ESCRAVOS, SIM!

Podem aplaudir. O PT, partido que tanto se orgulha de defender os interesses dos trabalhadores, passou a ser complacente com o trabalho escravo. O Ministério Público do Trabalho, sempre tão vigilante nos canteiros de obras de empreiteiras e nas condições de trabalho no agronegócio, faz vistas grossas. O Congresso Nacional, que sob o PT tornou-se um mero poder caudatário, semelhantemente virou o rosto para essa aberração do Mais Médicos. Como é em nome do povo e a causa é nobre, os guardiões da ordem parecem ter mandado o bom-senso pras cucuias.

Não me peçam para ser indulgente com a medida só porque ela vem ao encontro de nossa necessidade de ter mais médicos e porque as ruas pediram mais qualidade na saúde. Precisamos de médicos, não de escravos; e as ruas peçam o que quiserem – se endossam o execrável para que seus anseios sejam atendidos, mando o povo às favas também. “Oh, você é muito radical”, exclamam amigos meus. Sim, caros, sou radical quando o assunto é democracia e Constituição. Simples assim.

Não dá para fechar os olhos. O governo brasileiro destinará R$ 40 milhões para financiar uma ditadura sanguinária, que carrega nas costas cadáveres de mais de 100 mil pessoas – todas mortas por discordarem do regime. Não, os R$ 10 mil que cada médico deve receber de bolsa não irão diretamente para o bolso dos profissionais. Os recursos irão para a ilha dos irmãos Castro, que repassarão aos médicos quanto bem entenderem – muito provavelmente menos de 50%. O resto da grana fica retido em Cuba, fazendo caixa para os ditadores possam se locupletar à frente do regime.

Antes de prosseguir, alguns pontos precisam ficar claros: exportar médicos é, sim, um negócio para Cuba. São bilhões de dólares arrecadados pela ilha utilizando-se desse expediente: retendo salários. Reportagem recente do jornal El Pais escancarou as entranhas desse esquema escuso de faturamento. Leiam aqui. Os médicos são para Cuba o que o petróleo é para a Venezuela.

Escravos, sim! – Folheiem com calma o que pensa o Ministério do Trabalho sobre o assunto. Nem tudo o que vai nesse material precisa figurar numa relação patrão-empregado para que esta seja considerada análoga à escravidão. Um exemplo disso é o caso das famílias dos contratados. Sabem por que os médicos não puderam traze-las consigo? Simples: porque se o profissional resolve pedir asilo político no Brasil ou abandonar o trabalho, seus familiares entram na equação das penúrias: ficam ao relento, sem assistência do governo cubano. Seria uma espécie de servidão: se não trabalhar no Brasil conforme acordado entre Cuba e o governo brasileiro, a família paga o pato também. Mais: sob o risco de nunca mais se encontrarem. É um escândalo! Imagine, leitor, se você quisesse pedir demissão de seu trabalho, mas, caso o faça, o governo trata logo de tirar os proventos de sua esposa e filhos por tabela.

Os médicos cubanos não gozarão de nenhuma liberdade. A cartilha que rege o acordo de importação desses profissionais já foi praticada em outros países, como Venezuela e Bolívia. Entre tantas barbaridades, os médicos não são livres para fazer suas escolhas, não são livres para fazer o que bem entenderem de suas carreiras, não são livres para ter acesso a 100% de suas bolsas (mais adiante explico por qual razão nem sequer seus proventos podem ser chamados de salários), não são livres para mudar de cidade, não são livres para prestar quaisquer serviços fora dos termos do acordo entre Brasil e Cuba, não são livres para pedir demissão (!!!) e, pasmem!, não podem nem escolher quem namorar – se por aqui for aplicado o mesmo rigor havido na Bolívia, caso queiram se aventurar pelo calor úmido ladeado pelas pernas das brasileiras, terão, antes de mais nada, de se certificarem sobre o quão simpatizantes são nossas mulheres com a causa revolucionária de Cuba.

Direitos? Que direitos? – Não, os médicos cubanos não têm direitos trabalhistas. Se desistirem do trabalho antes de pelo menos três anos, terão de devolver o dinheiro pago pelo governo brasileiro para…CUBA!!! Ora, isso já é o bastante para concluir que as cifras que o Brasil destinar ao profissional não são dele. Qual o nome da relação de trabalho em que o trabalhador é desassistido de direitos e o dinheiro ganho não lhe pertence? Eis o motivo pelo qual chama-se de “bolsa” o que se paga aos cubanos. “Salário” é termo empregado só a quem tem direitos.

Ainda voltarei a esse assunto, certamente. Com números oficiais, vou demonstrar que trata-se de uma falácia essa história de o Mais Médicos vir a suprir nossa carência por mais profissionais de saúde. Vale lembrar: Alexandre Padilha, o grande nome por trás de toda essa arquitetura, é o candidato do PT para disputar as eleições ao governo de São Paulo. O cheiro de campanha eleitoral já está saindo da cozinha e chegando ao banheiro.

E que se note: não há aqui NADA, absolutamente NADA contra os cubanos. O que questiono e abomino é a forma de contratação.

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ESCRAVOS, SIM!

BOBAGENS SOBRE ISRAEL E O DIREITO DE SE DEFENDER

A imprensa mundial é majoritariamente anti-israelense. Se volvermos os olhos ao conflito israelo-palestino de 2008, notaremos quantas barbaridades foram ditas a respeito, quase todas, claro, reservando ao estado de Israel o papel de cruel da história e, aos palestinos, o de coitados massacrados.

Já virou clichê: todas as vezes que Israel responde a um ataque do Hamas, iniciam-se as séries de comparações. É o que temos no caso mais recente. Do lado palestino, morreram 39 – entre os quais, oito crianças –; já as baixas de Israel foram três militares mortos e quatro soldados feridos levemente (números tidos até a tarde deste sábado). “Vejam que desproporcionalidade! Esses judeus mataram treze vezes mais que os palestinos”, bradam alguns. O argumento é de uma moral estarrecedora.

Segundo a lógica desses grandes humanistas, os revides de Israel deveriam matar na mesma proporção do Hamas. Ou, ainda: só se teria um saldo de mortos justo se mais cadáveres houvessem do lado judeu. Outros, ainda, ousam dizer que, se da parte Palestina os foguetes são disparados a esmo — por isso mesmo muitos deles atingem o nada –, Israel, para ser coerente, deveria abandonar sua sina de bombardear estrategicamente alvos do Hamas e disparar também a esmo. Imaginem bombas disparadas às escuras na populosa Gaza…

O auge da tolice foi o tal Relatório Goldstone, de outubro de 2009. O documentou contou com ampla aprovação do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Dos 47 membros, 25 votaram a favor, 11 se abstiveram e seis foram contra. O Brasil, claro, fazendo jus à sua política de relações internacionais tupiniquim implementada no Itamaraty pelo megalomaníaco Celso Amorim, também chancelou o relatório.

Sim, estava tudo impressionantemente errado no tal documento, cujo juiz foi judeu Richard Goldstone. Sua escolha para presidir o trabalho foi objetiva: partiu-se do pressuposto que, sendo Goldstone um judeu, caso suas conclusões delineassem que houve, sim, um massacre desmedido por parte de Israel, logo ter-se-ia um monumento à isenção. Se o realtório, porém, apontasse que o vilão da história foi o Hamas, aqui e ali diriam: “Mas é  claro! Foram delegar a um judeu tal missão!”. Pra resumir a conversa: as 525 páginas do relatório condenavam Israel, reservando ao Hamas meros puxões de orelha. Em todo o mundo não faltou plateia para aplaudir o epílogo.

Muito bem. Em abril de 2011, o mesmo Richard Goldstone escreveu um artigo para o jornal Washington Post se desculpando pelo relatório. O texto pode ser lido aquiGoldstone afirma que, hoje, sabe-se muito mais do que de fato ocorreu na guerra 2008-2009 do que se sabia antes. Afirma que Israel tem feito esforços para investigar os abusos cometidos durante o embate, atitude que o Hamas até então não havia tomado; houve crimes de guerra sim, mas de ambas as partes; os civis, ao contrário do que apontou o relatório, não eram alvos intencionais de Israel; reconhece que a investigação requerida pela ONU tinha viés anti-israelense; admite que, após o episódio, era esperado que o Hamas diminuísse os ataques contra Israel — o que nunca aconteceu; curva-se à lógica de que Hamas jamais investigará seus próprios crimes, entre outras coisas.

Em tempo: esse coquetel de equívocos estava evidente à época. Mas quê… Ninguém se levantou, com raríssimas exceções, para apontá-los e exigir que o tal documento fosse para a lata de lixo da História.

Com o atual recrudescimento das hostilidades entre Palestina e Israel, iniciam-se novamente as investidas contra Israel na imprensa mundial. Não sei se o fazem por desinformação e ignorância ou por antissemitismo. Prefiro crer ser a primeira hipótese a bruma que lhes tolhe a visão. Jonathan Freedland, colunista do britânico The Guardian, escreveu nesta semana um artigo intelectualmente sabotador. Seu texto está aqui.

Diz ele: “Este é um filme de terror que  já vimos antes. Nos dias que se seguem a uma eleição presidencial americana, prestes a encarar uma eleição própria, Israel decide que não pode mais tolerar os ataques do Hamas. Reage duramente, determinado a mostrar ao público israelense que não está inerme, enquanto um milhão de seus cidadãos estão estão escondidos em abrigos antibombas, sem poder mandar seus filhos à escola. Tratá calma para suas cidades do sul, forçando o Hamas a temer sua ira mais uma vez”.

Estão vendo? Pela lógica do moço, Israel não pode se defender porque o país está nas iminências de uma eleição. Danem-se os foguetes disparados pelo Hamas, uma organização terrorista. Freedland acha mesmo um absurdo que o único estado democrático da região assuma seu direito legítimo de revidar ataques que sofre. E ele vai além: “Há quatro anos, a operação Chumbo Fundido foi montada para acabar com a ‘infraestrutura do terror’ de Gaza, erradicando a ameaça do Hamas. Não conseguiram. O Hamas foi deixado no controle e sua ameaça apenas adiada”. Atenção: Israel não queria destruir o Hamas coisa nenhuma. Se alveja seus pontos-chave, é para acabar com seu arsenal, utilizado para… atacar Israel.

Reservo agora a cerejinha do bolo. Escreveu Freedland: “As provas disso [de uso político da ofensiva israelense] vieram nos últimos três meses, quando mísseis atingiram Israel em número maior. Assim, mais uma vez Israel decidiu combater o fogo com fogo, assassinando o comandante militar do Hamas, Ahmed Jabari”. Mas não é um primor? Freedland acha razoável que o Hamas bombardeie Israel, mas fica indignado que os judeus respondam à altura! Para ele, Israel deveria aguentar calado todas as investidas do Hamas, conformar-se com o fato de ter seu território constantemente atingido por artilharias inimigas e baixar a cabeça para uma organização terrorista. É o fim da picada!

BOBAGENS SOBRE ISRAEL E O DIREITO DE SE DEFENDER

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Vamos dizer tudo, aborrecendo, por conseguinte.

O príncipe Harry, como todos sabem, está no Brasil. Passa seu último dia hoje no interior de São Paulo, onde participou de um jogo beneficente de pólo. Antes disso, esteve no Rio de Janeiro. Lá, teve a oportunidade de conhecer uma comunidade (dizer “favela” hoje em dia virou motivo para despertar ódio na turminha do politicamente correto) pacificada, o complexo do Alemão. Foi no morro que Harry assistiu à apresentação de um coral formado por criancinhas pobres e desafinadas. Nem preciso dizer que o segundo atributo, demérito, deixa de ser levado em conta quando seu possuidor  tem o primeiro. Antes de ir ao Alemão, Harry teve oportunidade de jogar rugby com menininhos da zona sul da cidade.

O terceiro na linha de sucessão do trono britânico deve ir embora sem passar pela capital do estado. Que absurdo! Ele tem de conhecer as virtudes dos paulistanos também, ora essa!

A galerinha das comunidades do extremo sul bate uma lata como ninguém. O príncipe vai perder essa? Consta que a rapaziada do Instituto Baccarelli – a mesma que numa noite de apresentação de Ennio Morricone no teatro Alfa cantou “Sina” antes do concerto – está fazendo aulas de inglês. O inglês vai embora sem ouvi-los cantar Imagine? Urge levar Harry juntamente com Buzão, aquele rapper da gente do SPTV, a uma comunidade da zona norte, para que possa ver como nossos jovens mandam bem num rap e como improvisam para fazer lindos documentários de boniteza duvidosa. Outra coisa que o britânico não pode perder é uma apresentação de capoeira dos nossos meninos de qualquer escola pública da zona leste da cidade. É um must! A arte de plantar os membros superiores no chão e ficar com os membros inferiores pro alto encanta qualquer um. Ainda mais quando somos brindados pelo acompanhamento de um berimbau e um canto arrebatador de Paraneuê. Ah, claro, é indispensável levar Harry para um “tibum” no Sesc Itaquera. Ele precisa saber como nossa gente se refresca no verão.

Está por trás disso uma coisa que chamo de ode ao pobrismo. Essa corrente prega que nossos valores mais elevados estão sintetizados na favela, no rap, no funk, na bateção de lata, e por aí vai. Há alguns anos escrevi um ensaio sobre isso, o qual compartilho com vocês agora.

É algum dia do mês de dezembro de 2008. Regina Casé está no Rio de Janeiro. Passeia pela praça Egeu, próxima às ruas Abdon, Aquim, Ezequias, Elá e Salatiel. Ali nas redondezas também há a praça Nataniel, cercada pelas ruas Davi, Cesareia, Caldeia, Roboão, Amiúde e Israel. Entre crianças saltitantes, Casé avança para outra praça, a Eliseu, no centro das ruas Jessé, Judá, Jordânia e Amom. Ali se aglomeram pessoas das redondezas da praça Demétrio, entre as ruas Josué, Cenáculo, Salim e Josias. Mães com mais de três filhos vêm das proximidades da praça Hazael, próxima de Creta, Rimon, Jafia e José de Arimateia. Eis a Cidade de Deus. Se pelas sagradas escrituras o lugar preparado pelo Pai aos que foram fiéis até o fim é cercado por muralhas de ouro, atravessado por ruas de cristais, cheios de mansões e com anjinhos voando de um lado para o outro numa eterna alegria, o bairro periférico do Rio de Janeiro resume-se num marrom predominante: o da terra, o de alguns barracos e o das pessoas. Se na Jerusalém celestial há um coral de milhares de santos entoando glórias àquele que os criou acompanhado por uma orquestra de serafins e querubins, d’onde Regina Casé está emana uma música com melodia linear, atonal, não harmônica, ritmo marcado por pancadas e letras que nos convidam a práticas inimagináveis quando se está em meio a um lugar, digamos, tão bíblico.

“A periferia é o centro”, proclama Regina Casé no Central da Periferia, quadro levado ao ar pela Rede Globo no dominical Fantástico.  É bom analisar parcimoniosamente o que a pretensa repórter do pensamento moreno quer dizer com essa história de “centro”. As minudências que nos ajudam a concluir o que pensa Casé vão-se revelando à medida que sua parcialidade frente ao meio em que está exala-se escancaradamente. “Com esse sucesso todo do funk, por que você acha que durante tantos anos ele continuou sendo esquecido, anulado pela crítica e pelos jornais?”, pergunta Casé. DJ Marlboro responde: “ela vai ser sempre rejeitada, porque as pessoas descarregam nessa música o preconceito que no Brasil é velado contra o preto, o pobre e o favelado”. E assim chegamos a um corolário perigoso: quem não gosta de funk também não gosta de preto, pobre e favelado.

Central da Periferia, à primeira vista, nasce com aquele propósito nobre de mostrar a diversidade do nosso País, a cultura do outro – sua música, seu modo de falar e entender suas metafísicas influentes como liame que, de certa forma, nos mantém num pé de igualdade mesmo na diferença. Ligar a TV ver que a periferia produz funk, rap, vocabulário inadequado e lições de vida é apenas um método cujo fim esconde em suas entranhas algo perverso: o ode ao pobrismo. O que muitos ignoram é o que ele provoca de fato: uma nova forma de apartheid social. Assistir a Regina Casé no meio da multidão da Cidade de Deus, trazendo à luz seus costumes e tradições como se fossem a essência de suas virtudes nos faz pensar que quem é “do asfalto” tem muito a aprender com eles. No Capão Redondo, periferia de São Paulo, Ferréz, um escritor que separa com contumácia o sujeito de seu verbo com vírgula, também figurou no Central da Periferia. Sua literatura marginal – como ele mesmo a denomina – faz apologia àquilo que Eric Hobsbawm chamou em seu livro Bandidos de ladrão social: se rouba o rico em prol dos pobres, amém. Quando Luciano Huck teve seu Rolex levado  por bandidos em um assalto no Itaim Bibi, em São Paulo, Ferréz escreveu um artigo para a Folha de S.Paulo no qual justificou o roubo. “O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou. No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes”. Claro, antes desse epílogo, Ferréz fez um resgate social da vida do larápio. Usaria o dinheiro da venda do relógio para manter a si e a sua família por alguns meses.

No mundo da Central da Periferia, ensinar Camões aos moradores daqueles lugares cheios de abandono (não é, Manuel da Barros?) seria barbárie. A cultura “deles” deve permanecer intacta, livre de nossa sina de português correto. A música de Bruckner ser-lhes-ia impensável como arquétipo de beleza. Nós, os “reacionários”, é que temos de praticar genuflexão quando surpreendidos pelos batidões. É como se o morro não fôssemos nós mesmos, mas sim uma variante dentro de sistemas de valores distintos. Certa feita indagaram Lévi-Strauss se ele se identificava com os índios que estudara. “Não, de maneira nenhuma”, respondeu. Regina Casé e todo mundo que simpatiza com a periferia provavelmente não se identificam com sua cultura, mas tem por ela incontestável e basbaque reverência.

Nesse contexto, podemos até mesmo traçar um paralelo com o Discurso Sobre a Origem da Desigualdade, de Rousseau, o bom humanista que abandonou dois filhos aos cuidados de asilos de crianças. Segundo esse texto, a desigualdade entre os homens aumentou proporcionalmente ao aumento da civilização. O homem, quando em seu estado de natureza, preservaria consigo todas as virtudes necessárias para viver em comunidade, livre, por exemplo, da tentação da propriedade, uma vez que todos os recursos necessários à vida encontram-se abundantemente disponíveis a todos. Rousseau diz que a história das moléstias humanas seguiram  a história das sociedades civis. No auge de seu pensamento, Rousseau crava: “se esta [a natureza] nos destinou a ser sãos, ouso quase assegurar que o estado de reflexão é um estado contra a natureza, e que o homem que medita é um animal depravado”. Não foi à toa que ao comentar tal obra, Voltaire, numa cartinha enviada a Rousseau, disse que ao ler tal discurso sua vontade foi de andar sobre quatro patas.

Na Central da Periferia, o morro tem de prevalecer intocável, sem sofrer nossas influências carcomidas pelo odiável capitalismo – esse que nos trouxe as vacinas, o carro, o vaso sanitário e o Dramin B6.

Então vocês, caros leitores, já sabem: quando receberem visitas de amigos e familiares de fora do estado, nada de levá-los para conhecer o Masp, o Parque da Independência, a Avenida Paulista, a boemia da Vila Madalena, o edifício Martinelli, a Sala São Paulo, a Osesp,  a Oca, o DOM… nada disso. O negócio é presentear-lhes com uma coleção de bonequinhos que retratem todo o sofrimento dos retirantes nordestinos (assim como fez Lula ao dar uma lembrancinha ao Papa), colocá-los numa roda de capoeira (como fizeram com Obama e sua família), promover um favela tour em qualquer comunidade (como fora privilegiado o príncipe Harry), e assim por diante…

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TUDO EM NOME DA ESTABILIDADE ECONÔMICA? NÃO! NÃO MESMO!

Prontos para um longo texto? Então vamos lá.

***

O fato de Dilma Rousseff estar oito pontos à frente de José Serra, com 41% das intenções de voto nas pesquisas, não pode ser interpretado exclusivamente sob uma ótica político-eleitoreira. Há, com efeito, algo de muito mais grave nesse resultado do que se está debatendo. Antes de prosseguir, faz-se necessária uma digressão.

Uma das perguntas mais contundentes feitas para José Serra e Marina Silva no Jornal Nacional foi sobre o mensalão. Já se foram seis anos desde o estouro do escândalo, mas o assunto ainda é pauta. E é bom que seja mesmo – como já disse, apenas lamento que o tema não tenha sido pauta na entrevista da candidata ligada aos chefões do escarcéu. À época das revelações, o Datafolha foi a campo para perguntar aos brasileiros o que pensavam do episódio e a percepção da população sobre a existência de escândalos no governo Lula. Os resultados não poderiam ser mais desesperadores. 56% dos entrevistados acreditavam piamente que houve de fato o pagamento de mesadas a parlamentares. Dentre os que disseram ter conhecimento do caso, 66% sustentaram que foi o PT corrompeu deputados e senadores de outros partidos. E, atenção, agora vem o mais importante: 70% dos entrevistados disseram que existia, sim, corrupção no governo Lula.

De 2005 até chegarmos aos dias de hoje, mudanças drásticas deixaram o eleitor mais, digamos, tolerante. O fenômeno é interessantíssimo, pois nos permite traçar as linhas que definem as fronteiras entre os valores negociáveis e os não-negociáveis dentro de um regime democrático. Lula e o PT, seis anos trás, despertavam na população um certo incômodo na área da ética. Hoje, não despertam mais. A popularidade do presidente, hodiernamente, supera todos índices negativos de 2005. 77% da população diz que o atual governo é bom ou ótimo; em 2005, esse índice era de apenas 28%, segundo o Datafolha.

Sem dúvida, de lá para cá, a sensação de bem-estar econômico cresceu. É uma pena que isso se tenha dado em detrimento do bom senso, como se o momento positivo da economia tenha apagado da memória do eleitor o que no passado ele condenava veementemente. Mais: parece que o povo passou a usar um cabresto. Quase ninguém mais faz questão de sopesar o bem de manter intactos os valores da democracia, da liberdade de expressão e dos direitos individuais. Passamos a viver numa era de um populismo medíocre que se destaca pela inefabilidade da emergência dos pobres. Esse conjunto de fatores trouxe à tona uma drástica realidade: os valores que são os pilares de um Estado Democrático de Direito podem ser seqüestrados se quem os solapa nos dá condições econômicas.

O escândalo do mensalão, condenado pelo povo em 2005 conforme revelou o Datafolha, foi protagonizado pelo PT, numa clara tentativa de sabotar o Congresso Nacional. Sabotar o Congresso é sabotar o eleitor. O líder da quadrilha que esquematizava a operação de compra de votos é José Dirceu. Digo “é”, no presente, pois foi assim que o procurador geral da República o qualificou; e como o processo ainda não está encerrado, prefiro ficar nos termos da denúncia aceita pelo Supremo Tribunal Federal. O PT é indissociável de Lula, e Dilma também o é. Se há seis anos grande parte da população achava que o partido era o principal agente do esquema, resta saber aonde foram essas pessoas. Simples: não foram a lugar nenhum. Resolveram aderir à turma e sua forma de fazer política, num sinal da mais pura aquiescência com o condenável.

Não pretendo ressuscitar o mensalão. Não há somente esse episódio para trazer luz aos aspectos dos tempos atuais. Há outros, e lembra-los nunca é demais; ainda mais quando a candidata do PT crava 41% das intenções de voto na pesquisa feita pelo mesmo instituto que captou a insatisfação do eleitorado em 2005. Não, não estou fazendo campanha eleitoral nem para A e nem para B. Minha contribuição nesse âmbito seria ínfima. O que quero pôr em perspectiva é a síndrome de Fabrício Del Gongo pela qual estamos passando. Fabrício é a personagem principal do romance A Cartuxa de Parma, do escritor francês Sthendal. Na trama, Fabrício combate na batalha de Waterloo sem se dar conta da importância histórica do conflito. Aqui, passamos por uma era em que a democracia se fragiliza cada vez mais sem que a devida importância seja dado ao que está curso. Abre-se mão de reconhecer isso em nome de, sei lá, uma geladeira nova, um carro novo, nova casa, bolsa auxílio, primeira TV LCD, Prouni…

Lula é o chefe do governo que mais chutou os fundilhos dos sigilos bancário, fiscal e telefônico. O aparato governamental ficou a serviço do PT. Foi assim que conseguiram dados para fazer dossiês contra integrantes da oposição. Petistas não aceitam a existência de uma alternativa a eles mesmos. Querem dizimar as diferenças custe o que custar. Já foram alvos de dossiês fajutos José Serra, Ruth Cardoso e Eduardo Jorge. Mais recentemente, até mesmo Guido Mantega se viu numa saia justa ocasionada pela fabricação de dados a partir da quebra dos direitos individuais. Pergunto-me se quem opta pela continuidade do atual governo comunga com a idéia de que a qualquer momento sua conta bancária, seu imposto de renda e suas conversas no telefone estejam sob monitoração sem devida autorização judicial, ao bel-prazer de uma turma que tomou de assalto o Estado brasileiro.

O povo – que tanto apoiou a imbecilidade da lei Maria da Penha e se comove com a violência contra a mulher – assistiu a um dos momentos mais patéticos do atual governo no que concerne aos Direito Humanos. A iraniana Sakineh, condenada a morte no Irã por apedrejamento, num primeiro momento, não pôde contar com o apoio de Lula. Pedir a Ahmadinejad para que reconsiderasse a condenação seria “avacalhação”. Lula só foi se importar com a barbárie à qual estava exposta Sakineh quando, vejam que coisa, subiu num palanque ao lado de Dilma Rousseff. Só os dotados de enfraquecimento das faculdades mentais entenderam o discurso palanqueiro como uma boa ação do demiurgo. Bobagem! Eu adoraria saber se a turma que almeja pela continuidade deste governo realmente acha “avacalhação” pedir por um pouco mais de humanismo em favor de uma mulher prestes a morrer por um dos métodos mais cruéis.

Ainda no cenário externo, Lula nunca se sentiu constrangido de demonstrar apoio claro a Hugo Chavez e Fidel Castro. Quando a RCTV foi fechada pelo governo venezuelano – só porque a emissora noticiava as falcatruas de Chavez –, dois partidos brasileiros emitiram nota de apoio ao bochechudo: o PSOL e o PT. Em território cubano, Lula deu ombros aos prisioneiros políticos que morriam por causa de uma greve de fome. Preferiu silenciar. Nem uma palavra em apoio àqueles que se levantaram contra a tirania castrista. Quem quer continuidade do governo Lula, concorda com a tese lulista de que os presos pela ditadura cubana e os bandidos de São Paulo são equivalentes, conforme sugeriu o filósofo Lulóvsky?

Foi durante o governo Lula que o direito à privacidade ficou mais frágil;
Foi durante o governo Lula que as instituições ficaram à mercê de interesses partidários;
Foi durante o governo Lula que o respeito às leis foi mandado às favas;
Foi durante o governo Lula que passamos a piscar o olho a ditadores sanguinários;
Foi durante o governo Lula que assistimos ao silêncio frente às ações das Farc;
Foi durante o governo Lula que assistimos o massacre do direito de divergir;
Foi durante o governo Lula que a liberdade de imprensa ficou em xeque;
Foi durante o governo Lula que a democracia representativa quase foi à míngua;

Uma candidata representa, sim, a cíclica ameaça a todos os preceitos do Estado de Direito; outro, não. Dilma surfa na onda da tal conquista do binômio desenvolvimento social com crescimento econômico – mesmo que nossa taxa de crescimento fique um pouco a dever quando comparada com os demais países dos Bric. Por sinal, nunca é demais lembrar: se há crescimento é porque Lula seguiu à risca o modelo econômico deixado por Fernando Henrique Cardoso. Justo Lula, que tanto pregou contra o Proer e contra o Plano Real – pilares da estabilidade que conhecemos hoje.

Não se trata mais de preferência eleitoral. Trata-se, sim, de optar por quem tem mais capacidade de fazer valer as regras do jogo democrático, não da emergência das massas. Ter acesso a comida, crédito e habitação não é tudo. Se tão-somente a economia fosse motivo para opções políticas, a China comunista seria uma das melhores democracias do mundo.

O PT, na atual campanha, já começou a dar sinais evidenciando a que veio. O discurso do horror já teve início. Nas eleições de 2006 essa tática deu certo quando Lula inventou que Alckmin privatizaria o Banco do Brasil e a Petrobras. Agora, já disseram que o Serra vai acabar com a Zona Franca de Manaus, extinguir os concursos públicos e cortar o Bolsa Família. Tudo mentira! Trata-se de prática eleitoreira cujo objetivo é causar medo no eleitor. Eis aí a democracia da era Lula.

Eu prefiro o candidato que não represente nenhuma ameaça aos ideais que cultivo como modelo aceitável pra um país. E não há sensação de estabilidade econômica que me roube isso.

TUDO EM NOME DA ESTABILIDADE ECONÔMICA? NÃO! NÃO MESMO!

DILMA NO JN E NA GLOBONEWS

O desempenho de Dilma Rousseff nas entrevistas ao Jornal Nacional (TV Globo) e ao Jornal das Dez (Globonews) na noite de ontem foi ótimo. Não, não estou sendo irônico. Sim, de fato, Dilma saiu-se muito bem. Fez a lição de casa aplicadamente depois do fiasco no debate da TV Bandeirantes. No entanto, como era de se esperar, a candidata falou algumas asneiras. As entrevistas podem ser vistas na íntegra clicando aqui (Jornal Nacional) e aqui (Jornal das Dez).

Dilma abriu a entrevista ao JN afirmando que um dos requisitos que a torna mais bem preparada para governar este País é o fato de conhecer o Brasil de ponta a ponta. No entanto, nas considerações finais, acabou enfiando a Baixada Santista no Rio de Janeiro. Dada a tensão do momento, perdoa-se o relapso. O que não dá pra deixar passar é sua desculpa deslavada para justificar o baixo crescimento da economia brasileira se comparada aos nossos vizinhos da América do Sul e aos demais países dos Bric. Uma das razões, segundo a candidata, seriam os juros descontrolados quando o PT assumiu o governo. O que ela não disse foi que os juros estavam fora de controle por culpa de… Lula! Tanto foi assim que, à época, foi necessário confeccionar a famosa Carta ao Povo Brasileiro.

Quando provocada a falar sobre as opções do PT em fechar alianças com antigos arquiinimigos políticos – como a família Sarney, no Maranhão –, atribuiu tudo a uma falta de vivência política do partido. Em miúdos: disse que antes, como não era governo, distribuía mesmo pontapés nos fundilhos de quem bem entendia; agora, como situação, é preciso selar alianças com quem tem comprometimento com os mesmos anseios sociais. O curioso é notar que esses anseios não se concretizam como deveriam justamente no estado do Maranhão!

Na Globonews, Dilma asseverou que o preenchimento de cargos públicos tem de ser feito obedecendo a critérios técnicos “absolutamente estritos”. Defendeu, inclusive, que pontos políticos sejam levados em consideração para nomear funcionários; e acrescentou que também são necessárias transparência e exigência nos processos de seleção. Concluiu dizendo que o governo Lula segue essa regra. É realmente uma pena que nenhum dos jornalistas presentes tenha pedido à candidata que explicasse, então, o que deu errado nos Correios. A administração da empresa estava nas mãos de gente do PMDB, aliado do governo. Mais: insatisfeitos com a demissão sumária do antigo presidente, agora os peemedebistas trabalham nos bastidores para recuperar a sinecura.

Instada a falar sobre como será seu governo no âmbito das relações diplomáticas, Dilma afirmou que não compactuará nunca com qualquer violação aos direitos humanos. Também sustentou que não deve ser levado a sério um país que interprete opinião como crime. Apesar de afirmar isso timidamente, foi, até agora, o momento no qual a candidata deixou mais claro seu posicionamento sobre temas polêmicos do atual momento do Brasil e seu relacionamento com países como Irã, Venezuela e Cuba. Mas escorregou no tomate quando emendou: “acho que o presidente Lula, por toda sua trajetória de vida, vocês podem ter certeza, que também não concorda”. Ora, nunca é demais lembrar:

– Lula deu de ombros aos presos políticos de Cuba;
– Através do PT, em nota oficial, apoiou Hugo Chavez quando fechou o canal de TV RCTV;
– Lula ainda se mantém neutro com relação às Farc;

No geral, o desempenho de Dilma foi bem melhor do que vimos até agora. Mas, há de se considerar, ainda não foi submetida a questões polêmicas, como dossiês e Farc. Ainda não sei qual texto ela decorou para tal altercação.

DILMA NO JN E NA GLOBONEWS

DA BARBÁRIE AO PALANQUE

Chego com um certo atraso no assunto, mas antes tarde do que nunca.

Assista ao vídeo abaixo somente quem tiver estômago forte. Trata-se de uma cerimônia de apedrejamento de duas mulheres condenadas pela prática de adultério. Não sei se a filmagem abaixo foi feita no Irã, mas o fato é que o procedimento adotado no país de Ahmadinejad é exatamente o mesmo.

À barbárie:

Está tudo explicado no vídeo. As mulheres são enterradas até a altura do peito e cobertas por um pano branco. O ritual começa com o juiz que condenou atirando a primeira pedra, seguido pelo tribunal e, depois, pelo público. As imagens aí de cima falam por si só. Essa gente parece ter gosto por sangue. Reparem que o lençol tem de ser branco – não poderia ser preto ou vermelho-sangue? Pelo menos nos pouparia de assistir os traumatismos acontecendo um após o outro! Há regras para o apedrejamento. As pedras, por exemplo, não podem ser grandes demais. Claro, se assim fossem, não teria a menor graça, bastariam alguns minutos para a condenada morrer. Mas as pedras também não podem ser pequenas demais. Óbvio também: a dor tem de ser intensa! Asco!!!

O suplício por que passam as mulheres nessas situações dura no mínimo uma hora. Por 60 minutos, a multidão vê as condenadas se contorcendo, sangue esvaindo, mas encaram isso com a mesma naturalidade como vemos criancinhas atirando pedras na água.

Pois bem. É mais do que notório o que está em curso no Irã, com a condenação de Sakineh Mohammadi Ashtiani. Surgiu na Internet um grande movimento a fim de livrá-la de tão cruel condenação. Compelido a comentar o assunto, Lula, de primeira, declarou que “um presidente da República não pode ficar na internet atendendo tudo que alguém pede de outro país. Veja, eu pedi pela francesa e pelos americanos que estão lá, pedi para a Indonésia por um brasileiro, pedi para a Síria por quatro. É preciso cuidado, porque as pessoas têm leis, as pessoas têm regras, as pessoas, sabe… Se começam a desobedecer as leis deles para atender o pedido de presidentes, vira uma avacalhação”.

Lula é um verdadeiro ficha-suja quando o assunto é Direitos Humanos em nível internacional. Os prisioneiros políticos de Cuba sabem disso. Para o filósofo Lulovsky, não cabe a um país pedir a outro para que tenha um pouco mais de humanismo. Ele acha que já fez demais ao citar os casos da francesa, do brasileiro condenado na Indonésia e pelo o ocorrido na Síria. Não, Lula! Não mesmo! Interceder por aqueles que estão perto de ter suas vidas ceifadas pela barbárie nunca é demais.

Mas eis que no sábado, três dias após classificar como “avacalhação” uma possível negociação com o Irã, Lula declara: “Eu tenho que respeitar a lei de um país, mas se vale minha amizade e o carinho que tenho pelo presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e pelo povo iraniano, se esta mulher está causando incômodo, nós a receberíamos no Brasil”.

Bastou isso para que a máfia petista na Internet começasse a por seus dedos em riste e afirmar: “Tá vendo? Lula é um homem bom!”. É mesmo? Bem, há aqueles que acham essa mudança abrupta de posição uma dádiva celeste. Mas ninguém levou em consideração uma coisa: a mudança de opinião sobre a condenação de Sakineh se deu durante um comício eleitoral pró Dilma Rousseff. E o que isso tem a ver? Ora: tudo! No mesmo palanque, Lula ainda disse: "Já que minha candidata é uma mulher eu queria fazer um apelo a meu amigo Ahmadinejad, ao líder supremo do Irã e ao governo do Irã”. Vem cá: só sábado Lula descobriu que sua candidata à Presidência é uma mulher? Quando tachou uma possível conversa com Ahmadinejad de “avacalhação” ele ainda não conhecia o sexo de Dilma?

É inadmissível que Lula roube para si e para sua candidata uma causa humanitária para obter ganhos objetivos eleitorais. A rendição aos apelos para que interviesse pela iraniana foi anunciada em palanque de comício; nada mais oportuno. Isso só vem a confirmar a verdadeira importância que Lula dispensa às vítimas dos regimes ditatoriais. A partir de agora, ninguém poderá dizer que Lula não se importa. Certo? Não: errado! Se se pode tirar, mesmo que da barbárie, um quinhão de votos, a causa é boa. Se não, que se dane. Orlando Zapata, aquele que pediu ajuda a Lula sobre sua situação política em Cuba, sofreu na pele esse desprezo. Resultado: morreu depois uma greve de fome que durou mais de 80 dias. As únicas palavras proferidas por Lula em relação a Zapata foram no sentido de compará-lo a um criminoso detido em qualquer presídio no Estado de São Paulo. Quem sabe se Lula estive em um palanque eleitoral a situação do cubano não fosse diferente.

DA BARBÁRIE AO PALANQUE

URIBE PÕE LULA EM SEU DEVIDO LUGAR

Lula e Marco Aurélio Garcia têm a demência de sair país afora abrindo a boca para falar barbaridades desmedidas. Sim, estes dois senhores envergonham os brasileiros – embora vergonha na cara não seja uma virtude muito notável no, se me permite Sérgio Buarque, homem cordial – a cada frase proclamada diretamente do altar de nossa diplomacia. Querendo ou não, Lula é uma extensão de todos os brasileiros, e nos representa em todos os conclaves no mundo. Suas palavras traduzem, de certa forma, a opinião do Brasil – ou seja, a minha, a sua, a da tua tia e do teu filho que ainda nem sabe quem é o Chapolin Colorado. Às vezes, a democracia resulta nisso: um presidente que se orgulha de ter pouca instrução em um país de analfabetos, e que fala em meu nome as besteiras que bem entende e no lugar que bem lhe aprouver – seja pelo dever do ofício ou por caráter ideológico; na pior das hipóteses, quando o caráter ideológico invade o dever do ofício.

Álvaro Uribe, atual presidente da Colômbia e que goza de amplo respeito e aprovação dos colombianos, nesta semana, soltou os cachorros em cima de Lula. Uribe afirmou “deplorar” a posição lulista sobre o rompimento das relações diplomáticas entre a Venezuela e a Colômbia. Segundo o filósofo Lulovsky, a atual pugna entre os dois países se resume a um mero “conflito verbal”.

Uribe pegou Lula de jeito. Já estava na hora de o presidente colombiano reagir ao show de desfaçatez protagonizado pelo Brasil todas as vezes em que o assunto é o triângulo Farc-Colômbia-Venezuela. Já é mais que sabido os interesses dos narcoguerrilheiros em manter laços estreitos com Hugo Chávez. Na Venezuela, as Farc encontram território para a montagem de abrigo, por exemplo. Além disso, até fornecimento de armas ao grupo terrorista Chávez proveu. O bochechudo enviou umas bazucas do exército venezuelano aos guerrilheiros. Nada disso é suposição minha. Tudo estava documentado no computador de Raul Reyes, o chefe das Farc morto em um ataque da Colômbia em território equatoriano. À época, o que foi que disse Marco Aurélio Garcia sobre o ataque? Trago à memória uma entrevista concedida pelo valente ao jornal francês Le Fígaro (íntegra para assinantes aqui), no dia 5 de março de 2008.

Le Fígaro – Quelle est la position du Brésil sur la tension à laquelle a conduit à la mort du numéro 2 des Farc, Raul Reyes ?
Marco Aurelio Garcia.
Le Brésil condamne fermement l’attaque colombienne en territoire équatorien qui est avant tout une violation de la souveraineté territoriale. Nous invitons la Colombie à présenter ses excuses à l’Équateur. Parallèlement, le Brésil est prêt à tout pour tenter de faire baisser la tension dans la région, qui a atteint des niveaux inquiétants. Le président Lula va recevoir aujourd’hui son homologue équatorien Rafael Correa, et nous avons demandé la création d’une commission d’enquête au sein de l’Organisation des États américains (OEA).
Le Fígaro – Qual a posição do Brasil sobre a tensão que levou à morte do número dois das Farc, Raul Reyes?
O Brasil condena firmemente o ataque colombiano em território equatoriano. Isto é, acima de tudo, uma questão de violação territorial. Nós convidamos a Colômbia a apresentar suas desculpas ao Equador. Paralelamente, o Brasil está pronto para agir de alguma forma a tentar reduzir a tensão na região, que atingiu níveis inquietantes. O presidente Lula receberá hoje [05/03/2008] o presidente equatoriano Rafael Correa, e pediremos a criação de uma comissão de inquérito no âmbito das Organizações dos Estados Americanos (OEA).

Eis aí uma perola produzida por nossa diplomacia: envergonhando o Brasil em um dos mais prestigiados jornais da Europa. O que Uribe deveria deplorar, além da asneira lulística de reduzir a tensão atual a um simples desconforto retórico, é todo o histórico do governo Lula sobre suas afinidades com as Farc. Sim, as há! E a fala de Aurélio ao Le Fígaro é insofismável para comprová-las. Lula, Aurélio e Amorim condenaram o ataque colombiano em território equatoriano, mas não condenam de igual maneira, fazendo alarde na imprensa internacional, os métodos utilizados pelas Farc. Os meios da guerrilha não causam estranheza a Lula e nem a sua patota. Não é de se estranhar. Se vocês clicarem aqui, chegarão ao projeto de resolução da política internacional do PT. Lá, lê-se o seguinte:
A partir da convocatória feita pelo PT, nasceu o que futuramente se chamaria Foro de São Paulo, que ao longo dos últimos 20 anos contou com a participação ativa da Frente Amplio de Uruguai, da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) de El Salvador, da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) da Nicarágua, do Partido Revolucionário Democrático (PRD) do México e do Partido Comunista de Cuba, entre outras forças políticas.

Sim, é verdade: o Foro São Paulo – uma espécie de fórum das esquerdas da América do Sul – nasceu por uma iniciativa do PT, e contou com o apoio de gente cujos apreços pela democracia se resumem tão-somente pelos verbetes dos dicionários. O que o texto omite é um outro fato importante, que nos serve de base para delinear por quem o PT tem simpatia: um dos criadores do Foro São Paulo ao lado de Lula e Fidel Castro foi Raul Reyes, o pançudo das Farc. A guerrilha participou das reuniões desta corja por um bom tempo; e quando lá entraram, já matavam e já sequestravam. E qual a posição de nossa diplomacia com relação às Farc? Volto à entrevista do Le Fígaro.

Quel impact aura la mort de Raul Reyes sur la libération des otages ?
Dans un premier temps, j’étais très inquiet, mais les Farc ont dit que sa mort ne remettait pas en cause leur recherche d’un accord humanitaire. […] Je vous rappelle que le Brésil a une position neutre sur les Farc : nous ne les qualifions ni de groupe terroriste ni de force belligérante. Les accuser de terrorisme ne sert à rien quand on veut négocier […].
Que impacto terá a morte de Raúl Reyes para a libertação dos refèns ?
No início, eu fiquei bastante preocupado, mas as Farc disseram que sua morte não morte não influenciará na busca por um acordo humanitário. Eu gostaria de lhes lembrar que o Brasil tem uma posição neutra sobre as Farc: nós não as consideramos grupo terrorista nem força beligerante. Acusá-las de terrorismo é inútil quando se quer negociar […].

Esta aí mais uma boa declaração à qual Uribe poderia demonstrar seu repúdio também. Lula e Marco Aurélio Garcia não consideram terrorista um grupo que mata, rouba, trafica, seqüestra e degola governadores de estado, como vimos recentemente. Acham-se no direito de permanecerem neutros nesse papo. Engraçado é que Lula vai até o Irã meter o bedelho em assuntos nucleares só pra fazer frente aos Estados Unidos, mas se nega a agir com o mesmo arrojo frente aos narcoguerrilheiros.

Não, o rompimento das relações diplomáticas entre Venezuela e Colômbia está longe de ser apenas desentendimentos que se resumem ao campo da conversa. Crer nisso é atingir o auge da patetice. A Colômbia de Uribe condena o apoio explícito que Hugo Chávez dá aos terroristas das Farc, que chega a abrigar 1.500 integrantes da organização em território venezuelano. E é isso que Lula ignora. Este senhor já passou de todos os limites estabelecidos pela a linha tênue que separa a razão da quimera.

URIBE PÕE LULA EM SEU DEVIDO LUGAR