O cúmulo da ingenuidade: acreditar no fim da corrupção

A ampla maioria das pessoas que tenta desqualificar as manifestações contra o governo recorre à desculpa que os manifestantes dão por estarem nas ruas: todos querem o fim da corrupção.

Isso é de uma ingenuidade supina, obviamente. Não que o desejo não seja legítimo. Quem de nós não quer um mundo justo, belo e perfumado, não é mesmo? Ocorre que, para que isso se viabilize, o Estado brasileiro teria de ser refundado. Missão impossível, claro. Depois de mais de meio milênio de patrimonialismo (leiam Os Donos do Poder, de Raymond Faoro; é leitura obrigatória a quem quer entender o Brasil), acreditar que um simples impeachment resolve tudo é um brinde à asnice.

A corrupção sempre existiu. Antecedeu Dilma, Lula, FHC, Itamar, Collor, a ditadura.. O PT foi — e é — o partido mais criticado por dois grandes motivos.

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O cúmulo da ingenuidade: acreditar no fim da corrupção

Um escárnio

Vejam que coisa curiosa.

Lula, Dilma, José Eduardo Cardozo, Jaques Wagner, Rui Falcão (presidente do PT, que, em seu Twitter, chamou os manifestantes da Paulista de cochinhas — isso mesmo, com “ch”) e outros da camarilha sempre se ensoberbeceram com o fato de que o partido, desde que assumiu o comando do País, conferiu à Polícia Federal e ao Judiciário ampla liberdade para apurar os malfeitos do Brasil.

Seria, inclusive, em razão desse fenômeno que nunca antes na história deste País fez-se tanto em termos de Justiça e blá blá blá.

Não vou entrar nesse mérito. Até porque liberdade de investigação e de inquérito não são garantidas por governos, mas sim pela Constituição. “Mas antes havia Engavetador-Geral da República”, dizem, em alusão a todos os processos de privatização e escândalos dos anos FHC. O curioso é que, mesmo empunhando o estandarte da liberdade de investigação das instituições, nem Lula nem Dilma foram fuçar na caixa preta das privatizações. Poderiam? Sim, poderiam!

Certa vez, compelida a responder sobre isso, Dilma saiu-se com a desculpa de que seu “governo respeita os contratos”. Engraçado que esse mesmo respeito foi mandado às calendas no episódio da renovação das concessionárias de energia, por exemplo. E o preço — altíssimo, por sinal — vem sendo pago pela população desde o fim do ano passado, com um aumento escorchante nas contas de luz.

Ou, sim: Lula e Dilma foram lá perscrutar algo de tenebroso das privatizações de FHC, mas nada encontraram de desabonador.

Ou é uma coisa (omitiram-se) ou é outra (não acharam pelo em ovo). Não há terceira via.

Desviei do foco.

Adiante…

Pois bem, o PT, que, como disse, sempre ostentou orgulho por conferir ampla liberdade de investigação às instituições, agora quer colocar Lula em um ministério. O objetivo: minar o poder de investigação dessas mesmas instituições que, na palra petista, foram beneficiadas nos anos Lula-Dilma. Com o molusco virando ministro, em tese, Sérgio Moro teria de remeter o processo de enriquecimento ilícito do ex-presidente ao STF, em razão do ganho de foro privilegiado. Tudo ficaria mais lento.

Lula poderia safar-se.

Lula poderia acabar bem.

Em vez de ir para o xilindró, que é o seu lugar, enraizar-se-ia no Planalto, embolsando cerca de R$ 35 mil ao mês.

É o PT usando o governo para livrar um criminoso da cadeia.

Quem são mesmo os paladinos da liberdade de investigação?

Um escárnio!

Um escárnio

Accidie

Eu ando mergulhado em uma preguiça profunda nesses tempos de Lava-Jato. A internet é, ao mesmo tempo, boa e ruim. Boa porque dá acesso a mais pessoas a um maior volume de informações; e ruim porque, em contrapartida, democratiza a asnice. A sociedade em rede virou um lugar em que as pessoas se encontram coletivamente para imbecilizar umas às outras, salvo raríssimas exceções.

Isso tudo me levou a um estado de accidie — profundo desinteresse por todas as questões de que deveriam sublimar minha atenção. O que eu ganho com isso? Simples: não me irrito.

Não tenho contato com aqueles textões horrorosos, cheios de vírgulas indevidas entre sujeitos e verbos, em que os pensamentos ficam desesperadamente em busca de uma conclusão que nunca chega. Uma ideia primeira abre uma segunda. À espera da terceira, que, em tese, arremataria as anteriores, vêm anacolutos soltos, dispersos. E o leitor, coitado, fica ali, lendo aquela geringonça, não entendendo nada, achando que sua inteligência não alcança o raciocínio do autor.

O caso da babá negra levada à manifestação por seus patrões para que ficasse cuidando de seus filhos foi emblemático. Houve gente dizendo que a escravidão no País não havia acabado (ai, que sono!). Outros anotaram que os patrões, brancos, levando uma empregada negra para trabalhar naquele ato deslegitimaria o espírito da manifestação (já dormi!).

À medida em que os absurdos se acumulavam na timeline do Facebook, minha preguiça se expandia exponencialmente.

Lula pode ser preso qualquer dias desses. O que é uma pena que isso ocorra só agora. Já era pra ele estar vendo o sol nascer quadrado há muito tempo. Só fico cá pensando em quanto esse fato potencializará todo o poder de análise dos “colunistas de Facebook”.

Por isso fico com minha accidie. Não sofro decepção.

Accidie

União? Que união?

Hipócrita. Não há outra conclusão à qual chegar quando se sintetiza o discurso da vitória de Dilma Rousseff. Os eixos de seu palavrório foram dois: “reforma política” e “união”. Quero me ater neste último. Do primeiro cuido depois.

Já disse e repito: nunca antes na história de País foi promovida uma campanha eleitoral tão suja e desonesta como a de 2014. Nem em 1989, quando Collor levou ao ar propaganda de TV em que uma ex-mulher de Lula o acusava de tê-la obrigado a abortar, o nível beirou as profundezas do poço. Por parte do PT, prevaleceu o “nós contra eles”. Em discursos País afora, assistimos à demonização das elites, que, no imaginário petista, galvanizavam a candidatura de Aécio Neves e conferiam-lhe corpo para chegar ao Planalto.

Dilma acusou o PSDB de “não andar no meio dos pobres”. Lula mais uma vez prestou um desserviço de à democracia, ao incitar o ódio de um setor da sociedade à “elite incomodada com a ascensão dos mais pobres”. É uma coisa asquerosa ver uma candidata à reeleição, mas ainda com o peso institucional da Presidência, e um ex-presidente da República incitarem a divisão entre cidadãos de um mesmo País. Esquecem-se do pós-eleição. Ou Dilma, agora reeleita, será a presidente apenas dos pobres? A elite que ela tanto hostilizou será alijada de seu governo?

Eis uma herança maldita do PT à história do Brasil: a divisão do povo. Há no ar um mal-estar. Há lados divergentes não mais apenas no campo das colorações partidárias. O espírito petista incutiu em fatias da população a falsa percepção de que existe outra parte do povo que os enxerga como opróbrios.

Há, sim, uma divisão clara e inequívoca no País, mas não é a apontada pelo petismo e seus asseclas. Há quem queira libertar o Estado brasileiro do aparelhamento partidário, e há quem o apoie. Quem acha razoável uma economia estagnada e vê a urgência de se adotar medidas corretivas imediatamente no campo macroeconômico, e quem acha que estamos sob um céu de brigadeiro. Quem não quer mais ver a Petrobras sendo assaltada por uma claque de inescrupulosos, e quem deseja liberta-la de um fim melancólico. Quem vê com satisfação mensaleiros na Papuda, e quem os toma como heróis nacionais. Essa divisão é legítima e precisa ser mantida, deixando claro quem integra que lado do jogo; a do PT é puramente eleitoreira.

Depois erguer muralhas entre o povo, Dilma convoca a todos nós à união. Respeitosamente, presidente, vá catar coquinho! A união desejada pelo PT é leonina: o lado deles sempre sairá ganhando, locupletando-se da miséria das massas e das instituições; o lado oposto paga a conta. O Brasil unido de Dilma é impossível. O PT semeia discórdia e fomenta ódio. Não há casamento que dure sobre uma matriz tão insustentável. Mais: o palavrório de Dilma pró união pode ter em si a semente de 2015 adiante: se a oposição decidir fazer oposição (oh, que novidade!) e levar seriíssimas dores de cabeça aos mandatários de plantão, será acusada de intolerante, mesmo depois do aceno carinhoso de Dilma no discurso da vitória.

Não há união possível com o PT. Se estão no governo, querem destruir a oposição. Vide discurso de Lula nas eleições de 2010 contra o então candidato ao governo do  Estado de Santa Catarina, Raimundo Colombo (DEM). Se na oposição, mandam às favas o interesse nacional e o bem-estar o Estado e apostam no quanto pior, melhor. O ferrenho combate que mantiveram contra o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal provam isso.

“Ah, mas até o Aécio falou em unir os brasileiros”. Sim, é verdade. Só que uma coisa é o desejo de unificar o País na boca de Aécio. Vindo do PT, não vale de nada. A história comprova.

Eu sou oposição. Espero que Aécio Neves, José Serra, Álvaro Dias, Antônio Anastasia, Tasso Jereissati, no Senado; e os oposicionistas na Câmara Federal também sejam. Recuso a oferta de união da presidente. Pelo bem do Brasil.

União? Que união?

O MEDO VENCEU A ESPERANÇA

O terrorismo eleitoral, a campanha do medo e o sem-número de mentiras promovidas pelo PT, o que acabou por caracterizar as eleições de 2014 como a mais suja desde a redemocratização, levaram Dilma Rousseff a sair das urnas com 51,63% dos votos válidos (54,5 milhões de eleitores). Aécio Neves, do PSDB, conquistou para seu partido a maior votação de sua história: 48,37% dos votos (mais de 51 milhões de eleitores). Desde 2002, quando Lula derrotou Serra (61,3% a 38,7%), a diferença de votos recebidos pela oposição em relação ao PT vem diminuindo. Em 2006, Lula ficou com 60,8% dos votos; Alckmin, com 39,2%. Em 2010, Dilma levou 56,1%; Serra, 43,9%. Há aí uma tendência, sim, por mais que especialistas lutem em negar: o modelo petista de governar está levando o eleitorado ao enfado.

Fosse a campanha eleitoral pautada pelos bons princípios e pela higidez, talvez nestas eleições a ânsia por algo novo ficaria ainda mais escancarado. Ocorre que, em um ambiente em que o adversário é pautado pelo ódio e pela sina de anatemizar o oponente até as últimas consequências, o território para a propagação de ideias férteis ao debate democrático e ao futuro do País se torna menos propenso. Se Dilma ataca, Aécio tem de se defender. Como ficar calado frente às mentiras de que o PSDB acabaria com os programas sociais? Como deixar de refutar suposições de que o tucano agredia mulheres? Como aquiescer frente à boataria de que Armínio Fraga, trazendo a inflação para 3%, inevitavelmente elevaria o desemprego para 15%? Como deixar passar incólume constatações estarrecedoras, como a de que Fernando Henrique Cardoso entregou o Brasil a Lula com uma inflação maior do que quando recebeu?

Marina Silva, espancada sem dó pelo petismo, preferiu “dar a outra face”. Se ferrou. Viu suas intenções de voto minarem paulatinamente. Da dianteira nas pesquisas, foi para a terceira colocação. Sob a pecha de homofóbica (santo Deus!) e de mentirosa, deixou-se abater pela máquina de sujar reputações. Antes dela, Eduardo Campos já estava na mira. Com sua trágica morte, os holofotes encarregaram-se de focalizar a nova presa.

Dossiês contra adversários políticos, uso de estatais e da máquina pública para fustigar campanha da oposição, disseminação de boataria, a transformação do oponente em alvo a ser destruído, a certeza de ser dotado de um exclusivismo moral que lhe assegura um hipotético direito de guerrear a conduta das pessoas, e, o pulo do gato: acusar os outros de fazer exatamente tudo aquilo que você faz. Eis o PT. Dilma e Lula, em comícios Brasil afora,  disseram que os tucanos proferiam discursos de ódio. Era, evidentemente, mentira. É fácil constatar quem levou ao picadeiro a palra do nós contra eles. O marketing do PT sempre foi eficiente em estimular um arranca-rabo de classes. Pespegam nos adversários o epônimo das elites que não gostam nadinha da ascensão dos mais desfavorecidos. Como a causa destes (pobres) é a virtude deles (PT), aqueles (PSDB) representariam o retrocesso. Para evitar isso, só mantendo Dilma no poder, e fazendo povo acreditar que o Brasil da propagando de fato existe e não é um conto de fadas.

Não é fácil sustentar esse sistema. Mantê-lo irrigado com falácias requer infraestrutura e braços. É por isso que vimos os Correios atuando como comitê eleitoral do PT. É por isso que beneficiários do Bolsa Família receberam SMS afirmando que, em eventual vitória de Aécio, os recursos para o programa cessariam. É por isso que gente cadastrada no Minha Casa, Minha Vida foi alertada sobre o risco de sua moradia não ser mais entregue.

E sabem o que é mais nojento? É o PT, que sempre se orgulhou de hastear a bandeira dos mais desvalidos, usá-los como massa de manobra para se locupletar em seu projeto de poder. Pobres, meus caros, são conservadores. Procuram preservar qualquer conquista que tenham na vida, o que os conduz ao anseio por estabilidade e certa resistência a mudanças. Não têm esse comportamento, em tese, por má-fé, mas sim por um, digamos, instinto de sobrevivência. Dá-me asco saber que o PT se aproveita desse sentimento para levar pânico a essas pessoas. Foram SMSs, torpedos, mensagens de WhatsApp com mensagens caluniosas e ameaçadoras enviados diretamente a milhares de pessoas. A própria Dilma vocalizou que Aécio era contra o salário mínimo, e sua vitória era o prefácio de uma era de desempregados.

Não há debate razoável a ser feito em um ambiente contaminado pelo ódio. O eleitorado, ávido por propostas e uma discussão pertinente sobre o futuro, vê-se diante de baixarias mil de um lado. Se o outro lado não responde, corre-se o risco de ver dedos em riste apontados para sua cara, em tom de “quem cala, consente” (sim, pode-se usar vírgula em sujeito oracional). E os interesses do País vão para o ralo. Diante disso, o dia a dia do brasileiro comum, a economia estagnada, a indústria desempregando, a dívida interna explodindo, a inflação nos estertores da meta… como diria Rita Lee: tudo vira bosta. Em um debate menos contagiado pelo ódio petista e mais aberto à lisura de propostas, o PT perderia. E feio.

O medo venceu a esperança. A mentira prevaleceu sobre a verdade. A desonestidade intelectual suplantou a decência.

É claro que ainda escreverei mais sobre essas eleições. Um post é muito pouco para os quilos de coisas que ainda precisam ser ditas.

O MEDO VENCEU A ESPERANÇA

PORQUE GOSTO DA DEMOCRACIA, DIGO NÃO ÀS MANIFESTAÇÕES

Um grupo de vândalos tentou invadir a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) na última sexta-feira. Desde ontem, acampam em frente ao Palácio dos Bandeirantes. Vocês sabem como andam nossos dias: basta que meia dúzia se reúna para reivindicar qualquer coisa e resolva travar a cidade, mandando às favas o direito constitucional de ir e vir de quem optou por não se manifestar por nada, que já ganham aplausos aquiescentes. Velhos babões, aos montes, esbanjam ânimo: “Jamais pensei que esses jovens iriam às ruas como vão hoje”, disse dias desses um graúdo empresário a mim. Voz das ruas, recado dos jovens, primavera brasileira, gigante acordou, enfim, essa coleção de clichês aboletada numa espécie de mal estar da nossa democracia impulsiona esses movimentos, conferindo-lhes especiais estima e legitimidade.

Não, meus caros. Não estou com essa gente. Sou desses que sempre desconfia de multidões. Qualquer pessoa que já mergulhou no livro Psicologia das Massas e Análise do Eu¸ do Freud, há de concordar comigo que coletividades são ameaçadoras, capazes de tudo. Tudo mesmo! O limite para seus intentos é o céu. Como vivemos numa democracia, a lei e a ordem definem até onde o povo é soberano. É simples de entender.

Logo no início dos protestos, um monte de amigos, alguns bem intencionados até, me indagaram o porquê de eu não aderir ao clamor das ruas. Como o PT está na mira das manifestações, uma porção de gente pensou que me deixaria embalar pelo coro dos descontentes. Não, não me deixei. Nem tudo que está contra o PT necessariamente me agrada. Não gosto do PT por seu autoritarismo, por seus métodos escusos de solapar a democracia e subjugar as instituições. Se, no entanto, as forças que emergirem se propõem a combater o PT por métodos que, no final, acabarão resultando em menos democracia e minando as instituições de sua legitimidade, coloco-as logo lado a lado de quem pretendem guerrear. Sim, queridos: se o que quer essa multidão (esses “jovens”, como uns babões estão adorando dizer) vier a ser implementado, assistiremos à democracia indo pra lama.

Eu não sou sociólogo nem cientista político. Sou um implacável seguidor da lógica. Só ela me orienta e ilumina minhas convicções. Eu sou eu e minhas ideias. Meu farol de Alexandria é minha consciência. E é com base nesses pressupostos que arrisco dar contornos aos fatos que estão ocorrendo no País. Preparem-se, este texto será longo.

É óbvio que entre as reivindicações das ruas muitas são honestas e procedentes. As expressões de descontentamento “contra tudo o que está aí” (toda vez que algum pseudoengajadinho me diz esse mantra, sinto uma preguiça aguda) podem ser levadas a quem de direito. A forma como o fazem, no entanto, pode contribuir para que o verniz supostamente democrático dessas vindicações se desfaça. O PT se tornou um dos principais alvos dos protestos. Dilma Rousseff, dos píncaros de seus 63% de aprovação do governo em março, despencou para 31%. Entretanto, não admito que manifestantes recorram a práticas que, se transformadas em norte político e moral, levariam o País ao brejo institucional e ao vácuo democrático – males maiores dos que se propuseram a combater.

Assistimos nas ruas, durante o mês de junho barulhento, a cartazes pedindo o fim dos partidos políticos. Esse anseio encontrou eco em muitas cabeças-de-vento. Não há como fazer política sem…política, da mesma forma que não há democracia sem representatividade – e esse papel cabe aos…partidos políticos. Isso justifica a razão de Marina Silva ter sido a grande beneficiada de toda essa barafunda. A sonhática (que coisa mais ridícula!) se diz, com a pompa da realeza, não pertencente a nenhum partido. Sua Rede estaria fora do campo gravitacional em torno do qual giram todas as demais agremiações políticas. E há quem caia de amores por esse discurso.

Sim, eu quero o PT fora do poder. Se vocês recorrerem aos arquivos deste blog, encontrarão uma fartura de posts que justificam essa minha posição. Só que, vejam como sou exótico, quero apear o PT do governo via urnas, via voto. Não quero – nem admito – quaisquer tentativas de golpes. Goste-se ou não, Dilma governa porque foi eleita, obedecendo todos os ritos democráticos previstos em lei. Se Dilma – ou Sérgio Cabral, ou Geraldo Alckmin, ou o prefeito de Arceburgo… – tiverem de cair fora, que sejam por esses valores.

O problema é que os manifestantes ignoram solenemente esses princípios. Eu tenho horror a minorias que querem impor sua vontade à maioria. Sempre vi com muita desconfiança ondas de coletivismos. Rogam para si uma legitimidade que ninguém lhes conferiu e, com isso, acham-se acima da ordem. Por que digo isso? Simples: desde junho, a Avenida Paulista foi travada por manifestantes inúmeras vezes. Dizem-se pacíficos. Mas não são. O que há de pacífico interromper abruptamente o direito de ir e vir da maioria? Como se julgam os portadores do bem, acham razoável que suas vontades sejam impostas aos demais. Eles acreditam Alckmin tem de ser deposto. Logo, tomam as ruas,  impedem motoristas de trafegar e, por que não?, pensam ser justo tomar a Assembleia Legislativa à base da força. Houve gente que só faltou ter orgasmos quando um bando de delinqüentes subiu ao teto do Congresso Nacional, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Não, meus caros, não é. “Mas são pacíficos”, dizem uns. O escambau! “Invasão” e “pacificidade” são termos que não se conjuminam.  

Pacíficos uma ova – O Datafolha realizou uma pesquisa para apurar o grau de aprovação às manifestações. 66% dos paulistanos são favoráveis; 34%, contra. Ora, isso também aprovo, até porque não tenho vocação pra ditador. Quando os protestos passam a atrapalhar a vida de quem optou por não se manifestar por nada, aí sou contra. 78% acham justa a ocupação da Paulista. Eu não acho. Dou, nesse caso, de ombros à maioria. Não é porque a maioria gosta e aprova que signifique que obnubilar o direito de ir e vir das pessoas é legítimo. Pensem no pandemônio que viraria a cidade se todo mundo com uma reivindicação embaixo do braço resolvesse tomar a Paulista. A praça é do povo como o céu é do condor, bem sei. Então que se faça esses protestos no Vale do Anhangabaú, por exemplo. Por que não marcam manifestações na Jacu Pêssego? Simples: porque esses valentes querem, sim, impor sua vontade a todo mundo.

“Ah, mas a maioria é de bem e não quer confusão”, dizem uns cândidos. Pode até ser verdade. Só que temos de levar em consideração os sentimentos que se arregimentam quando fazemos determinadas vindicações. Mais: nunca vi tantas manifestações infiltradas por vândalos. Tanto que vandalismo, em certa altura do campeonato, virou novilíngua: passou a ser manifestações pacíficas infiltradas por vândalos. “Os quebra-quebras são exceções”, dizem muitos. Nunca vi tanta exceção se repetir como se regra fosse. Mais: pesquisa encomendada pela TV Globo feita com participantes de manifestação e exibida no Fantástico recentemente traz um dado alarmante: 5% dos que engrossam o caldo desses protestos acham que depredações são válidas; 28% as interpretam como justificadas em alguns casos. Vamos à frieza cáustica dos números: 33% dos “pacíficos”, portanto, têm pré-disposição para sair por aí arrebentando lojas bancárias, depredando patrimônio público, promovendo cenas de violência pelas cidades. É pouca gente? Não, não é. Significa que se uma passeata reunir 100 mil pessoas na Paulista, 33 mil delas acham justo recorrer a métodos pouco republicanos para expressar seu descontentamento.

A Globo mostrou esse dado com a mesma naturalidade que se descortina a preferência do povo por chuchu ou abobrinha. Como o jornalismo anda em crise, não ocorreu ao repórter e ao editor fazer uma regra de três simples. Houve manifestações no Rio de Janeiro cujo público fora, segundo a Polícia Militar, de meio milhão de pessoas. Por que a Globo não disse que, perante os resultados de sua própria pesquisa, 165 mil pessoas, no mínimo, eram vândalos em potencial? Nadica!

A satanização das polícias – Para complicar, teve início o processo de demonização das Polícias Militares País afora. Ações legítimas de policiais passaram a ser encaradas como repressão, barbárie. Jovenzinhos idiotas e descolados quiseram logo brincar de um passado que desconhecem – ah, os livros, que falta fazem a muitos! – e nunca viveram a fim de evocar a sombra da ditadura. Disseram-se reprimidos. Tadinhos! Não se pode nem mais sair por aí travando uma cidade e quebrando tudo que se vê pela frente que a PM vem coibir, não é mesmo?

A fenda dessa retórica teve início em 13 de junho, em São Paulo. Os protestantes haviam firmado um acordo com a PM de não tomar a Paulista. Mas quê… Desobedeceram flagrantemente o compromisso assumido. Às 19h08, policiais pediram aos manifestantes que não subissem a Consolação rumo à Paulista. Os valentes deram de ombros e enfrentaram o cordão de isolamento da polícia. Ora, se é CORDÃO DE ISOLAMENTO, é pra não ser passado, certo? Teve aí o início da confusão, que foi maior desde o início dos protestos. Nota à margem: em nenhuma democracia do mundo a polícia fica quieta quando apanha. Por aqui, o povo acha lindo ver um agente da ordem levando paulada sem reagir. Adiante. Pipocaram cenas de policiais militares agredindo pessoas. Jornalistas feridos passaram a ser exibidos aos montes em milhares de sites.

Se houve abusos por parte da polícia, que sejam investigados e os culpados punidos. Ponto. Isso não significa que a PM, a partir de então, tivesse de ficar acossada pela patrulhae, consequentemente, constrangida de cumprir o papel que a lei lhe faculta. Os baderneiros passaram a contar com salvo-conduto da opinião pública e da imprensa para fazer o que bem lhes derem no juízo. As ruas foram seqüestradas. O direito de ir e vir foi cassado. Aos policiais restaram apenas acompanhar os manifestantes. Qualquer bomba de gás lacrimogêneo para reprimir ações de vandalismo passou a ser arrostada como abuso policial. A gritaria superabundou o imperativo da democracia. Pior: sob os aplausos de muitos.

Semanas depois, no Rio de Janeiro, assistiu-se a verdadeiras ações de terrorismo contra o patrimônio histórico, quando a sede da Alerj foi depredada. Um policial foi violentamente espancado. Seu sangue banhou as calçadas do centro. Seu drama não foi destaque, no dia seguinte, em nenhum telejornal. Não vi nas redes sociais indignação contra tamanha truculência. Já em favor dos baderneiros, bem, creio ser desnecessário mencionar os gracejos havidos.

“É por direitos” – O discurso catalisador que sequestrou psiquicamente as massas veio do Movimento Passe Livre. Mobilizaram-se contra os R$ 0,20 de aumento nas tarifas de ônibus e metrô e foram às ruas. Reuniram, no início, alguns gatos pingados. É possível que a iniciativa tenha sido o agente hegeliano do processo, pra remeter um tiquinho ao livro A filosofia da história, de Hegel. Nesta obra, o filósofo diz-se estar consciente de que as forças da sociedade se inserem nas ações de líderes, a fim de realizar seus propósitos inconscientes. Hegel afirma que Júlio César derrotou seus inimigos e destruiu a Constituição de Roma visando uma posição de supremacia, é verdade; no entanto, o que o torna uma figura importante para história é que ele fez o necessário para unificar o Império Romano, e o autoritarismo era o único caminho para isso. “Assim, não foi apenas seu interesse pessoal, e sim um impulso inconsciente, que ocasionou a realização daquilo cujo momento havia chegado”, escreveu o filósofo.

Colocar Hegel e MPL num mesmo parágrafo soa mal, eu sei. Mas recorrer à teoria é um caminho para explicar momentos e momentos. Em nenhum momento, até o arborescer dos grandes protestos, os líderes do movimento expuseram descontentamento contra as condições adversas do País em questões como educação, saúde e segurança. Sua pauta era, sim, única: contra os R$ 0,20. Se não baixassem as tarifas, São Paulo iria parar, de acordo com eles. “Os 20 centavos eram a gota d’água que faltavam para a explosão da indignação geral”, muitos constaram. Estava, então dada a senha para a materialização de uma máxima do interior: cada enxadada, uma minhoca. “Não é por R$ 0,20; é por direitos”, muitos emplacaram.

É claro o Brasil é violento. Os 50 mil homicídios ocorridos anualmente são a prova disso. Os hospitais públicos padecem de médicos e equipamentos. Nossas escolas, adeptas de Paulo Freire — cujos métodos de ensino abomino – e do besteirol do Construtivismo, não conseguem ensinar os alunos a destrincharem os objetos diretos do Hino Nacional. A claque política continua vivendo num paraíso paralelo, desconectada da realidade dos brasileiros e ensimesmada com seus próprios interesses. São, sim, reais e legítimos o combustível das reivindicações.  Há razões às dezenas para protestar, mas o clima criado para a realização das manifestações advém de tensões artificiais. Querem a prova? Comparem a quantidade de presentes aos protestos antes do dia 13 de junho e depois. A ação mais firme da PM de São Paulo somada à capacidade que as mentiras têm de ganhar corpo nas redes sociais confluiu para a criação uma espécie de mal estar geral. A partir daí, corolários equivocados foram alçados à condição de verdades imperativas.

Os manifestantes são pacíficos. Os casos de vandalismo são exceções.
Depredar é feio, mas fazer da cidade um território livre à ocupação é bonito.
Aqueles que impedem o acesso aos 16 hospitais da região da Paulista são democratas.
Os jovens estão mudando o Brasil. Eventuais vandalismos são efeitos colaterais. Só.
O importante é ir pra rua gritar. Contra o que? Qualquer coisa! O importante é berrar.
Não importa se os métodos são errados. Pelo menos alguém está fazendo algo.
Qualquer ação da polícia é repressão.

Dilma ouviu a voz das ruas. E no que deu? – A presidente Dilma resolveu dar aquela afagada na cabeça das ruas. Quebrou a cara, e várias vezes. A primeira proposta do Planalto foi uma constituinte exclusiva para a reforma política, algo escandalosamente autoritário e inconstitucional. Hugo Chavez recorreu a esse expediente na Venezuela para atrair para si todos os poderes. Até mesmo o vice-presidente da República, Michel Temer, veio a público dizer que o projeto era inviável. O PT é mesmo muito engraçado: essa gente está há 10 anos no poder; e só agora tiveram esse surto de boa vontade para fazer a reforma política. Foi uma tentativa natimorta. Dilma viu-se obrigada a voltar atrás.

Um investimento de R$ 50 bilhões em mobilidade urbana também foi prometido, bem como a destinação total dos royalties do pré-sal – que nem sequer existem ainda – à educação. Como executar essas cifras é o grande mistério. Números oficiais do governo mostram o abismo que há entre orçamento autorizado e recursos efetivamente aplicados. Dos R$ 50,6 bilhões prometidos para a saúde, apenas 39,6% foram executados; em saneamento, 48,6% dos R$ 16,7 bilhões; na educação, 61,3% dos R$ 53,3 bilhões; em transportes, 60,5% dos R$ 118,5 bilhões. Se o governo mal dá conta de investir o que tem, de que adianta anunciar mais recursos para isso ou aquilo? Mais: quem disse que o problema da educação é de financiamento? É, sim, de falta de gestão adequada de recursos. O resto é conversa pra boi dormir.

O Mais Médicos, programa que impingia a todos os estudantes de medicina o exercício do ofício em hospitais públicos para poderem ter diploma sob o argumento de que o sistema público de saúde carece de médicos, também foi por água abaixo. De um autoritarismo tremendo, o precedente que se abriria seria um perigo. Se amanhã os engenheiros em obras do PAC se tornarem escassos, o governo vai obrigar estudantes de engenharia a serem “engenheiros públicos”? Se faltarem professores, os estudantes de magistério terão de dar aulas compulsoriamente nas escolas do Estado? Se dentistas se tornarem raro no Amazonas, os formandos em Odontologia serão enviados às comunidades ribeirinhas, do contrário, não têm diploma?

Perceberam? No afã de dar resposta aos anseios das ruas, o governo pôs em xeque a Constituição, a liberdade individual, o apreço pelas instituições e, por conseguinte, a própria essência da democracia. É claro que não se pode culpar o povo pelas respostas desastradas que Dilma deu. As pessoas levam à praça suas reivindicações. Ponto. O PT, ruim de governo, é que tem de ser questionado pela desgraça de suas réplicas.

Concluindo – Fosse o Brasil um País com partidos políticos sólidos, que não servissem apenas como moeda de troca para tempo de propaganda partidária e alimento ao deplorável sistema de presidencialismo de coalizão, talvez tantas insatisfações represadas teriam sido captadas antes de eclodir todas essas manifestações. Boa parte de quem está nas ruas tem como referência de governo apenas os 10 anos do PT e tudo o que de ruim fizeram ao Brasil. O avanço social cantado em prosa e verso pela dupla Lula-Dilma perdeu o fôlego. As pessoas não querem mais apenas a TV de 42 polegadas, o notebook comprado a longas prestações e o iogurte na geladeira, igualmente financiada. Esses novos menos pobres querem qualidade fora de casa também: escolas boas, hospitais decentes e sentirem-se seguras. 

Demorou pro povo ir pras ruas porque durante muito tempo o PT teve o monopólio da praça. O partido deu dinheiro a ONGs, à UNE, ao MST, às centrais sindicais – ou seja, a todas as franjas capazes de mobilizar multidões. Num passado não muito distante, as pessoas foram às ruas para protestar contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, as privatizações, o Fundef e o Plano Real. Por trás das manifestações estava o PT, que arrebanhava multidões. Pergunto: a LRF não era boa? Não era igualmente benéficos o Fundef, o Plano Real e as privatizações? Sim, eram todos bons e deram inestimáveis contribuições ao Brasil. Mas e  daí? A turma engoliu as abobrinhas do PT e, bovinamente, foi protestar.

O momento do País serve para atestar a inapetência das oposições, que foram incapazes de detectar tantas reclamações reprimidas. Mas fazer o quê, não é mesmo? No Brasil, partidos de oposição sentem-se constrangidos de criticar, botar o dedo na ferida e representar o eleitor de…oposição.  Tanto que Marina Silva, virtual candidata à Presidência da República, foi a que mais ganhou com isso. Se Marina Silva foi a grande beneficiada, em boa coisa não vai acabar.

Assim, meus caros, como gosto da democracia, digo não às manifestações tal qual estão ocorrendo. O direito de tomar a praça e de se expressar é livre. Pena que essa liberdade tem sido usada para depredar patrimônio público e privado, censurar jornalistas, atacar agentes da ordem, impedir o sagrado de direito de ir e vir, invadir prédios públicos, promover bagunça, fazer apologia ao fim da representação política, desvirtuar a democracia, criar falsas tensões…

PORQUE GOSTO DA DEMOCRACIA, DIGO NÃO ÀS MANIFESTAÇÕES

A “VEZ DA MULHER” NÃO EXISTE

Confirmada a eleição de Dilma Rousseff, aqui e alhures, à exaustão, ouvimos e lemos que o Brasil finalmente elegera a “primeira mulher presidente da República”. Alguns entoam isso como uma espécie de prelúdio de uma nova era, algo divisor de águas. Dilma lá, no entanto, não é a mulher lá. Se o que se quis colar na eleição da petista foi a égide de um feminismo, sinto dizer: ele não existe – nem nunca existiu. Dilma lá é Lula lá. Dilma lá é o projeto de Lula, não de uma trajetória planejada para a emergência de uma mulher no posto de primeira mandatária do país. Dilma lá é a consagração de um projeto de poder cujo mote prioritário nunca foi a eleição de uma mulher, mas, sim, a continuidade de um anseio pessoal e partidário. Mulherismo? Dilmismo? Nada disso! É lulismo. Pelo menos até aqui. Se a partir de primeiro de janeiro o gênero sexual se tornar assunto preponderante, o será, registre-se, desvinculado de qualquer propósito inerente à campanha de Dilma até aqui.

Ao contrário do que se diz, Dilma não teve autonomia em sua campanha. Lula interferiu nos rumos do certame desde, pasmem!, 2007! Ao carregar Dilma pelo braço para os quatro cantos do País e vende-la como a mãe do Plano de Aceleração do Crescimento, era claro o intento de fazer da então ministra da Casa Civil uma gerente eficiente. O corolário, então, seria o óbvio: eficiência gestora do governo Lula seria, por conseguinte, excelente presidente da República. O plano, no entanto, não cravou os resultados obtidos nos primeiros momentos. Tomando-se por base pesquisas realizadas pelo instituto Datafolha ao longo de 2009, nota-se uma gradual e lenta evolução de Dilma nas intenções de voto, mas sempre abaixo de José Serra. À época, os cenários apresentados aos eleitores eram diversos – com sem Ciro Gomes na disputa, com e sem Heloísa Helena e com e sem Aécio Neves.

Na média, na pesquisa divulgada em 20 de março de 2009, Dilma tinha 12,6% das intenções de voto levando em consideração os cinco cenários possíveis, alternando combinações de candidatos. José Serra, àquela altura, tinha em média 41%, mas considerando-se apenas três cenários nos quais o tucano aparecia – nos outros dois, Aécio era a figura provável do PSDB. Já na última pesquisa Datafolha divulgada em 2009 – momento em que a cobertura jornalística já era mais intensa e as alianças políticas começavam a vir à luz –, Dilma Rousseff aparecia, em média, com 24,5%; e Serra com 38,5% — uma diferença de 14 pontos percentuais.

Em maio deste ano começaram a ser exibidas as primeiras propagandas publicitárias na TV. Foi justamente neste período que pela primeira vez Dilma empatou com Serra. Ambos registravam 37% das intenções de voto. Em 23 de agosto, o Datafolha divulgou a primeira pesquisa depois do início do horário eleitoral gratuito no rádio e na TV. Vale lembrar: no primeiro programa de Dilma, quem protagonizou o vídeo foi Lula. Tudo orbitou em torno da idéia de sucessão, chegando ao cúmulo de sermos obrigados a ouvir uma musiquinha que afronta qualquer princípio democrático: “Deixo em tuas mãos o meu povo”. Nas democracias, o povo conduz alguém à presidência; no regime de Lula, o povo é conduzido às mãos de quem ele bem entende. Mas isso é outro assunto. Aos números: considerando-se apenas os votos válidos, Dilma Rousseff apresentava 17 pontos de vantagem sobre José Serra. A petista tinha 54% das intenções de voto contra 37% do tucano. Ode a Lula!

Ao longo da campanha, Lula ganhou cada vez mais espaço. Já no fim do primeiro turno, envolto pela aura palanqueira à qual aderiu em detrimento da função institucional da Presidência da República, ultrapassou os limites da radicalização da ação política. Sugeriu a extirpação de um partido político da democracia, vociferou contra a imprensa e mandou a lei eleitoral às favas. Resultado: a disputa foi ao segundo turno. Nuvens negras chegaram a pairar sobre o QG do PT. Lula saiu de cena no início do segundo turno. Dilma caiu e Serra cresceu. Lula voltou. Dilma cresceu novamente.

O regime de lulodependência estabelecido na campanha de Dilma evidencia um elemento que rui com todos os argumentos cujo fio condutor é o mote do “da vez da mulher”. Uma ova! Todas as vezes em que Dilma ganhou certa autonomia vimos as pesquisas irem de encontro àquilo que suas expectativas desenhavam. Coincidiu com o primeiro debate da TV Bandeirantes, por exemplo, quando começou a ganhar corpo a idéia de uma Dilma mais descolada da imagem de Lula. Dilma mostrou-se mais agressiva, rachando opiniões dentro do PT sobre a eficácia de sua nova postura junto ao eleitorado. Incertezas, àquela altura do campeonato, era tudo o que petistas não queriam. Na dúvida, trouxeram de volta a figura do criador. No socorro à sua invenção, Lula logrou o êxito desejado ao delinear ele mesmo os rumos que a campanha tomaria a partir dali. Coincidiu, vejam que coisa, com os 15 últimos dias mais sujos da campanha. À baila vieram as mentiras das privatizações e a hostilização explícita de Lula a Serra.  Chegou-se ao extremo de a Petrobras anunciar a descoberta de uma nova reserva de pré-sal no porto de Santos. Coincidência? Pode ser. Mas Lula ir até lá só pra sujar suas mãos de óleo não foi resultado de conjugação de fatos alheios ao calor da disputa.

“A vez da mulher” não existe. O povo não quer uma mulher na Presidência da República; quer, sim, alguém que dê continuidade à era Lula, independentemente de ser homem ou mulher. Dilma poderia ter entrado na campanha como a técnica competente que tocou obras do governo – concorde-se ou não com essa visão — e saído como alguém que amealhara votos graças a ela mesma. O risco de náufrago seria iminente. Saiu vitoriosa da campanha, mas não como mulher competente; mas como, para a maioria, a “muié” do Lula. Dilma poderia ter saído maior das urnas. Saiu menor, reduzida à mera condição de sucessora indicada.

A “VEZ DA MULHER” NÃO EXISTE