O cúmulo da ingenuidade: acreditar no fim da corrupção

A ampla maioria das pessoas que tenta desqualificar as manifestações contra o governo recorre à desculpa que os manifestantes dão por estarem nas ruas: todos querem o fim da corrupção.

Isso é de uma ingenuidade supina, obviamente. Não que o desejo não seja legítimo. Quem de nós não quer um mundo justo, belo e perfumado, não é mesmo? Ocorre que, para que isso se viabilize, o Estado brasileiro teria de ser refundado. Missão impossível, claro. Depois de mais de meio milênio de patrimonialismo (leiam Os Donos do Poder, de Raymond Faoro; é leitura obrigatória a quem quer entender o Brasil), acreditar que um simples impeachment resolve tudo é um brinde à asnice.

A corrupção sempre existiu. Antecedeu Dilma, Lula, FHC, Itamar, Collor, a ditadura.. O PT foi — e é — o partido mais criticado por dois grandes motivos.

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O cúmulo da ingenuidade: acreditar no fim da corrupção

Babá opressora

Um dos melhores trechos da entrevista concedida pela babá que virou fetiche social foi quando afirmou que ela mesma emprega outra babá.

Do jornal Extra:

Quem cuida das suas filhas quando está no trabalho?
Meu marido trabalha às vezes no fim de semana. Então, a gente contrata uma menina, que mora aqui perto, para tomar conta da menorzinha.

Quem vai chamar a babá de opressora, agora?

 

Babá opressora

FIASCO

A manifestação convocada pelo Movimento Passe Livre e pelo PT para a tarde de ontem aqui em São Paulo foi um delicioso fiasco. Queriam parar a cidade. Não conseguiram. Nas contas da Polícia Militar, mil pessoas se reuniram no Vale do Anhangabaú; nas do Datafolha, três mil. Ambas, sem sombra de dúvida, nos fazem concluir que todo o gáudio com que os protestantes anunciavam o ato foi por água abaixo. Como de praxe, um grupo partiu pra violência e depredou agências bancárias. O pessoal do Mídia Ninja acha razoável que pedras sejam arremessadas contra bancos. Isso, para eles, seria a expressão dos “jovens de bairros carentes” que já estão “cansados da violência do Estado” e da “opressão imposta pelo capitalismo”. Bruno Torturra, uns dos líderes dessa imprensa alternativa, justifica os vandalismos da seguinte forma: não é, na verdade, violência no sentido estrito da palavra. Se fosse, a agressão também seria dirigida pessoas. Como os ataques são contra agências bancárias, logo podemos concluir que essas “microindignações” (eita terminho sem vergonha) são contra o “sistema”.

Mais do que tamanha boçalidade, o que me espanta é a adesão de parte de setores da imprensa tradicional a essa tese. Primeiro porque se trata de uma falácia essa história de que os movimentos são compostos por jovens carentes. Basta passar os olhos nas vestimentas dos dito-cujos e no físico típico de quem tem acesso a todas as boas proteínas para constatar que de pobre essa gente não tem nada – só ser for o juízo. Segundo, se, como diz Torturra, todo mundo com suas “microindignações” resolver se dar o direito de depredar o patrimônio alheio sob olhares complacentes do resto da sociedade, estaremos todos mergulhados em anarquia. Eu mesmo vou à praça e vandalizar umas vidraças de lojas de celular. Minha microindignação: pessoas que ouvem funk ou pagode sem fone de ouvido. Berlioz no último volume de um celular com mp3 ninguém ouve, né?

Alguns valentes se deslocaram à Câmara Municipal e outros à Assembleia Legislativa. Obtiveram êxito na invasão da primeira; na segunda, a Polícia Militar interveio reprimiu a tentativa – no que fez muito bem. “Ah, mas a tentativa de invasão era pacífica”, murmuram alguns. Que diacho! Não sei de onde essa gente tira que o binômio invasão-pacífica é possível. Se é invasão, como pode ser pacífico? Claro que a ousadia da súcia faz fervilhar os ânimos de muitos imbecis. Quando um grupo de pessoas tomou o teto do Congresso Nacional o que não faltou foi gente nas redes sociais proferindo aquele detestável clichê: se o Congresso é do povo, não foi invasão, foi reintegração de posse. Tenho, admito, enorme preguiça desses consensos que vão se formando aqui e ali, tomando a consciência de muitos como se tamanha barbaridade fosse uma virtude. Quem está lá dentro do Congresso – ou da Câmara Municipal ou da Alesp —  goste-se ou não, foi democraticamente eleito pelo povo. Representam, sim, parte da população. Já quem invade à base da truculência o faz com que legitimidade? Representam quem? Se querem derrubar vereador, deputado ou senador, que seja tudo feito pelos ritos da democracia – a urna é o melhor caminho.

Caráter político – Não houve como esconder o viés político da manifestação convocada para ontem. Embora o MPL se diga apartidário, não conseguiram afastar o PT da órbita do ato. Se o protesto era contra o cartel nas licitações do trem e metrô de São Paulo e contra desvios de dinheiro público nesses contratos visando que essas cifras fossem investidas em transporte público, a gente poderia interpretar que esse pessoal também teria a boa-vontade de aproveitar a manifestação para levar às ruas toda sua indignação contra quaisquer outros indícios de falcatruas, certo? Não, errado. Na terça-feira, o Estadão publicou reportagem dando conta de que o mesmo cartel havido em São Paulo também teria agido em contratos firmados pelo Ministério das Cidades em licitações federais. Diz a matéria assinada por Bruno Ribeiro, Fausto Macedo e Marcelo Godoy (em vermelho):

O Ministério Público Federal (MPF) vê indícios de que o suposto esquema de cartel nas obras do Metrô de São Paulo tenha atuado também em licitações federais envolvendo a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU). A afirmação foi feita nesta segunda-feira, 12, pela procuradora da República em São Paulo Karen Louise Jeanette Kahn, responsável pela investigação do caso na área federal. Algumas da principais empresas investigadas no caso mantêm e mantiveram contratos com a estatal federal, vinculada ao Ministério das Cidades, desde 1998 até agora. “Há vários contratos (federais) também. Há possíveis outros cartéis em âmbito federal. Aqui estamos falando, via de regra, em cartéis estaduais com efeito na esfera federal, crime de evasão. Envolve recursos da União”, disse Karen.

Karen afirmou que apura em tese diversos delitos. Além do cartel, haveria corrupção internacional, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e “formação de quadrilha, eventualmente com enquadramento na nova lei de organizações criminosas”. Muitas empresas citadas aparecem em outras apurações do MPF, o que reforça as suspeitas da procuradora Karen. A procuradora não especificou quais licitações teriam sido fraudadas nem o período em que elas ocorreram – se envolveriam, por exemplo, os governos de Fernando Henrique Cardoso (1995 a 2002), de Luiz Inácio Lula da Silva (2003 a 2010) ou de Dilma Rousseff.

O Ministério das Cidades, órgão ao qual a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) está subordinada, informou ontem que vai investigar qualquer irregularidade que eventualmente venha a surgir por causa de investigações tocadas pelo Ministério Público Federal.

Houve alguma faixa pedindo “Fora Dilma” por causa disso? Não, não houve. Como poderia haver tal coisa numa manifestação organizada por PT e MPL, não é mesmo? Assim, pode-se chegar à conclusão que, para essa turma, cartel em São Paulo é sempre ruim; cartel no governo federal pode ser tolerado. Em nome de quê? Sei lá.

Suborno – Sim, a Siemens, empresa que denunciou o truste ao Cade, pagou propinas milionárias a governos espalhados pelo mundo todo visando a conquista de contratos. Para realizar a manutenção de equipamentos hospitalares e de trânsito na Rússia, a empresa pagou 56 milhões de dólares a funcionários do governo. Na China, o suborno foi de 60 milhões de dólares em licitações para fornecimento de equipamentos de telecomunicações. Em Israel, funcionários de uma estatal de energia foram agraciados com 20 milhões de dólares. Na Nigéria, dois ministros embolsaram 10 milhões de dólares. Na Venezuela, 20 milhões de dólares foram pagos para conseguir contrato de construção de linhas de metrô. Todas essas informações foram levantadas pela própria Siemens, por intermédio de uma nova política de compliance de alcance mundial.

No Brasil, no entanto, ainda não há evidências de que a empresa pagou propina a políticos ou funcionários públicos. Até o momento, não há nenhum documento que ateste tal prática. Sabemos, apenas, do escuso expediente de combinar preço com concorrentes. No que se sustenta, então, os cartazes de “Fora Alckmin”? “Ah, ele, como governador, deveria saber. Certamente o PSDB foi leniente e fez vistas grossas”, dizem muitos. Engraçado. O Cade, que é o órgão cuja atuação é justamente antitruste, não conseguiu, em todos esses anos, ver nenhum indício de falcatrua. NENHUM. Só vieram à luz tais fatos porque a Siemens optou por colocar a boca no trombone. Se o Cade legitimou as operações, como poderia o governo do estado adivinhar que as empresas estavam em conluio?

Ah, o Cade é subordinado ao Ministério da Justiça. Não nenhuma faixa “Fora Cardozo”.

FIASCO

PT ENGROSSA MANIFESTAÇÃO. COMO É CONTRA A OPOSIÇÃO, AGORA PODE

Nesta quarta-feira a rotina dos paulistanos pode novamente ser afetada pelos buliçosos do Movimento Passe Livre. Prometem fazer uma barulheira tremenda contra as recentes denúncias de cartel em licitação do metrô e da CPTM. Avolumam os quadros dos manifestantes gente do Sindicato dos Metroviários, do PSOL e PSTU. Até mesmo o PT, vítima das escaramuças do MPL, dá apoio ao ato.

O PT é mesmo uma coisa estupefaciente: quando as ruas tinham uma pauta de reivindicação difusa, tentaram se apropriar do alarido. Tomaram na cabeça! Depois que Dilma fez aquele pronunciamento desastroso em rede nacional – chamando, sim, para si, boa parte da responsabilidade de arrefecer os ânimos da turba – e a população pareceu não ter digerido muito bem a mensagem da presidente, caíram fora. Recorreram, inclusive, àquele expediente velho de guerra: jogar nas costas da “elite” e dos “reacionários” a força propulsora das ruas, cujo propósito, claro, seria destituir o único governo verdadeiramente pró-trabalhadores de nossa história recente. É de revirar o estômago, eu sei

Agora que o vozerio tem um foco, e este é contra o PSDB de São Paulo, os petistas, tão oportunos como sempre, servem-se da ocasião e apoiam a manifestação. Manifestação contra oposição não é coisa de “reacionários” nem da “elite”; é virtude pura.

Antes de prosseguir, é necessário visitarmos a gênese das denúncias de cartel. Trata-se de um caso emblemático de irresponsabilidade e politização de um órgão de governo. O Cade, fonte de todas as informações sobre o cartel, é presidido por Vinícius Marques de Carvalho, sobrinho de Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República e os olhos e ouvidos do Lula dentro do Planalto. A devoção com que Carvalho venera o ex-presidente não é segredo para os mais atentos. E por que cito isso? Simples: nunca antes na história deste país o Cade foi tão seletivo no vazamento de informações à imprensa. Os jornalistas, por sua vez, empolgados com o calhamaço de denúncias que lhes chegam às mãos, parecem ter jogado no lixo o bom e velho hábito de apurar.

“Ah, diz isso só porque o escândalo é contra tucanos”, podem dizer alguns. Uma ova! Não tenho coloração partidária quando o assunto é decência na gestão pública. Por sinal, quem me acha tucano não me conhece mesmo. Esse papinho de socialdemocracia não me convence. Muito centro-esquerda pro meu gosto. Sou de direita, oras!

Adiante.

As investigações conduzidas pelo órgão são sigilosas. Todas informações dadas pela Siemens, nessa espécie de delação premiada, não podem ser acessadas pelo governo de São Paulo. O que justifica o sigilo? Não sei! A situação é de tal sorte absurda que quem é acusado não tem como se defender, pois, atenção, NÃO SABE OFICIALMENTE DO QUE ESTÁ SENDO ACUSADO. E aqui abro um parêntese: a Siemens tem contratos bilionários firmados com o governo federal. Mais: o Cade informa que a investigação de formação de cartéis não se restringe apenas a São Paulo. Daí torna-se inevitável fazer algumas rasas lucubrações: se a multinacional alemã também presta serviços ao governo federal, teria a empresa aderido a cartéis apenas no estado de São Paulo?; então no âmbito federal todos os contratos são pura lisura?; se o Cade investiga cartel em outros lugares do país, porque só vazam informações contra o governo de São Paulo? Fecho o parêntese.

Quero fazer algumas provocações, na contramão do consenso. Folha, Estadão e TV Globo parecem ter caído num embuste: o de que a imprensa, depois de ter coberto à exaustão os inúmeros escarcéus do PT, tem agora a obrigação de estampar em suas primeiras páginas ou anunciar na escalada em letras garrafais e tom professoral o escândalo em gestões tucanas também, ainda que as denúncias sejam genéricas e tão profundas quanto um pires; do contrário, não seria uma imprensa verdadeiramente independente. Há vileza no caso Siemens? Que os envolvidos sejam julgados e enviados à cadeia. Mas vamos a uma reflexão sobre fatos:

1-    Um ex-diretor da Siemens, em e-mail, não deixou dúvidas de que a empresa perdeu a concorrência para a CAF e, por causa disso, entraria na Justiça. Assim o fez;
2-    no mesmo e-mail, esse diretor afirma que o então governador José Serra cancelaria a licitação caso a Siemens vencesse – o que seria louvável, pois os valores cobrados pela multinacional alemã eram R$ 200 milhões mais caro;
3-    o diretor também sustenta que o tucano teria sugerido às empresas que entrassem em um acordo, e que 30% do contrato vencido pela CAF fossem repassados à Siemens;
4-    o ex-governador nega que tenha sugerido o acordo. Em seu favor, o que há?

A vencedora da licitação foi a CAF. Bom para os cofres públicos, que economizaram R$ 200 milhões. Não houve divisão dos 30% do contrato. A Siemens foi à Justiça contra o governo do estado. Perdeu no STJ. Inconformada, a empresa entrou com recursos administrativos, que foram negados.

O que se conclui disso? Simples: a investigação do Cade é CONTRA formação de cartel. No caso acima, houve um ANTICARTEL. Perceberam? Mais: todas as afirmações usadas para embasar a denúncia foram extraídas de um e-mail – como sabemos, num e-mail qualquer pessoa escreve o que bem lhe der na telha –; e, na realidade, à luz das evidência e dos fatos, essas mesmas afirmações demonstram-se improcedentes. Mas o que fez a Folha de São Paulo? Estampou em sua capa: “Serra sugeriu que Siemens fizesse acordo”, diz e-mail. E o que o jornal escreveu no 10º parágrafo da reportagem? “Os documentos examinados pela Folha não contêm indícios de que Serra tenha cometido irregularidades, mas sugerem que o governo estadual acompanhou de perto as negociações entre a Siemens e suas concorrentes”. É ou não é um escárnio? O jornal deu a reportagem principal do dia a algo que a própria Folha admite não ter ocorrido.

Esse mesmo jornalismo às avessas tem sido praticado em todos os demais episódios desse imbróglio. Contra os fatos e mandando às favas evidências cristalinas, repórteres escrevem as maiores enormidades. Documentos que chegam às mãos de jornalistas devem servir de PONTO DE PARTIDA para a feitura de uma reportagem investigativa. Infelizmente, o que temos visto é que tais vazamentos têm sido um fim em si mesmo, por mais absurdos que possam ser os episódios que levantam.

Este é apenas um caso entre tantos outros neste episódio do suposto cartel. Pincei um, mas trarei outros à baila. É inadmissível, por exemplo, o que estão fazendo com o vereador Andrea Matarazzo, também do PSDB. Ainda voltarei a esse assunto.

É contra isso que o MPL irá berrar amanhã: contra não-fatos, contra anticartel, contra uma economia de R$ 200 milhões aos cofres públicos…

Claro, haverá gente achando tudo muito lindo.

PS – Nas primeiras manifestações, o MPL disse que só pararia de ir às ruas se a tarifa baixasse. E agora, vão parar quando, se a premissa pela qual vão à praça não sobrevive a uma análise?

PT ENGROSSA MANIFESTAÇÃO. COMO É CONTRA A OPOSIÇÃO, AGORA PODE

SABEM QUAIS FORAM AS GRANDES CONQUISTAS DAS RUAS ATÉ AGORA? NENHUMA!

Não há um miserável ganho para o País provido das manifestações de rua. Temos pessoas feridas – civis e militares –, comerciantes que perderam praticamente tudo em razão das depredações, jornalistas agredidos, carros de emissoras de tv incendiados, patrimônio público dilapidado e prejuízos importantes advindos do travamento de ruas e avenidas. Soma-se a essa lista a proeminência que ganharam grupos que flertam abertamente com o terror como arma para chamar a atenção para si. Os tais Black Bocs, em nenhum outro momento da história recente, sentiram-se tão à vontade para legitimar suas práticas abomináveis. Frente tudo isso, ainda há quem comemore o fato de os buliçosos sequestrarem as ruas. “Alguém tinha de fazer alguma coisa, pois tudo-isso-que-está-aí é inadmissível”, justificam os pueris. Grande coisa! De nada adianta fazer algo se o que se faz é errado e equivocado.

A PEC 37, que limitava o poder de investigação do Ministério Público, foi sepultada pelo Congresso Nacional. Sim, é verdade que a pauta também inflamou as massas, que passaram a chamar a o projeto de PEC da Impunidade. Não, não reconheço a derrubada do projeto como mérito das manifestações. Qualquer um que conheça minimamente o Congresso sabe muito bem que a PEC não seria aprovada, independentemente de a turba estar ou não em alvoroço. Se passasse, o Supremo Tribunal Federal fatalmente a declararia inconstitucional. Não há mérito dos barulhentos nessa causa.

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou o fim do voto secreto nas sessões das duas Casas, medida populista que vai DE (não AO) encontro aos interesses da população. Movidos por um impulso populista, os nobre senadores esqueceram-se de que o mecanismo serve para proteger deputados e senadores da perseguição do governo. Imaginem um congressista, que votou contra um projeto do Executivo indo com seu chapeuzinho pedir uma verbinha para seu município ou estado. Pensem no tipo de patrulha oficial que um senador pode sofrer se rejeitar a indicação de um ministro para tribunais superiores. Os idiotas louvaram a medida. Eu a repudio. Voto secreto bom é só em caso de cassação de mandatos. Só! Nada mais.

Corrupção virou crime hediondo. Mais uma resposta destrambelhada à rouquidão das ruas. Então quer dizer que um crime contra a administração pública agora está na mesma categoria de latrocínio, estupro, tortura, tráfico, homicídio, crime de genocídio? Ah, façam-me um favor. Não me peçam para aplaudir um troço desses. Atenção: corrupção já é crime e já há leis que punem essas práticas. No Brasil, no entanto, temos essa jabuticaba: se uma lei não é cumprida, que se crie uma lei ainda mais rigorosa contra o mesmo crime. É uma piada. O problema do Brasil não é falta de leis: é pôr as que já existem em prática.

Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, bem como vários prefeitos, reviram o aumento das passagens, com o sacrifício dos investimentos. Da boca de muitos tolinhos ouvimos aqueles argumentos risíveis: como pode aumentar a tarifa se os serviços são uma porcaria? Sim, é verdade, o transporte público está longe de ser perfeito. Mas desde quando se tem MAIS qualidade com MENOS dinheiro? Isso ninguém explica. Se o preço da passagem ficar congelado em R$3,00 pelos próximos quatro anos, o custo do subsídio somará R$ 8,6 bilhões. Só neste ano, subirá de R$ 1,25 bi a R$ 1,425 bi.

Chamem a claque, chamem. Não contem comigo.

SABEM QUAIS FORAM AS GRANDES CONQUISTAS DAS RUAS ATÉ AGORA? NENHUMA!

JUSTIFICANDO O INJUSTIFICÁVEL

O momento político por que atravessamos tem servido para descortinar opiniões estarrecedoras. O Estadão de ontem ouviu dois especialistas para tratar sobre as manifestações que movimento Black Bloc articula por todo o País.

Um dos entrevistados é Rafael Alcapipani Silveira, coordenador de pesquisas organizacionais da Fundação Getúlio Vargas. Disse ele: “Muitos dos jovens que estão usando essa estratégia de violência nas manifestações vieram das periferias brasileiras. Eles já são vítimas da violência cotidiana por parte do Estado e, por isso, os protestos violentos passam a fazer sentido para ele”. Eis aí uma ponto de vista propalado na academia, por cabeças pensantes, que estão por aí dando aulas e formando opiniões.

Não é uma pérola? Primeiro, vamos tratar de uma escancarada mentira: quem está indo às ruas não são os pobres, é a classe média. Não tenho dados estatísticos à mão que tracem o perfil dos manifestantes. Tenho somente a imagem em minha retina do que presenciei em três protestos aos quais compareci. Sim, meus caros, quando falo do assunto, não emito “opiniões de gabinete”; falo com base no que vi de perto. Vou tratar dessas experiências em um outro post, pois há aspectos que merecem dedicada atenção.

Pablo Ortellado, filósofo, também deu seus pitacos. “Depois de Seattle, os movimentos sociais passaram a aceitar a violência como uma das estratégias políticas e a debater abertamente a questão”, sustentou.

A opinião de ambos serve como um dos comburentes às badernas que varrem o Brasil. Impressionante é que o jornal, em nenhum momento, contrapôs as consequências desses pontos de vista caso sejam adotados como consenso pelas ruas. A reportagem completa está aqui. Quando Ortellado afirma que o uso da violência pode ser justificado de acordo com a necessidade, notem que o repórter não o inquire a descortinar sua subjetividade – afinal de contas, “necessidade” é muito relativo. Levando ao pé da letra tais argumentos, pode-se justificar o injustificável

Vamos aos fatos: Alcapipani não lista quais são as tais violências que o Estado impinge aos moradores da periferia. Ele deixa a questão no ar, e, claro, o espírito de demagogia se encarrega de conduzir os mais distraídos às conclusões populistas: ônibus lotados é uma violência, assim como são os postos de saúde em frangalhos, a falta de segurança etc. Então ficamos combinados assim: se há gargalos de gestão pública, a gente responde na base da porrada, esse expediente civilizado. Afinal de contas, como sabemos, as maiores democracias do mundo e os países de primeiro mundo fizeram do vandalismo seu baluarte de sustentação. Um conhecido, certo dia, foi vítima de uma tentativa de assalto. Revoltado, achou-se no direito de ir à Paulista apedrejar bancos. Confrontei-o com algumas lógicas da democracia. Ele esqueceu seu intento e preferiu ir tomar um café com a namorada.

É patente que carecemos de muitas melhorias. Já deixei isso claro no post anterior. Mas não podemos nos deixar levar pelos impulsos da massa anencéfala e sair por aí com o dedo em riste, berrando contra tudo-isso-que-está-aí Atemo-nos à realidade de São Paulo: somos o estado que mais prende criminosos no País, a cidade de São Paulo é a capital menos violenta dentre as 27, o estado é o quarto colocado no ranking nacional do Ideb (5,6) – atrás do Distrito Federal (5,7), Santa Catarina (5,8) e Minas Gerais (5,9). –, o melhor metrô do Brasil é o de São Paulo… Não estou dizendo que vivemos as mil maravilhas do mundo. Mas há de se reconhecer que avançamos em muitos aspectos. Quem vai às ruas, no entanto, parece reivindicar, via quebra-quebra, a reinvenção do Brasil.

Se puderem, busquem as páginas dos Black Blocs no Facebook. Os bravos guerrilheiros agendaram para o dia 7 de setembro “a maior manifestação da história do Brasil”. Há até quem defenda a invasão do Congresso Nacional e o enforcamento de deputados e senadores. Mesmo com tudo sinalizando o inferno que será esse dia, sabemos que qualquer ação das polícias visando coibir depredações serão tidas como arbitrárias. Evitar e reprimir os crimes cometidos por vândalos virou um estigma. Mais uma contribuição gestada no útero das massas.

JUSTIFICANDO O INJUSTIFICÁVEL

PORQUE GOSTO DA DEMOCRACIA, DIGO NÃO ÀS MANIFESTAÇÕES

Um grupo de vândalos tentou invadir a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) na última sexta-feira. Desde ontem, acampam em frente ao Palácio dos Bandeirantes. Vocês sabem como andam nossos dias: basta que meia dúzia se reúna para reivindicar qualquer coisa e resolva travar a cidade, mandando às favas o direito constitucional de ir e vir de quem optou por não se manifestar por nada, que já ganham aplausos aquiescentes. Velhos babões, aos montes, esbanjam ânimo: “Jamais pensei que esses jovens iriam às ruas como vão hoje”, disse dias desses um graúdo empresário a mim. Voz das ruas, recado dos jovens, primavera brasileira, gigante acordou, enfim, essa coleção de clichês aboletada numa espécie de mal estar da nossa democracia impulsiona esses movimentos, conferindo-lhes especiais estima e legitimidade.

Não, meus caros. Não estou com essa gente. Sou desses que sempre desconfia de multidões. Qualquer pessoa que já mergulhou no livro Psicologia das Massas e Análise do Eu¸ do Freud, há de concordar comigo que coletividades são ameaçadoras, capazes de tudo. Tudo mesmo! O limite para seus intentos é o céu. Como vivemos numa democracia, a lei e a ordem definem até onde o povo é soberano. É simples de entender.

Logo no início dos protestos, um monte de amigos, alguns bem intencionados até, me indagaram o porquê de eu não aderir ao clamor das ruas. Como o PT está na mira das manifestações, uma porção de gente pensou que me deixaria embalar pelo coro dos descontentes. Não, não me deixei. Nem tudo que está contra o PT necessariamente me agrada. Não gosto do PT por seu autoritarismo, por seus métodos escusos de solapar a democracia e subjugar as instituições. Se, no entanto, as forças que emergirem se propõem a combater o PT por métodos que, no final, acabarão resultando em menos democracia e minando as instituições de sua legitimidade, coloco-as logo lado a lado de quem pretendem guerrear. Sim, queridos: se o que quer essa multidão (esses “jovens”, como uns babões estão adorando dizer) vier a ser implementado, assistiremos à democracia indo pra lama.

Eu não sou sociólogo nem cientista político. Sou um implacável seguidor da lógica. Só ela me orienta e ilumina minhas convicções. Eu sou eu e minhas ideias. Meu farol de Alexandria é minha consciência. E é com base nesses pressupostos que arrisco dar contornos aos fatos que estão ocorrendo no País. Preparem-se, este texto será longo.

É óbvio que entre as reivindicações das ruas muitas são honestas e procedentes. As expressões de descontentamento “contra tudo o que está aí” (toda vez que algum pseudoengajadinho me diz esse mantra, sinto uma preguiça aguda) podem ser levadas a quem de direito. A forma como o fazem, no entanto, pode contribuir para que o verniz supostamente democrático dessas vindicações se desfaça. O PT se tornou um dos principais alvos dos protestos. Dilma Rousseff, dos píncaros de seus 63% de aprovação do governo em março, despencou para 31%. Entretanto, não admito que manifestantes recorram a práticas que, se transformadas em norte político e moral, levariam o País ao brejo institucional e ao vácuo democrático – males maiores dos que se propuseram a combater.

Assistimos nas ruas, durante o mês de junho barulhento, a cartazes pedindo o fim dos partidos políticos. Esse anseio encontrou eco em muitas cabeças-de-vento. Não há como fazer política sem…política, da mesma forma que não há democracia sem representatividade – e esse papel cabe aos…partidos políticos. Isso justifica a razão de Marina Silva ter sido a grande beneficiada de toda essa barafunda. A sonhática (que coisa mais ridícula!) se diz, com a pompa da realeza, não pertencente a nenhum partido. Sua Rede estaria fora do campo gravitacional em torno do qual giram todas as demais agremiações políticas. E há quem caia de amores por esse discurso.

Sim, eu quero o PT fora do poder. Se vocês recorrerem aos arquivos deste blog, encontrarão uma fartura de posts que justificam essa minha posição. Só que, vejam como sou exótico, quero apear o PT do governo via urnas, via voto. Não quero – nem admito – quaisquer tentativas de golpes. Goste-se ou não, Dilma governa porque foi eleita, obedecendo todos os ritos democráticos previstos em lei. Se Dilma – ou Sérgio Cabral, ou Geraldo Alckmin, ou o prefeito de Arceburgo… – tiverem de cair fora, que sejam por esses valores.

O problema é que os manifestantes ignoram solenemente esses princípios. Eu tenho horror a minorias que querem impor sua vontade à maioria. Sempre vi com muita desconfiança ondas de coletivismos. Rogam para si uma legitimidade que ninguém lhes conferiu e, com isso, acham-se acima da ordem. Por que digo isso? Simples: desde junho, a Avenida Paulista foi travada por manifestantes inúmeras vezes. Dizem-se pacíficos. Mas não são. O que há de pacífico interromper abruptamente o direito de ir e vir da maioria? Como se julgam os portadores do bem, acham razoável que suas vontades sejam impostas aos demais. Eles acreditam Alckmin tem de ser deposto. Logo, tomam as ruas,  impedem motoristas de trafegar e, por que não?, pensam ser justo tomar a Assembleia Legislativa à base da força. Houve gente que só faltou ter orgasmos quando um bando de delinqüentes subiu ao teto do Congresso Nacional, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Não, meus caros, não é. “Mas são pacíficos”, dizem uns. O escambau! “Invasão” e “pacificidade” são termos que não se conjuminam.  

Pacíficos uma ova – O Datafolha realizou uma pesquisa para apurar o grau de aprovação às manifestações. 66% dos paulistanos são favoráveis; 34%, contra. Ora, isso também aprovo, até porque não tenho vocação pra ditador. Quando os protestos passam a atrapalhar a vida de quem optou por não se manifestar por nada, aí sou contra. 78% acham justa a ocupação da Paulista. Eu não acho. Dou, nesse caso, de ombros à maioria. Não é porque a maioria gosta e aprova que signifique que obnubilar o direito de ir e vir das pessoas é legítimo. Pensem no pandemônio que viraria a cidade se todo mundo com uma reivindicação embaixo do braço resolvesse tomar a Paulista. A praça é do povo como o céu é do condor, bem sei. Então que se faça esses protestos no Vale do Anhangabaú, por exemplo. Por que não marcam manifestações na Jacu Pêssego? Simples: porque esses valentes querem, sim, impor sua vontade a todo mundo.

“Ah, mas a maioria é de bem e não quer confusão”, dizem uns cândidos. Pode até ser verdade. Só que temos de levar em consideração os sentimentos que se arregimentam quando fazemos determinadas vindicações. Mais: nunca vi tantas manifestações infiltradas por vândalos. Tanto que vandalismo, em certa altura do campeonato, virou novilíngua: passou a ser manifestações pacíficas infiltradas por vândalos. “Os quebra-quebras são exceções”, dizem muitos. Nunca vi tanta exceção se repetir como se regra fosse. Mais: pesquisa encomendada pela TV Globo feita com participantes de manifestação e exibida no Fantástico recentemente traz um dado alarmante: 5% dos que engrossam o caldo desses protestos acham que depredações são válidas; 28% as interpretam como justificadas em alguns casos. Vamos à frieza cáustica dos números: 33% dos “pacíficos”, portanto, têm pré-disposição para sair por aí arrebentando lojas bancárias, depredando patrimônio público, promovendo cenas de violência pelas cidades. É pouca gente? Não, não é. Significa que se uma passeata reunir 100 mil pessoas na Paulista, 33 mil delas acham justo recorrer a métodos pouco republicanos para expressar seu descontentamento.

A Globo mostrou esse dado com a mesma naturalidade que se descortina a preferência do povo por chuchu ou abobrinha. Como o jornalismo anda em crise, não ocorreu ao repórter e ao editor fazer uma regra de três simples. Houve manifestações no Rio de Janeiro cujo público fora, segundo a Polícia Militar, de meio milhão de pessoas. Por que a Globo não disse que, perante os resultados de sua própria pesquisa, 165 mil pessoas, no mínimo, eram vândalos em potencial? Nadica!

A satanização das polícias – Para complicar, teve início o processo de demonização das Polícias Militares País afora. Ações legítimas de policiais passaram a ser encaradas como repressão, barbárie. Jovenzinhos idiotas e descolados quiseram logo brincar de um passado que desconhecem – ah, os livros, que falta fazem a muitos! – e nunca viveram a fim de evocar a sombra da ditadura. Disseram-se reprimidos. Tadinhos! Não se pode nem mais sair por aí travando uma cidade e quebrando tudo que se vê pela frente que a PM vem coibir, não é mesmo?

A fenda dessa retórica teve início em 13 de junho, em São Paulo. Os protestantes haviam firmado um acordo com a PM de não tomar a Paulista. Mas quê… Desobedeceram flagrantemente o compromisso assumido. Às 19h08, policiais pediram aos manifestantes que não subissem a Consolação rumo à Paulista. Os valentes deram de ombros e enfrentaram o cordão de isolamento da polícia. Ora, se é CORDÃO DE ISOLAMENTO, é pra não ser passado, certo? Teve aí o início da confusão, que foi maior desde o início dos protestos. Nota à margem: em nenhuma democracia do mundo a polícia fica quieta quando apanha. Por aqui, o povo acha lindo ver um agente da ordem levando paulada sem reagir. Adiante. Pipocaram cenas de policiais militares agredindo pessoas. Jornalistas feridos passaram a ser exibidos aos montes em milhares de sites.

Se houve abusos por parte da polícia, que sejam investigados e os culpados punidos. Ponto. Isso não significa que a PM, a partir de então, tivesse de ficar acossada pela patrulhae, consequentemente, constrangida de cumprir o papel que a lei lhe faculta. Os baderneiros passaram a contar com salvo-conduto da opinião pública e da imprensa para fazer o que bem lhes derem no juízo. As ruas foram seqüestradas. O direito de ir e vir foi cassado. Aos policiais restaram apenas acompanhar os manifestantes. Qualquer bomba de gás lacrimogêneo para reprimir ações de vandalismo passou a ser arrostada como abuso policial. A gritaria superabundou o imperativo da democracia. Pior: sob os aplausos de muitos.

Semanas depois, no Rio de Janeiro, assistiu-se a verdadeiras ações de terrorismo contra o patrimônio histórico, quando a sede da Alerj foi depredada. Um policial foi violentamente espancado. Seu sangue banhou as calçadas do centro. Seu drama não foi destaque, no dia seguinte, em nenhum telejornal. Não vi nas redes sociais indignação contra tamanha truculência. Já em favor dos baderneiros, bem, creio ser desnecessário mencionar os gracejos havidos.

“É por direitos” – O discurso catalisador que sequestrou psiquicamente as massas veio do Movimento Passe Livre. Mobilizaram-se contra os R$ 0,20 de aumento nas tarifas de ônibus e metrô e foram às ruas. Reuniram, no início, alguns gatos pingados. É possível que a iniciativa tenha sido o agente hegeliano do processo, pra remeter um tiquinho ao livro A filosofia da história, de Hegel. Nesta obra, o filósofo diz-se estar consciente de que as forças da sociedade se inserem nas ações de líderes, a fim de realizar seus propósitos inconscientes. Hegel afirma que Júlio César derrotou seus inimigos e destruiu a Constituição de Roma visando uma posição de supremacia, é verdade; no entanto, o que o torna uma figura importante para história é que ele fez o necessário para unificar o Império Romano, e o autoritarismo era o único caminho para isso. “Assim, não foi apenas seu interesse pessoal, e sim um impulso inconsciente, que ocasionou a realização daquilo cujo momento havia chegado”, escreveu o filósofo.

Colocar Hegel e MPL num mesmo parágrafo soa mal, eu sei. Mas recorrer à teoria é um caminho para explicar momentos e momentos. Em nenhum momento, até o arborescer dos grandes protestos, os líderes do movimento expuseram descontentamento contra as condições adversas do País em questões como educação, saúde e segurança. Sua pauta era, sim, única: contra os R$ 0,20. Se não baixassem as tarifas, São Paulo iria parar, de acordo com eles. “Os 20 centavos eram a gota d’água que faltavam para a explosão da indignação geral”, muitos constaram. Estava, então dada a senha para a materialização de uma máxima do interior: cada enxadada, uma minhoca. “Não é por R$ 0,20; é por direitos”, muitos emplacaram.

É claro o Brasil é violento. Os 50 mil homicídios ocorridos anualmente são a prova disso. Os hospitais públicos padecem de médicos e equipamentos. Nossas escolas, adeptas de Paulo Freire — cujos métodos de ensino abomino – e do besteirol do Construtivismo, não conseguem ensinar os alunos a destrincharem os objetos diretos do Hino Nacional. A claque política continua vivendo num paraíso paralelo, desconectada da realidade dos brasileiros e ensimesmada com seus próprios interesses. São, sim, reais e legítimos o combustível das reivindicações.  Há razões às dezenas para protestar, mas o clima criado para a realização das manifestações advém de tensões artificiais. Querem a prova? Comparem a quantidade de presentes aos protestos antes do dia 13 de junho e depois. A ação mais firme da PM de São Paulo somada à capacidade que as mentiras têm de ganhar corpo nas redes sociais confluiu para a criação uma espécie de mal estar geral. A partir daí, corolários equivocados foram alçados à condição de verdades imperativas.

Os manifestantes são pacíficos. Os casos de vandalismo são exceções.
Depredar é feio, mas fazer da cidade um território livre à ocupação é bonito.
Aqueles que impedem o acesso aos 16 hospitais da região da Paulista são democratas.
Os jovens estão mudando o Brasil. Eventuais vandalismos são efeitos colaterais. Só.
O importante é ir pra rua gritar. Contra o que? Qualquer coisa! O importante é berrar.
Não importa se os métodos são errados. Pelo menos alguém está fazendo algo.
Qualquer ação da polícia é repressão.

Dilma ouviu a voz das ruas. E no que deu? – A presidente Dilma resolveu dar aquela afagada na cabeça das ruas. Quebrou a cara, e várias vezes. A primeira proposta do Planalto foi uma constituinte exclusiva para a reforma política, algo escandalosamente autoritário e inconstitucional. Hugo Chavez recorreu a esse expediente na Venezuela para atrair para si todos os poderes. Até mesmo o vice-presidente da República, Michel Temer, veio a público dizer que o projeto era inviável. O PT é mesmo muito engraçado: essa gente está há 10 anos no poder; e só agora tiveram esse surto de boa vontade para fazer a reforma política. Foi uma tentativa natimorta. Dilma viu-se obrigada a voltar atrás.

Um investimento de R$ 50 bilhões em mobilidade urbana também foi prometido, bem como a destinação total dos royalties do pré-sal – que nem sequer existem ainda – à educação. Como executar essas cifras é o grande mistério. Números oficiais do governo mostram o abismo que há entre orçamento autorizado e recursos efetivamente aplicados. Dos R$ 50,6 bilhões prometidos para a saúde, apenas 39,6% foram executados; em saneamento, 48,6% dos R$ 16,7 bilhões; na educação, 61,3% dos R$ 53,3 bilhões; em transportes, 60,5% dos R$ 118,5 bilhões. Se o governo mal dá conta de investir o que tem, de que adianta anunciar mais recursos para isso ou aquilo? Mais: quem disse que o problema da educação é de financiamento? É, sim, de falta de gestão adequada de recursos. O resto é conversa pra boi dormir.

O Mais Médicos, programa que impingia a todos os estudantes de medicina o exercício do ofício em hospitais públicos para poderem ter diploma sob o argumento de que o sistema público de saúde carece de médicos, também foi por água abaixo. De um autoritarismo tremendo, o precedente que se abriria seria um perigo. Se amanhã os engenheiros em obras do PAC se tornarem escassos, o governo vai obrigar estudantes de engenharia a serem “engenheiros públicos”? Se faltarem professores, os estudantes de magistério terão de dar aulas compulsoriamente nas escolas do Estado? Se dentistas se tornarem raro no Amazonas, os formandos em Odontologia serão enviados às comunidades ribeirinhas, do contrário, não têm diploma?

Perceberam? No afã de dar resposta aos anseios das ruas, o governo pôs em xeque a Constituição, a liberdade individual, o apreço pelas instituições e, por conseguinte, a própria essência da democracia. É claro que não se pode culpar o povo pelas respostas desastradas que Dilma deu. As pessoas levam à praça suas reivindicações. Ponto. O PT, ruim de governo, é que tem de ser questionado pela desgraça de suas réplicas.

Concluindo – Fosse o Brasil um País com partidos políticos sólidos, que não servissem apenas como moeda de troca para tempo de propaganda partidária e alimento ao deplorável sistema de presidencialismo de coalizão, talvez tantas insatisfações represadas teriam sido captadas antes de eclodir todas essas manifestações. Boa parte de quem está nas ruas tem como referência de governo apenas os 10 anos do PT e tudo o que de ruim fizeram ao Brasil. O avanço social cantado em prosa e verso pela dupla Lula-Dilma perdeu o fôlego. As pessoas não querem mais apenas a TV de 42 polegadas, o notebook comprado a longas prestações e o iogurte na geladeira, igualmente financiada. Esses novos menos pobres querem qualidade fora de casa também: escolas boas, hospitais decentes e sentirem-se seguras. 

Demorou pro povo ir pras ruas porque durante muito tempo o PT teve o monopólio da praça. O partido deu dinheiro a ONGs, à UNE, ao MST, às centrais sindicais – ou seja, a todas as franjas capazes de mobilizar multidões. Num passado não muito distante, as pessoas foram às ruas para protestar contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, as privatizações, o Fundef e o Plano Real. Por trás das manifestações estava o PT, que arrebanhava multidões. Pergunto: a LRF não era boa? Não era igualmente benéficos o Fundef, o Plano Real e as privatizações? Sim, eram todos bons e deram inestimáveis contribuições ao Brasil. Mas e  daí? A turma engoliu as abobrinhas do PT e, bovinamente, foi protestar.

O momento do País serve para atestar a inapetência das oposições, que foram incapazes de detectar tantas reclamações reprimidas. Mas fazer o quê, não é mesmo? No Brasil, partidos de oposição sentem-se constrangidos de criticar, botar o dedo na ferida e representar o eleitor de…oposição.  Tanto que Marina Silva, virtual candidata à Presidência da República, foi a que mais ganhou com isso. Se Marina Silva foi a grande beneficiada, em boa coisa não vai acabar.

Assim, meus caros, como gosto da democracia, digo não às manifestações tal qual estão ocorrendo. O direito de tomar a praça e de se expressar é livre. Pena que essa liberdade tem sido usada para depredar patrimônio público e privado, censurar jornalistas, atacar agentes da ordem, impedir o sagrado de direito de ir e vir, invadir prédios públicos, promover bagunça, fazer apologia ao fim da representação política, desvirtuar a democracia, criar falsas tensões…

PORQUE GOSTO DA DEMOCRACIA, DIGO NÃO ÀS MANIFESTAÇÕES