalizar Obama é atentar contra a democracia”. Pouco importa a cor da pele do presidente. Lá, o direito de divergir e o de apontar erros não é submetido a esse tipo de cretinice. Por aqui, se alguém ousar chamar Lula pelo nome que merece (mentiroso, prosélito, ignorante, autoritário) vai para a pira. Fernando Henrique Cardoso, por ser intelectual, pode receber chibatada; Lula, que deliberadamente decidiu não estudar, não. Seria preconceito!

Se o PT reivindica a si o papel de precursor de nossa democracia e exibe como exemplo a biografia do ex-terrorista José Dirceu e do ex-presidente Lula, devemos questionar: até que ponto isso tudo é verdade? Se esse é o meio encontrado por eles para minar o cenário pós-mensalão, então é preciso que sejam colocados alguns pingos nos “is”. Alguns fatos que mencionarei a partir daqui já foram tema de posts deste blog. Os arquivos estão aí. Consultem.

Então o PT e Lula são os pilares de sustentação da democracia brasileira? Convido-os a voltar a 1988, ano em que petistas se recusaram solenemente de participar da sessão que chancelou nossa Constituição.

 Então o PT e Lula são os pilares de sustentação da democracia brasileira? Airton Soares, José Eudes e Bete Mendes são vítimas dessa tal democracia petista. Os três, deputados, à época, foram expulsos do partido só porque participaram do Colégio Eleitoral responsável pela eleição de Tancredo Neves. Mais: Luíza Erundina, apenas por ter aceitado participar do governo Itamar Franco como ministra da Administração, também foi expulsa do PT.

Então o PT e Lula são os pilares de sustentação da democracia brasileira? O que há democrático em desejar a desestabilização econômica do Brasil? Remeto-vos à aprovação do Plano Real, responsável por colocar nossa economia nos trilhos. O PT se mobilizou fortemente para votar CONTRA o projeto. O mesmo ocorreu com o Proer, as privatizações – responsáveis por enxugar a então pesada máquina pública e dar, hoje, uma média de dois telefones celulares na mão de cada brasileiro –, e a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Então o PT e Lula são os pilares de sustentação da democracia brasileira? Os oito anos de Lula à frente do País foram marcados pelas fortes e constantes investidas contra os direitos individuais amparados pela Constituição. Sigilos bancário, fiscal e telefônico etc… Tudo foi para o beleléu. Foram vítimas disso o humilde caseiro de Antônio Palocci e nomões da oposição.

Então o PT e Lula são os pilares de sustentação da democracia brasileira? Que raio de democracia é essa que cotidianamente quer aniquilar a liberdade de imprensa? Lula, quando presidente, deu incentivos à realização de inúmeras conferências que tinham por objetivo justamente isso: cassar a liberdade de imprensa. O Conselho Federal de Jornalismo, a tal regulação dos meios de comunicação e dispositivos de censura prévia contidos no Plano Nacional de Direitos Humanos são exemplos disso.

Então o PT e Lula são os pilares de sustentação da democracia brasileira? Foi o governo do PT que se utilizou das estruturas do Estado para confeccionar dossiês contra adversários políticos. Objetivo: arruinar suas candidaturas. O dossiê dos aloprados buscava culpar José Serra de algo que não fez; o da Casa Civil, de desmoralizar Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso.

Então o PT e Lula são os pilares de sustentação da democracia brasileira? Amigão de Lula, Ahmadinejad certamente concorda. Sua ditadura sempre recebeu solidariedade de nossa diplomacia. Já os presos políticos de Cuba – que só estão presos porque não podem exprimir o que pensam — talvez discordem. Compara-los a criminosos comuns, tais quais os que estão atrás das grades aqui em São Paulo, como fez Lula, não caiu bem. Outros que talvez também não achem Lula tão democrático assim sejam os boxeadores cubanos que fugiram da ditadura de Cuba ao Brasil. Foram devolvidos aos irmãos Castro pelas mãos de… Lula

Então o PT e Lula são os pilares de sustentação da democracia brasileira? As Farc, que até hoje não foram chamadas por aquilo que merecem pela nossa diplomacia, também podem concordar. A resistência do PT de qualificá-los como terroristas que são é comovente. Por falar em terrorismo: a Itália deve discordar de que Lula seja tão democrata assim. A razão disso: Cesare Battisti.

Então o PT e Lula são os pilares de sustentação da democracia brasileira? Que tal lembrar o que fez nosso grande democrata para financiar a compra da Brasil Telecom pela Oi? Mudou-se a Lei de Telecomunicações ao sabor da conclusão dos negócios. Nota à margem: a Oi é a ex-Telemar, empresa com a qual Lulinha tinha vínculos profundos.

Então o PT e Lula são os pilares de sustentação da democracia brasileira? Vamos, então,  finalmente,            falar do mensalão? Quem melhor definiu esse episódio da política brasileira foi Celso de Mello, decano do STF, em seu voto histórico sobre o caso. Pinço alguns trechos.

“Quero registrar,  neste ponto, Senhor Presidente,  tal como salientei em voto anteriormente proferido neste Egrégio Plenário, que o ato de corrupção constitui um gesto de perversão da ética do poder  e  da ordem jurídica, cuja observância se impõe  a todos os cidadãos desta República  que não tolera o poder que corrompe  nem admite o poder que se deixa corromper”.

“Este processo criminal  revela a face sombria daqueles que,  no controle do aparelho de Estado,  transformaram a cultura da transgressão em prática ordinária  e desonesta de poder, como se o exercício das instituições da República pudesse ser degradado a uma função de mera satisfação instrumental  de interesses governamentais e de desígnios pessoais”.

“A conduta dos réus, notadamente daqueles que ostentam  ou  ostentaram funções de governo,  não importando se no Poder Legislativo ou no Poder Executivo, maculou o próprio espírito republicano”

“O fato é um só, Senhor Presidente: quem tem o poder e a força do Estado, em suas mãos, não tem o direito de exercer, em seu próprio benefício, a autoridade que lhe é conferida pelas leis da República”.

“A corrupção deforma o sentido republicano de prática política, compromete a integridade dos valores que informam e dão significado à própria ideia de República,  frustra a consolidação das instituições,  compromete a execução de políticas públicas em áreas sensíveis  como as da saúde, da educação, da segurança pública e do próprio desenvolvimento do País, além de afetar o próprio princípio democrático”.

“Esses  vergonhosos atos de corrupção parlamentar (…) devem ser condenados e punidos com o peso e o rigor das leis desta República, porque significam tentativa imoral e ilícita de manipular,  criminosamente, à margem do sistema constitucional, o processo democrático,  comprometendo-lhe a integridade,  conspurcando-lhe a pureza  e suprimindo-lhe os índices essenciais de legitimidade,  que representam atributos necessários para justificar a prática honesta e o exercício regular do poder aos olhos dos cidadãos desta Nação”.

Caminhando para o desfecho

Eis aí, meus caros, alguns fatos que demonstram toda essa vocação democrática que o PT finge ter e à qual recorrerá para satisfazer seu intento. A partir de agora, claro, nada disso virá à baila. Em nome da causa – tornar alvas as reputações dos condenados no mensalão – maquiarão a história, recorrerão à mentira, tentarão destruir reputações, construirão alianças escusas e tudo mais que conflua para que os objetivos se concretizem. Já fizeram isso antes. Farão agora.

Usarão a democracia não para o bem comum. Mas em causa própria. Como sempre.

PT E LULA, DEMOCRÁTICOS? FAZ-ME RIR!!!

O PT QUER GUERRA!

A nota emitida pela Executiva Nacional do PT, na qual o partido faz seu muro das lamentações com o resultado do julgamento do mensalão, é um documento histórico. Não por ser daqueles papéis que perdurarão por anos em razão de sua, sei lá, contribuição patriótica ou de seu pretenso paroxismo democrático. Nada disso. O que se tem ali é, a um só tempo, desprezo pelas instituições, reducionismo do que é democracia, um claro aviltamento contra liberdade de imprensa e uma manifesta intenção de criar na sociedade um verdadeiro arranca-rabo entre quem presta (eles, claro) e quem não presta (nós) – sempre segundo suas próegundo suas prade um verdadeiro arranca-rabo entre quem presta (eles, claro) e quem nprias convicções.

O texto perora por um longo caminho, sustentado que, no processo do mensalão, os acusados não tiveram respeitados seus direitos de ampla defesa, as provas contidas nos autos eram insuficientes para condenar os envolvidos no caso e questionam a interpretação dos ministros quando da aplicação da teoria do domínio do fato. Lendo o documento tem-se a impressão que o STF transformou-se em um tribunal de exceção, unicamente formado para por nódoas em gente que só segue a moral e os bons costumes – tais quais José Dirceu, José Genoíno, vocês sabem…

A destreza com que querem passar a perna nas leis impressiona mais pela falta de vergonha na cara que pelo apego às verdades factuais. O que dizer, por exemplo, deste trecho da nota: “Parte do STF decidiu pelas condenações, mesmo não havendo provas no processo. O julgamento não foi isento, de acordo com os autos e à luz das provas. Ao contrário, foi influenciado por um discurso paralelo e desenvolveu-se de forma “pouco ortodoxa” (segundo as palavras de um ministro do STF)”? Pensei que tivesse ficado claro aos valentes, depois de quase 50 sessões havidas no Supremo e das sustentações dos ministros, que crimes da estirpe dos cometidos pelos bons mancebos petistas não deixam rastros. Alguém já viu um criminoso profissional assinar um documento liberando um empréstimo fraudelento? Alguém já viu algum ardiloso parlamentar canetar um documento no qual assume receber dinheiro e, em contrapartida, apoiará todas as demandas do governo na Câmara? Não enxergar isso é coisa de sabotadores, de quem usa objetivamente um cabresto e, ainda,  visa pô-lo na sociedade também.

Prossegue a nota: “O STF deu estatuto legal a uma teoria nascida na Alemanha nazista, em 1939, atualizada em 1963 em plena Guerra Fria e considerada superada por diversos juristas. Segundo esta doutrina, considera-se autor não apenas quem executa um crime, mas quem tem ou poderia ter, devido a sua função, capacidade de decisão sobre sua realização. Isto é, a improbabilidade de desconhecimento do crime seria suficiente para a condenação”. A teoria em questão é a do domínio do fato – a qual Lewandowski cismou em confundi-la com a teoria da responsabilidade objetiva. Trata-se, sim, de um expediente já devidamente incorporado ao direito brasileiro. “Mas quedê a prova?”, martelam os petistas. Simples: as provas são indiciárias – e foram todas suficientemente apontadas por Roberto Gurgel nos autos. Ora, é típico dos “crimes de poder”, como bem apontou a ministra Rosa Weber, não deixarem rastros. Não, não sou jurista. Mas sei lei e interpretar artigos de lei.

Construído o cenário propício ao início da estigmatização do STF, o documento atesta “o fim do garantismo, o rebaixamento do direito de defesa, do avanço da noção de presunção de culpa em vez de inocência (…) Pairam dúvidas se o novo paradigma se repetirá em outros julgamentos, ou, ainda, se os juízes de primeira instância e os tribunais seguirão a mesma trilha da Suprema Corte”. O que o PT está querendo dizer é simples: o STF abriu uma fenda para a criação de um ambiente de insegurança jurídica. “Não perdem apenas os que foram injustiçados no curso da Ação Penal 470. Perde a sociedade, que fica exposta a casuísmos e decisões de ocasião. Perde, enfim, o próprio Estado Democrático de Direito”, sustenta a aberração dos estultos.

A gritaria continua. Agora, com o dedo em riste contra a imprensa. Segundo a nota, a “mídia conservadora”, que, neste país, é oposição ao governo – sempre segundo o PT – pressionou os ministros Supremo para que os réus condenados fossem. Sem deixar claro quando e como, queixam-se de alguns juízes terem antecipado votos à imprensa, terem se pronunciado fora dos autos e terem se ingerido em assuntos reservados ao Legislativo e ao Executivo. Petistas, que até hoje teimam em fazer política sem polis e democracia sem demo, acusam o STF de estar colocando em risco a independência dos poderes. Num rasgo de sandice, diz a nota: “Único dos poderes da República cujos integrantes independem do voto popular e detêm mandato vitalício até completarem 70 anos, o Supremo Tribunal Federal – assim como os demais poderes e todos os tribunais daqui e do exterior – faz política. E o fez, claramente, ao julgar a Ação Penal 470”. É impressionante! Acusam de partidarismo uma corte que em sua maioria é composta por ministros indicados pelo…PT!

A coisa começa a ficar perigosa a partir daqui. E eis, agora, a razão pela qual classifico como histórico o conjunto de parvoíces colecionadas nessa nota. A corte constitucional que, em resposta à mais grave tentativa de golpe depois da redemocratização, julgou à luz do Direito todos os envolvidos no mais escandaloso esquema de corrupção dos últimos tempos, deixou um duro recado aos espertinhos de plantão: não, vocês não podem tudo; não, vocês não podem tomar de assalto a república em nome de um projeto de poder; não, vocês não podem se utilizar das prerrogativas de um regime democrático para solapar a democracia; não, vocês não podem comprar um Poder da República. À essa corte, o PT dá uma grande banana. Mais: transformam as decisões do STF em meras representações políticas inimigas, como se os ministros houvessem se reunido com a finalidade exclusiva de criminalizar o PT.

Leiam, agora, com atenção os trechos que seguem. São reveladores. Faço algumas intervenções em negrito.

“A luta pela Justiça continua (…) Na trajetória do PT, que nasceu lutando pela democracia no Brasil, muitos foram os obstáculos que tivemos de transpor até nos convertermos no partido de maior preferência dos brasileiros. No partido que elegeu um operário duas vezes presidente da República e a primeira mulher como suprema mandatária. Ambos, Lula e Dilma, gozam de ampla aprovação em todos os setores da sociedade, pelas profundas transformações que têm promovido, principalmente nas condições de vida dos mais pobres”.

Ou seja, para o partido, o STF não fez justiça ao condenar próceres do partido. Como Lula e Dilma caíram nas graças do povo, logo tal popularidade confere ao PT uma espécie de licença especial para colocar os ministros contra a parede. Pergunto: que liame há entre José Dirceu ir parar na cadeia e a eleição de um operário para a Presidência da República? O partido exibe este último elemento como estandarte da consolidação democrática no Brasil. Logo, se o PT foi quem mandou um operário ao Planalto, não podem ser alvo de quaisquer acusações de tentar fraudar a democracia. É de revirar o estômago!

“A despeito das campanhas de ódio e preconceito, Lula e Dilma elevaram o Brasil a um novo estágio: 28 milhões de pessoas deixaram a miséria extrema e 40 milhões ascenderam socialmente. Abriram-se novas oportunidades para todos, o Brasil tornou-se a 6a.economia do mundo e é respeitado internacionalmente, nada mais devendo a ninguém”.

O blá-blá-blá costumeiro (a gente melhorô a vida dus póbri destepaíz) agora passar a servir a uma causa maior: o partido que tirou 28 milhões de pessoas da miséria não pode ter membros seus acusados de fazer coisas terríveis, como, por exemplo, comprar votos no Congresso.

“É com esta postura equilibrada e serena que o PT não se deixa intimidar pelos que clamam pelo linchamento moral de companheiros injustamente condenados. Nosso partido terá forças para vencer mais este desafio. Continuaremos a lutar por uma profunda reforma do sistema político – o que inclui o financiamento público das campanhas eleitorais – e pela maior democratização do Estado, o que envolve constante disputa popular contra arbitrariedades como as perpetradas no julgamento da Ação Penal 470, em relação às quais não pouparemos esforços para que sejam revistas e corrigidas”.

É bom a imprensa, os ministros do Supremo e a Procuradoria Geral da República se prepararem para o chumbo grosso que vem por aí. Antes mesmo de o STF condenar os réus, escabrosas ações articuladas nos bastidores pelo PT visavam a censura da imprensa ao quererem abolir a palavra “mensalão” do noticiário. Correntes petistas influentes querem minar, desde antes do julgamento, o poder de investigação da PGR. Concluído o processo, esses esforços certamente serão tonificados. No Congresso, desde outrora sonham com essa ignomínia que é o financiamento público de campanha – como se isso fosse acabar com os mal feitos da política. Tão falso quanto a sinceridade do beijo de Judas. O que resolve mesmo é voto distrital. Mas deixemos isso pra outro post. Se há desde os primórdios do PT o incontido desejo de regular a impressa, isso, a partir de agora, passa ser imperativo.

É guerra que eles querem.
É guerra que estão declarando.

O PT QUER GUERRA!

TUDO DE NOVO…

Começaram a piscar as luzinhas de Natal. No centro dos shoppings pelos quais passei na última semana, já desponta aquele pinheiro gigantesco, repleto de penduricalhos e fios de algodão. Somos um país tropical – infelizmente –, mas cisma-se com impressionante contumácia simular um Natal gelado por aqui. Por que não nos conformamos logo que brasileiro quer mais é praia, calor, cerveja e farofa, seja Ano Novo, Carnaval, Páscoa, Festa Junina, Dia das Crianças, Finados ou Natal? O bom velhinho, com seus cervos e trenó, que vá procurar sua turma no pólo Norte. Eu adoraria que tivéssemos neve por aqui. Não suporto calor. Basta o termômetro oscilar entre os 22 e 25 graus pra meu humor ir pras cucuias. Basta despencar para 10 graus que meu espírito se locupleta. Mas fazer o quê, não é mesmo? Um dia ainda mudo pra Europa! Ou pra Nova York. O inverno daquela cidade já me basta. Mas como essa não é a realidade destepaíz, não vou comprar uma máquina pra ficar disparando bolinhas de isopor pra me servir de consolo…

Se há algo que me toma de assalto nesta época do ano é a preguiça. As pessoas mudam – não para algo novo, surpreendente, mas sim para aquilo que mudaram no ano imediatamente anterior. Como o verão se aproxima, as academias começam a ficar mais lotadas. Todo mundo querendo queimar os quilinhos a mais para poder mostrar as curvas na praia. Como não resistem a um mês de esteira ou a 15 quilos no supino, logo abandonam seu intento. E a barriguinha continua ali, firme e forte, tal qual – senão pior – no ano passado. E os braços, finos, assim permanecem. Tenho uma amiga — cujas curvas, se submetidas a uma severa avaliação, serão irremediavelmente reprovadas – que promete há três verões entrar em forma. “Meu sonho é andar pela Praia Brava em pé de igualdade com aquelas meninas”, vislumbra. Mas quê…

E aqueles que prometem trocar de carro, estudar mais, arrumar outro emprego, abrir um negócio, tornar-se uma pessoa melhor, ter filhos, fazer vasectomia, repicar as madeixas, arrumar namorada, comprar um iPhone, comprar a casa própria… Engraçado isso. O ano tem 365 dias, e as pessoas só se tocam que precisam prometer – mais aos outros que a si mesmas, registre-se – coisas quando veem o primeiro presépio montado à frente. Ou quando começa aquela nostálgica musiquinha de fim de ano da Globo. “Hoje é um novo dia,/ de um novo tempo que começou”. Pergunto: por que cargas d’água esse “novo dia”, esse “novo tempo” sempre tem de se iniciar justamente às vésperas do fim de um ano e do começo de outro? “Ah, as esperanças se renovam”, podem argumentar alguns. Ah, bom! Então ficamos assim: as pessoas se comprometem pela enésima vez com algo que não vão cumprir só pra sentir aquela pulsão renovadora; mas, na verdade, é tudo mentira. Continuarão gordas, comendo batata frita, tomando Coca-Cola, enfiando goela abaixo aquele frango com bacon e catupiry vindos na pizza nossa de cada dia. O celular ainda será aquele Baby da Telesp Celular. A vasectomia sucumbe à camisinha e aos anticoncepcionais…

Vocês certamente devem estar se perguntando se eu, Leandro Vieira, nunca aderi a esses rituais de pacto autopropositivo. Sim, claro! Em março do ano passado decidi deixar de ser gordo. Vinte quilos se foram, graças à minha profícua e diária vida de exercícios. Enchi-me do meu Blackberry em junho deste ano. Mandei-o às favas e comprei outro aparelho em julho. Em abril de 2005, tive o lampejo de ler a Bíblia toda. Conclui essa jornada um ano e meio depois. Não, queridos, não sou refém de calendário nenhum.

Antes que venham me patrulhar – expediente do qual não tenho medo – esclareço: não tenho nada contra quem põe a si mesmo metas e objetivos. Nenhum vento sopra em favor de quem não sabe onde quer chegar. Só me enche um pouco as paciências gente que arrasta todos esses anseios para o fim do ano, congregando-os em um pacotão, a fim de a partir de primeiro de janeiro do ano subseqüente coloca-los em prática. Assim, Natal e Ano Novo acabam virando uma grande muleta, uma desculpa para a procrastinação.

Como se não bastassem essas ladainhas, somos confrontados com o oba-oba de pelo menos 345 sessões de amigo secreto. No ano passado passei o constrangimento de ter de comprar um livro do Padre Marcelo (!!!) para presentear um desconhecido (o nome dele entrou na roda, fazer o quê?). Além disso, passamos a conviver com a metafísica inerente à época. Eu odeio a musiquinha de Natal das Lojas Pernambucanas. Perco minha rasa resignação com o congestionamento de gente que se forma nas calçadas da Avenida Paulista para tirar foto dos edifícios decorados. A Paulista oferece riscos bem peculiares: em dias comuns corre-se o risco de ser atropelado por skatistas; no Natal, de ficar cego com os flashs incessantes. Sim, os carros também se amontoam na rua. Isso porque há gente que, pasmem, vai fotografar os prédios de automóvel. Os aeroportos se transformam numa balbúrdia. Os shoppings, numa algazarra. Às vezes nos defrontamos com um coralzinho desafinado cantando na rua sempre as mesmas músicas. E passamos a ser questionados repetidas vezes sobre a mesma coisa: “onde você vai passar o Natal?”, “aonde você vai no Fim de Ano?”, porque, como sabemos, todos TEMOS A OBRIGAÇÃO de não ficar em casa entre 25 de dezembro e 2 de janeiro. E em 2013 há um agravante: corro o sério risco de amanhecer em primeiro de janeiro com Fernando Haddad sendo meu prefeito.

“Ah, mas e a família toda reunida, não é lindo?”. Sim, é lindo. Família reunida é bom no Natal, no Ano Novo, no Carnaval, no Dia Mundial do Trabalho, no casamento da prima, numa churrascaria durante um feriado prolongado…

As únicas coisas que me animam nesta época do ano são o décimo terceiro salário e os dias de ócio e de pernas pro ar. Todo o resto não passa de uma variação do mesmo tema já entoado em ocasiões anteriores.

Uns me acham amargo. Outros, chato. Não estou nem aí. Não me incomodo de ser arauto de mensagens incômodas. Os arquivos do blog atestam isso.

TUDO DE NOVO…

O IDEÁRIO DE LULA, UM MAL A SER COMBATIDO

Dia após dia, sem fatigamento, as empulhações de Lula precisam ser combatidas.   Elas fazem mal ao País, molestam as instituições, menosprezam o Estado Democrático de Direito e subjugam todos nós. Esse senhor causa-me asco. Sim, queridos, asco! Se me perguntarem “você gosta do Lula?”. Não, não gosto – será minha resposta. “Você admira Lula?”. Não, não admiro. Digo e repito tudo isso quantas vezes se fizerem necessárias. Sei que em tempos em que o “povo” – sim, o povo no sentido abstrato, aquele cuja definição de Freud foi ao ponto: quando o heterogêneo submerge no homogêneo – está (uso verbo temporário, e não o definitivo “ser”; ainda há esperanças) sequestrado psiquicamente pelas deturpações do oficialismo do progresso, ir contra a corrente pode parecer temerário. E daí? Se o fenômeno Lula foi competente suficiente nas articulações dos embustes e logrou êxito ao construir seus discursos, a mim não convenceu. “Ah, mas de você não aprovar o governo dele a não gostar da pessoa de Lula há uma abissal diferença”, podem emendar alguns. Sim, há. Mas sobre esse abismo que separa a pessoa do político construí uma ponte, fazendo um liame umbilical entre ambas as personalidades.

Notem: não gostar de Lula – do político e da pessoa – é um direito que tenho. É-me garantida essa prerrogativa à semelhança que é garantida a qualquer um a de não gostar de chuchu. Eu, você, ele, nós, vós, eles, enfim, todos têm a regalia de não ir com a cara de alguém, o que não significa que, por conseguinte, é assegurado o direito de desrespeitar e incitar violência contra quem não nos agrada. Essa historinha bonitinha da obrigação de amar uns aos outros soa-nos humana, eu sei. Como sempre, nós, diz a metafísica influente, devemos primar pelas emanações do coração e relegar um pouco a racionalidade. Isso dá um bom debate. Sim, a pregação do amor e da caridade foi um pilar fundamental, concebido pelo cristianismo, na construção do homem moderno e das sociedades democráticas, não nego. Conquanto eu aceite isso, tenho seriíssimas divergências aos desencadeamentos dessa narrativa, que, hoje, pode ser resumida a conclusão de que temos de amar o próximo. Fazer caridade é obrigação. Preocupar-se com as criancinhas famintas na África virou imperativo. Urge a todos compadecer dos pobres e carentes. Particularmente, penso que amor é algo importante e caro demais para sair por aí o distribuindo inadvertidamente. O ser humano precisa merecer ser amado, pois quando se ama a todos sem critérios, não se ama ninguém. A obrigação que o ser humano deve ter para com o próximo é o respeito, a cordialidade; amor, não. De Ayn Rand e Aristóteles a Paulo, o apóstolo, e Jesus Cristo, poderíamos escrever páginas e mais páginas sobre o assunto. As divergências que surgiriam ao longo do caminho, sem dúvida, locupletariam nossos conhecimentos; mas não há tempo e nem espaço para tal. Em frente.

Acho que nunca fui tão claro neste espaço com relação ao que sinto por Lula quanto nas linhas que antecederam este parágrafo. A partir de agora, portanto, vocês já sabem quem opina e de que lado está quem vos escreve. Não, não podem me chamar de imparcial. Posto o que penso, coloco-me na situação de honestidade para com meus leitores. Quem entra aqui sabe que jamais encontrará conteúdo flertando com o totalitarismo, com embustes que usam a democracia em nome de causa cujo fim é justamente o solapamento da… democracia. Para mim, os fins não justificam os meios; os qualificam. Neste blog vocês não encontrarão mensagem de satanização do outro, visando aniquila-lo por causa de suas ideias. Posso combater as ideias, as filosofias, as correntes de pensamento; jamais o ser que as carrega.  Escolher qual bandeira levantar e em nome de quais causas lutar é uma livre faculdade de todos. Se Lula, sujeito livre que é, hasteia sem nenhum pudor o estandarte daquilo que entendo ser prejudicial à sociedade democrática e às instituições que a mantém, eu, livre também, rogo o meu direito de combater seu ideário. Ele que fale as besteiras que quiser, mas prepare-se para ser confrontado por quem não pratica genuflexão irrefletida.

Lula deve se retratar em público. Mentiu nas eleições de 2010 para todo o povo brasileiro, quando afirmou que ensinaria como deve se comportar um ex-presidente da República. Os mais cândidos puseram fé na promessa, chegando a ver um Lula mais sóbrio e comedido da vida pública. Pura marmota! Sua latente vocação para o mandonismo não permitiu que se ausentasse da política. Ficou meses sem circular nos bastidores do poder por força do câncer. Recuperado ainda que parcialmente, voltou à vida pública. Urdido para uma guerra, Lula foi a campo a fim de, como também prometera quando ainda presidente do país, provar que o mensalão é uma farsa, coisa da imprensa inimiga, vocês sabem, e da oposição raivosa. Conforme revelado há duas semanas, o ápice de seu devaneio se deu em Brasília, no dia 26 de abril, quando esteve com o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes em companhia do ex-ministro da Defesa e também do STF Nelson Jobim. Na ocasião, rompendo com todos os contratos do bom funcionamento das instituições, Lula comentou com Mendes, um dos juízes que atuará no caso do mensalão, que não seria muito bom o Supremo julgar o processo agora, em pleno curso das eleições municipais. Afinal de contas, imaginem se os integrantes petistas da quadrilha (segundo a Procuradoria-Geral da República) saem da sessão diretamente para a Papuda? Não pegaria bem para a imagem do PT.  Só por isso, o escárnio já é completo. Um ex-presidente da República intercedendo por réus com um de seus julgadores. Porém, com a negativa de Mendes em contribuir para a prorrogação do julgamento, alvorou-se aquele Lula sem caráter, que não suporta ser contrariado – e isso não é de hoje, hein; vem desde os tempos do sindicalismo do ABC. Em tom de intimidação, inquiriu Mendes sobre uma viagem que fez à Alemanha em companhia de Demóstenes Torres, o falso paladino da ética cuja relação com o trambiqueiro Carlinhos Cachoeira extrapolou o limite do aceitável. Eis a ilação: Gilmar Mendes teria viajado a expensas de Cachoeira.   Confrontado com a negativa de Mendes, Lula, então, teria dado a entender que o controle da CPI do Cachoeira é dele. Para um bom entendedor, meia lulada basta. A síntese: ou Gilmar dava aquela mãozinha a Lula na questão do julgamento do mensalão ou o ministro poderia ser arrolado na CPI.

Recentemente, nos Estados Unidos, Barack Obama fez um discurso no qual manifestou sua certeza de que a suprema corte daquele país, tal qual o congresso nacional, aprovaria a nova lei que regula os planos de saúde. A reação ao que disse foi imediata. Um ministro pediu que Obama se explicasse formalmente, pois sua fala teria aviltado a autonomia dos juízes. Está sendo um bafafá danado. Aqui no Brasil a coisa é diferente. Um ministro do Supremo é chantageado e, pasmem, há quem atire a pedra no chantageado.  Se um ministro do Supremo se vê diante de tal intimidação, imaginem o que não pode ocorrer nas instâncias menores. Adiante.

Esse Lula que tenta achacar um ministro do Supremo em prol de uma quadrilha (segundo a PGR) não condiz com o sagrado território da democracia: é profano a ele. Mas como Lula chegou a esse ponto? Simples: porque todas suas mesquinharias foram travestidas de força popular, porque encontrou respaldo em setores da sociedade para encarnar o Bem num país hipoteticamente maniqueísta, sendo um anátema quem se opusesse a quaisquer visões de mundo tecidas no mundo lulo-petista; porque sequestrou a máquina pública em detrimento das instituições e em favor do partido, porque socorreu-se – e ainda o faz – nas licenças que lhe foram concedidas pelo “povo”, essa multidão cegada pelo discurso populista da “nova era” brasileira, toda construída sobre a farsa do “nunca antes na história deste país”; porque roubou o Brasil dos brasileiros, porque falsificou o passado a fim de amealhar láureos no presente e garantir o futuro no qual os interesses mais escusos encontrarão abrigo sob as asas do oficialismo mais vagabundo. Um homem com esse currículo, vejam que coisa, é tido pela massa como o que mais fez pelo Brasil até hoje. Isso nada mais é que um desencadeamento de uma sociedade privatizada pelo partido que, hoje, tem o monopólio da praça, se é que me entendem.

Lula e o PT aparelharam movimentos sociais, o que lhes garantiu força e capitulação de hostes da sociedade. Alguns exemplos emblemáticos: o MST nunca foi tão privilegiado com dinheiro público como agora. Não, os recursos não são para fazer a reforma agrária, mas sim para irrigar o aparelho político. Fernando Haddad, candidato à Prefeitura de São Paulo, e Lula também estenderam os gracejos financeiros à UNE, que em seu 52º Congresso, em 13 de julho do ano passado, fez um protesto EM FAVOR do governo. Claro, com a generosa quantia de R$ 50 milhões transferidos do cofre da União à entidade, quem não se comove, não é mesmo? Deve ter sido por isso que esses patriotas da UNE, com o dedo em riste, acusaram a imprensa de ser golpista quando da denúncia do mensalão e vieram a público para defender José Dirceu, Delúbio Soares, Marcos Valério e outros. Com dinheiro do governo no bolso, pra que se indignar as mazelas do… governo? A CUT, que no governo FHC sempre foi tão diligente, no governo Lula, foi cooptada pelo poder. O imposto sindical, cobrado dos trabalhadores sem sua anuência ou livre vontade, gera milhões de reais a essas entidades, que são desobrigadas de prestar contas de como usam essa dinheirama toda. Lula teve a faca e o queijo na mão para determinar que as centrais sindicais passassem a submeter esses gastos ao Tribunal de Contas de União. Os trabalhadores agradeceriam transparência no uso do seu dinheiro. Mas o então presidente vetou o expediente legal que viabilizaria essa vigilância.

Assim, meus caros, Lula, o homem que ganha títulos de honoris causa às pencas, fragilizou o debate, tornou o modus operandi do governo mais ignominioso e, espantosamente, não encontrou resistências. Dada as cessões que lhe foram garantidas, passou a acreditar que o mundo de fantasias dos discursos trampolineiros é, de fato, real. Depois de ter caído nas graças da sociedade, sentiu-se amparado suficientemente para intimidar um ministro do Supremo Tribunal Federal. Também não viu nenhum constrangimento em mandar às favas a lei eleitoral e ir fazer propaganda eleitoral antecipada no Programa do Ratinho em prol de Fernando Haddad. Se em 2010 já o fazia enquanto presidente, ajambrado de toda responsabilidade e decoro que a instituição Presidência da República exige, imaginem agora, livre, leve e solto.

Não, não estou exagerando. Por sinal, as besteiras lulistas precisam ser evidenciadas principalmente porque, recentemente, a Prefeitura de São Paulo cedeu por 20 anos um espaço de 4 mil metros quadrados na região da Luz, centro da cidade, para que ali Lula construa seu Instituto da Democracia. Esse senhor, vênia máxima, não tem estatura moral para batizar com seu nome uma entidade que se venda como zeladora da trajetória democrática do Brasil. Capitaneado por Lula, o PT se recusou a participar da sessão que homologou a Constituição de 1988. Esse mesmo partido expulsou de seus quadros três deputados que compuseram o colégio eleitoral responsável pela eleição de Tancredo Neves. O Plano Real, grande balizador de nossa economia, não teve apoio do PT, assim como as privatizações também foram alvo de ataques contumazes de Lula e seus partidários. O Proer foi vendido por Lula como sendo uma grande maquinação para enriquecer banqueiros falidos. Na boca de seus asseclas, a Lei de Responsabilidade Fiscal era um mal ao País, motivo pelo qual petistas recorreram à Justiça contra ela. No auge do seu exercício democrático, o PT achou válido comprar votos no Congresso Nacional. Na esteira das eleições de 2006 e das patinadas nas pesquisas de intenção de voto, não faltaram dossiês – sim, o dos aloprados – fabricados nos porões do petismo para derrubar adversários políticos. Esse tal Instituto da Democracia quer refletir em Lula sua cartilha? Mesmo? Justo nele, que alçou Franklin Martins à condição de Ministro da Comunicação Social com a missão de costurar o Conselho Federal de Jornalismo, cuja missão nada mais seria a de amordaçar a imprensa? E o que dizer, então, do apoio dado a ditaduras como a da Venezuela, Cuba e Irã? Lula, no dedaço e indo de encontro a tudo o que os primórdios do PT pregavam como sendo a democracia interna do partido, deu o ducado da candidatura à Prefeitura de São Paulo a Haddad, passando o rolo compressor sobre Marta Suplicy, que viu seu direito de disputar as prévias ser minado. Ainda exercendo sua onipotência inconteste, criou a CPI do Cachoeira, com a finalidade clara de constranger a oposição em ano eleitoral. Esses fatos chegam às nossas narinas com o aroma democrático?

Na mesma entrevista concedida a Carlos Massa, Lula deixou estampada sua verdadeira visão de democracia ao ser perguntado se voltaria a disputar eleição para presidente da República em 2014. Disse o portento, ao admitir que voltaria à corrida eleitoral só em caso de desistência de Dilma Rousseff:  “Se ela não quiser ser candidata, vou ser. Não vou permitir que um tucano volte a ser presidente do Brasil”. Trata-se de uma resposta criminosa, cuja essência, se resumida por Auden, não poderia outra, senão And the crack in the tea-cup opens/ A lane to the land of the dead. Numa metáfora proferida na década de 70, Paulo Francis afirmou que a xícara de chá era representada pela velha ordem britânica e suas elites. A fenda na xícara, ou seja, a ruptura dessa sociedade, abriu caminho para duas guerras. A xícara de chá brasileira é outra: o Estado Democrático de Direito. A terra dos mortos, sua nulidade. Isso tudo tem nome: Lula!

O IDEÁRIO DE LULA, UM MAL A SER COMBATIDO

NÃO, NÃO ENDOSSO

Dilma Rousseff não fala. Já criaram-se até mesmo alguns clichês sobre seu jeito de ser. Ela não recebe visitantes, recebe pautas; almoça com o prato de comida em seu gabinete enquanto manda a ver em um notebook (quem não se lembra de quando Lula atribuiu a ela a idéia de se adotar computadores móveis na histórica política do País?); ela não fala, seus ministros falam; escolhe a dedo as indicações de aliados esgueirada em princípios técnicos; peita adversários, e, se estes optarem por lhe causar dor de cabeça no Congresso, então é porque não são aliados; se seu antecessor pecava pelo excesso de palavras, ela não incorre no mesmo erro… E a toada assim se segue, como se os contornos de personalidade e de seu estilo por si só configurassem um corolário inquestionável: ela é competente!

Nunca fui de seguir correntes influentes de opinião. Estou pouco me lixando se os antes críticos ferrenhos do governo Lula começam a ver um quê de graça no estilo silencioso de Dilma. Em pouco mais de um mês ocupando o cargo de presidente, sua gestão já começa a ganhar os contornos de uma fraude. Em agosto, no calor da disputa eleitoral, questionada se o futuro governo ver-se-ia compelido a fazer ajuste de contas para atingir a meta fiscal, Dilma foi certeira: “Com o país crescendo a 7%, com inflação sob controle, com o atual nível de reservas (internacionais)… eu vou fazer ajuste fiscal para que, hein?”, assegurara. “Eu não concordo que o Brasil tenha que se submeter sistematicamente a cada fim de governo a um ajuste fiscal”. Seis meses depois, a mesma Dilma anuncia um corte fantasioso (já explico o porquê) de R$ 50 bilhões no orçamento.

Num silêncio incompreensível, a imprensa vem condescendendo com as contradições de Dilma num ritmo alarmante. O governo anuncia um corte de R$ 50 bi e todo mundo aquiesce, como se cortar verbas e sacrificar compromissos eleitorais não fossem coisas indissociáveis. Uma de suas promessas de campanha foi construir só em 2011 1.695 creches. Até 2014, seriam 5 mil, segundo a então candidata. Mais: também prometeu 2 milhões casas financiadas pelo Minha Casa Minha Vida II (vale lembrar que a primeira versão programa entregou pouco mais de 15% do prometido) e 1.000 Unidades de Pronto Atendimento (UPA). E o que foi que fez Dilma em seu discurso no Congresso? Reduziu, na maior sem-cerimônia, sua promessa de campanha e disse que entregará 500 UPAs até o final de 2014. E a oposição, toda lá, ficou caladinha – mas isso já é assunto pra outro post.

Muitas perguntas estão deixando de ser feitas em meio à parolagem oficial. Miriam Belchior, Guido Mantega (que deu um pito no FMI quando o órgão manifestou preocupação com a meta fiscal do Brasil) e a própria Dilma garantiram que os programas sociais, Saúde e Educação não seriam atingidos pelo corte. Sendo assim, eles têm de vir a público explicar de onde tirarão recursos. O economista do Ipea Mansueto Almeida fez picadinho desse ajuste prometido pela santa trindade econômica. Segue abaixo análise extraída de seu blog:

Vamos ver cada uma das medidas anunciadas e fazer as malditas contas:

(1) Primeira medida: o primeiro foco do ajuste fiscal será na folha de pagamentos, um dos maiores gastos da União. Para tanto, o governo está contratando junto à Fundação Getúlio Vargas (FGV) uma auditoria externa na folha de pagamentos para detectar incorreções.
Isso chega a ser brincadeira de mau gosto. No âmbito de estados e municípios, no passado, isso fazia até sentido quando a contabilidade pública era rudimentar e existiam funcionários fantasmas. Mas no caso do Governo Federal que tem o Sistema Integrado de Administração Financeira (SIAFI) é muito improvável que haja “fantasmas” no serviço público federal, a não ser que o governo desconfie da lisura do governo Lula. Os gastos com pessoal aumentaram não por causa de fraudes, mas porque o governo Lula aumentou os salários e contratou mais funcionários. Ao longo de oito anos do governo Lula, o gasto com pessoal ficou entre 4,30% (2005) e 4,76% do PIB (2009), terminando em 4,55% do PIB, em 2010. O peso da folha de pessoal do governo federal poderia ter sido muito menor se os aumentos ao setor público tivessem sido mais seletivos, mas acho difícil e improvável que haja fraudes que exija uma auditoria externa da FGV.

(2) A ministra também disse que novas contratações no setor público serão olhadas com lupa e que não há neste momento qualquer medida para elevação dos valores pagos para os funcionários em cargo em comissão.
Não sei dizer se a suspensão de concursos públicos é uma medida boa ou ruim, já que há órgãos com excesso de funcionários e outros com carência. A Ministra deveria ter dito quais carreiras não precisam de novos funcionários e aquelas que ainda precisam de funcionários, até porque há ainda uma parte de terceirizados que têm que ser substituídos por funcionários concursados. De qualquer forma, a economia possivel destas medidas é mínima neste ano. Assim, não vai ajudar muito no esforço de R$ 50 bilhões anunciado.

Quanto aos cargos de DAS (comissão dos cagos de direção do serviço público federal), duvido que não haja um aumento pelo seguinte motivo: os cargos de comissão no legislativo aumentaram muito. Um assessor técnico hoje no legislativo (sem vinculo com o setor público) ganha uma comissão de R$ 16 mil. Se você tiver vinculo no executivo, seu salário mensal aumenta em R$ 10 mil. O salário do Secretário de Política Econômica, DAS-6, é de R$ 11.179,36 (sem vinculo com o setor público). Ou seja, do ponto de vista estritamente financeiro, vale mais assessorar um Senador da República do que ser Secretário de Politica Econômica.

(3) Segundo a ministra do planejamento, há a intenção de publicar um decreto reduzindo em 50% em termos nominais as despesas com viagens e diárias.
Impressionante? Acho que não. Algum de vocês sabem o potencial de economia decorrente dessa medida? OK, vamos aos números. Em 2010, o governo federal gastou R$ 976,9 milhões com passagens e despesas com locomoção; R$ 1,04 bilhão com diárias de pessoal civil e mais R$ 220,2 milhões com diárias de militares. Somando tudo temos R$ 2,2 bilhões. Uma redução de 50% significa um economia potencial de R$ 1,1 bilhão, ou apenas 2% do que foi anunciado (R$ 50 bilhões). como falam meus amigos americanos: “No big deal”.

(4) PAC não sofre corte: Ministra do Planejamento afirmou ainda que não haverá corte no Orçamento do PAC nem adiamento na execução das obras. Segundo ela, a maior parte do corte anunciado nesta quarta será no custeio como, por exemplo, na redução das despesas com telefonia, energia elétrica, água e consumo de materiais, em geral.
Não quero ser pessimista, mas isso é impossível. Vou repetir: é impossível um corte de custeio de R$ 30 bilhões, R$ 40 Bilhões ou R$ 50 bilhões de um ano para outro. Um corte de custeio dessa magnitude só seria possível se o governo deixasse de pagar dividas judiciais, cortasse a compra de várias despesas do SUS, não pagasse despesas de indenizações e restituições, etc. Serei mais específico correndo o risco de ser chato.

(a) quais as principais despesas de custeio?

A tabela abaixo detalha as principais despesas de custeio, todas aquelas que em 2010 foram acima de R$ 1 bilhão. O total das principais despesas de custeio foi de R$ 194,5 bilhões. Assim, poderia parecer que um corte de R$ 50 bilhões em cima de R$ 194 bilhões, um corte de 25%, seria factivel.

Em seguida, ele vai fundo na desmistificação da bazófia, usando-se de tabelas confeccionadas a partir de dados oficiais. Vale a pena ler a íntegra do artigo (aqui)

E o malogro das promessas ainda não para por aqui. Ainda na esteira da disputa pela Presidência, Dilma alardeou em todas as tribunas nas quais teve oportunidade de falar que seu governo teria uma marca: a da meritocracia. Ela até acolheria aliados políticos para cargos-chave, mas desde que fossem gabaritados para a função indicada. Também emendou que não seria tolerante com erros, os quais poderiam culminar em escarcéus. No entanto, depois de descer do palanque e vestir a faixa presidencial, não deixou por menos: indicou Ideli Salvatti para o Ministério da Pesca – cujos méritos na área só o éter conhece – e Pedro Novaes para o Ministério do Turismo – cuja trajetória no ramo também é tão relevante quanto um dólar zimbabuense em 2008. Se o critério técnico foi às favas, a intolerância com o erro seguiu o mesmo caminho: Salvatti usou irregularmente verbais oficiais para custear estadia em um hotel de luxo em Brasília e Pedro Novaes gastou R$ 2.156,00 do erário em uma noitada em um motel em São Luís. O que fez a incorrigível Dilma? Como costuma dizer um amigo, manteve-os lindos e belos em seus lugares.

E aí? Vamos continuar com o festival de confetes em cima da competente-imaculada-gerente-técnica-muda-rigorosa-asseriva Dilma? Não contem comigo para isso. Não agora, pelo menos.

NÃO, NÃO ENDOSSO