Accidie

Eu ando mergulhado em uma preguiça profunda nesses tempos de Lava-Jato. A internet é, ao mesmo tempo, boa e ruim. Boa porque dá acesso a mais pessoas a um maior volume de informações; e ruim porque, em contrapartida, democratiza a asnice. A sociedade em rede virou um lugar em que as pessoas se encontram coletivamente para imbecilizar umas às outras, salvo raríssimas exceções.

Isso tudo me levou a um estado de accidie — profundo desinteresse por todas as questões de que deveriam sublimar minha atenção. O que eu ganho com isso? Simples: não me irrito.

Não tenho contato com aqueles textões horrorosos, cheios de vírgulas indevidas entre sujeitos e verbos, em que os pensamentos ficam desesperadamente em busca de uma conclusão que nunca chega. Uma ideia primeira abre uma segunda. À espera da terceira, que, em tese, arremataria as anteriores, vêm anacolutos soltos, dispersos. E o leitor, coitado, fica ali, lendo aquela geringonça, não entendendo nada, achando que sua inteligência não alcança o raciocínio do autor.

O caso da babá negra levada à manifestação por seus patrões para que ficasse cuidando de seus filhos foi emblemático. Houve gente dizendo que a escravidão no País não havia acabado (ai, que sono!). Outros anotaram que os patrões, brancos, levando uma empregada negra para trabalhar naquele ato deslegitimaria o espírito da manifestação (já dormi!).

À medida em que os absurdos se acumulavam na timeline do Facebook, minha preguiça se expandia exponencialmente.

Lula pode ser preso qualquer dias desses. O que é uma pena que isso ocorra só agora. Já era pra ele estar vendo o sol nascer quadrado há muito tempo. Só fico cá pensando em quanto esse fato potencializará todo o poder de análise dos “colunistas de Facebook”.

Por isso fico com minha accidie. Não sofro decepção.

Accidie

Fuga da privacidade

Incrível como as redes sociais criaram uma geração de pessoas que buscam se mostrar, serem vistas, notadas, percebidas, numa espécie de fuga da privacidade, não? Pra que permanecer no anonimato se se pode mostrar ao mundo como você é ridículo? E a TV, coitada, acoimada por essa tendência, vê-se como veículo de reverberação desse fenômeno.

O Fantástico convida o telespectador a enviar um vídeo cantando uma musiquinha da Copa. E, claro, há quem envie. O Bom Dia São Paulo pede fotos. Aí um monte de gente envia imagens de seu casamento, como se quem não foi convidado para a ocasião – meu caso e, creio, de mais milhões de pessoas — estivesse minimamente interessado nisso. Daí vemos noivos beijando uma escultura da Mônica na Paulista (!), uma noiva empurrando o carro na saída do casório (!!)… E eu me indago: tá, e daí?

TV abanando o rabinho pro telespectador (“envie seu vídeo cantando isso”, “envie seu vídeo fazendo aquilo”, “envie o vídeo de seu filhinho”, “mande um vídeo do seu cachorrinho”, “mande um vídeo de sua coreografia” – valha-me, Deus) dá nisso: patifarias mil, na maior sem-cerimônia.

E os selfies, então? Uma vez vi uma moça que postou uma foto com uma fatia de melancia na mão. “A troco de quê?”, me perguntei. Pro meu espanto, a imagem recebeu 30 mil curtidas. Como assim, gente?

Ah, sim, claro: agora, com um Facebook a um logon de distância, todo mundo se acha muito sabido e apto para opinar sobre tudo, não é mesmo? Com uma gramática trôpega, evidenciada pelas vírgulas salpicadas sem nenhum critério pelo texto, a gente entra em contato com a indispensável análise de milhares de pessoas, cujo primoroso conhecimento é de fazer inveja a muita gente graduada.

Economia, política, ciências jurídicas, sociologia, História, intervenção policial, capitalismo, socialismo…enfim, esses temas que exigem pouca formação e informação, vocês sabem, viraram alvo de pitacos a todo instante. Discorre-se sobre esses assuntos com a profundidade de um pires. Dá pra dar risada, claro; mas uma hora irrita. É quando elevo as minhas mãos aos céus e agradeço pela função “unfollow”, uma “bença” nas nossas vidas.

Fuga da privacidade