O cúmulo da ingenuidade: acreditar no fim da corrupção

A ampla maioria das pessoas que tenta desqualificar as manifestações contra o governo recorre à desculpa que os manifestantes dão por estarem nas ruas: todos querem o fim da corrupção.

Isso é de uma ingenuidade supina, obviamente. Não que o desejo não seja legítimo. Quem de nós não quer um mundo justo, belo e perfumado, não é mesmo? Ocorre que, para que isso se viabilize, o Estado brasileiro teria de ser refundado. Missão impossível, claro. Depois de mais de meio milênio de patrimonialismo (leiam Os Donos do Poder, de Raymond Faoro; é leitura obrigatória a quem quer entender o Brasil), acreditar que um simples impeachment resolve tudo é um brinde à asnice.

A corrupção sempre existiu. Antecedeu Dilma, Lula, FHC, Itamar, Collor, a ditadura.. O PT foi — e é — o partido mais criticado por dois grandes motivos.

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O cúmulo da ingenuidade: acreditar no fim da corrupção

UM COQUETEL DE ASNEIRAS. É UM FILME DO TERRENCE MALICK? NÃO; É UMA COMPOSIÇÃO ERUDITA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA? NÃO; É UMA NOVA RECEITA GOURMETIZADA À PAULISTANA? NÃO! É UMA RESOLUÇÃO DO PT!

O PT divulgou nesta terça-feira (10) resolução política oriunda da comemoração dos 35 anos do partido. Pois é, meu caro leitor, mesmo com o petrolão, mesmo com a insatisfação popular atingindo o apogeu (e a pesquisa Datafolha veio apenas confirmar essa sensação de mal-estar, não revelando nada novo, a não ser o fato de o abismo de Dilma ser mais fundo do que o que se esperava) e mesmo com o clima bélico entre o governo e sua base, o partido achou conveniente celebrar mais um aniversário, como se o País estive todo pintado de tons róseos. “Ah, então não podiam?” Poder, podiam; mas, né…

A turba petista sempre se demonstrou descolada da realidade. Quando eram oposição, não ajustaram a sintonia para convergir para o bem do Brasil. Não homologaram a Constituição de 88, vociferaram contra as privatizações de Fernando Henrique Cardoso, não endossaram o Plano Real (o atual ministro-chefe da Casa Civil, Aloízio Mercadante, foi um dos expoentes do movimento do contra), não apoiaram o programa que deu fôlego às instituições financeiras continuarem operando em um cenário nada alvissareiro…

Mas divago.

Vergonha alheia. Este é o sentimento que me assalta a cada parágrafo que leio da tal resolução. Pelo documento, há, no Brasil, um grupo de pessoas que querem destruir o País, flertam com o golpe e visam à ruína da Petrobras. Diz a estrovenga: “[Temos de] condenar a ofensiva e denunciar as tentativas daqueles que investem contra a Petrobrás, pois, a pretexto de denunciar a corrupção que sempre combatemos, pretendem, na verdade, revogar o regime de partilha no pré-sal, destruir a política de conteúdo nacional e, inclusive, privatizar a empresa. É nosso dever fortalecer a Petrobrás e valorizar seus trabalhadores. É nossa tarefa também defender a democracia e as conquistas do povo, denunciar as tentativas de desqualificar a atividade política e de criminalizar o PT.”

Entenderam? Quem quer destruir a Petrobras, sob essa ótica, é o juiz Sérgio Moro, é o procurador geral da República, é a Polícia Federal, somos nós, que vibramos de alegria e alívio quando um vagabundo assaltante da coisa pública vai em cana. Já os petistas apaniguados na estatal, os indicados do partido para as diretorias envolvidas no escarcéu e os empresários amicíssimos de Lula arrolados na investigação são verdadeiro altruístas, que batalham pelo bem da empresa e por seu fortalecimento. Faça-me um favor! A resolução chega ao cúmulo de dizer que o anseio por privatizar a Petrobras é alinhado à vontade de aniquila-la. Estão enganados! Privatizar a joça petrolífera é o desejo de quem almeja salvá-la do desastre.

A vontade de rir vem quando chegamos ao parágrafo seguinte. “[Temos de] reafirmar o posicionamento adotado em Fortaleza em dezembro último, de apoiar as investigações em curso sobre a corrupção na Petrobrás e exigir que elas sejam conduzidas rigorosamente dentro dos marcos legais e não se prestem a ser instrumentalizadas, de forma fraudulenta, por objetivos partidários. O PT reafirma a disposição firme e inabalável de apoiar o combate à corrupção. Qualquer filiado que tiver, de forma comprovada, participado de corrupção, deve ser expulso.” Só faltou uma assinatura de José Genoíno e outra de José Dirceu logo na sequência, não é mesmo? Ah, sim: ambos os Josés não foram expulsos do PT, ainda que tenham sido condenados à prisão pela mais alta corte judiciária do País.

Um dos parágrafos mais espantosos afirma: “[É preciso] conclamar a militância a contribuir para a criação de uma articulação permanente de partidos, organizações, entidades – uma força política capaz de ampliar nossa governabilidade para além do Parlamento e de criar condições para realizar reformas estruturais no País. Reforçar as campanhas pela reforma política e pela democratização da mídia.”

Qualquer pessoa que leu Antonio Gramsci é capaz de identificar a sombra de um ente de razão pairando sobre os devaneios petistas. Ora, governabilidade se tem no âmbito de… governo! Quaisquer fenômenos paralelos a isso levados à sociedade não tem outro objetivo senão, como diria o próprio Gramsci, subverter todo o sistema de relações intelectuais e morais. E qual a referência para essa subversão? Bem, se o que os valentes querem é a “governabilidade”, nada mais razoável que a referência seja o… governo! E como este está tomado de assalto por um partido com um projeto de poder, logo se conclui que a força motriz do intento são os desígnio do…PT! E eles querem essa governabilidade extra governo para quê? Eis o pulo do gato: para a reforma política e o controle da imprensa. Para a primeira diretriz, o partido quer o voto em lista fechada e acabar com o financiamento empresarial de campanhas, deixando apenas o público. Ou seja, uma bela de uma tungada no bolso do contribuinte. Na segunda, querem acabar com imaginários oligopólios de mídia e propriedade cruzadas de veículos de imprensa. Puro besteirol. Mas sobre isso falo em um futuro post.

E a resolução se encerra festejando a vitória de Evo Morales nas eleições bolivianas, saudando o governo de esquerda recém-eleito na Grécia — que tem tudo para afundar o país — e o povo cubano, que, “por sua resistência, começa a quebrar o bloqueio imposto durante décadas pelo imperialismo”.

É tanta asneira junta que dá preguiça.

UM COQUETEL DE ASNEIRAS. É UM FILME DO TERRENCE MALICK? NÃO; É UMA COMPOSIÇÃO ERUDITA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA? NÃO; É UMA NOVA RECEITA GOURMETIZADA À PAULISTANA? NÃO! É UMA RESOLUÇÃO DO PT!

PORQUE GOSTO DA DEMOCRACIA, DIGO NÃO ÀS MANIFESTAÇÕES

Um grupo de vândalos tentou invadir a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) na última sexta-feira. Desde ontem, acampam em frente ao Palácio dos Bandeirantes. Vocês sabem como andam nossos dias: basta que meia dúzia se reúna para reivindicar qualquer coisa e resolva travar a cidade, mandando às favas o direito constitucional de ir e vir de quem optou por não se manifestar por nada, que já ganham aplausos aquiescentes. Velhos babões, aos montes, esbanjam ânimo: “Jamais pensei que esses jovens iriam às ruas como vão hoje”, disse dias desses um graúdo empresário a mim. Voz das ruas, recado dos jovens, primavera brasileira, gigante acordou, enfim, essa coleção de clichês aboletada numa espécie de mal estar da nossa democracia impulsiona esses movimentos, conferindo-lhes especiais estima e legitimidade.

Não, meus caros. Não estou com essa gente. Sou desses que sempre desconfia de multidões. Qualquer pessoa que já mergulhou no livro Psicologia das Massas e Análise do Eu¸ do Freud, há de concordar comigo que coletividades são ameaçadoras, capazes de tudo. Tudo mesmo! O limite para seus intentos é o céu. Como vivemos numa democracia, a lei e a ordem definem até onde o povo é soberano. É simples de entender.

Logo no início dos protestos, um monte de amigos, alguns bem intencionados até, me indagaram o porquê de eu não aderir ao clamor das ruas. Como o PT está na mira das manifestações, uma porção de gente pensou que me deixaria embalar pelo coro dos descontentes. Não, não me deixei. Nem tudo que está contra o PT necessariamente me agrada. Não gosto do PT por seu autoritarismo, por seus métodos escusos de solapar a democracia e subjugar as instituições. Se, no entanto, as forças que emergirem se propõem a combater o PT por métodos que, no final, acabarão resultando em menos democracia e minando as instituições de sua legitimidade, coloco-as logo lado a lado de quem pretendem guerrear. Sim, queridos: se o que quer essa multidão (esses “jovens”, como uns babões estão adorando dizer) vier a ser implementado, assistiremos à democracia indo pra lama.

Eu não sou sociólogo nem cientista político. Sou um implacável seguidor da lógica. Só ela me orienta e ilumina minhas convicções. Eu sou eu e minhas ideias. Meu farol de Alexandria é minha consciência. E é com base nesses pressupostos que arrisco dar contornos aos fatos que estão ocorrendo no País. Preparem-se, este texto será longo.

É óbvio que entre as reivindicações das ruas muitas são honestas e procedentes. As expressões de descontentamento “contra tudo o que está aí” (toda vez que algum pseudoengajadinho me diz esse mantra, sinto uma preguiça aguda) podem ser levadas a quem de direito. A forma como o fazem, no entanto, pode contribuir para que o verniz supostamente democrático dessas vindicações se desfaça. O PT se tornou um dos principais alvos dos protestos. Dilma Rousseff, dos píncaros de seus 63% de aprovação do governo em março, despencou para 31%. Entretanto, não admito que manifestantes recorram a práticas que, se transformadas em norte político e moral, levariam o País ao brejo institucional e ao vácuo democrático – males maiores dos que se propuseram a combater.

Assistimos nas ruas, durante o mês de junho barulhento, a cartazes pedindo o fim dos partidos políticos. Esse anseio encontrou eco em muitas cabeças-de-vento. Não há como fazer política sem…política, da mesma forma que não há democracia sem representatividade – e esse papel cabe aos…partidos políticos. Isso justifica a razão de Marina Silva ter sido a grande beneficiada de toda essa barafunda. A sonhática (que coisa mais ridícula!) se diz, com a pompa da realeza, não pertencente a nenhum partido. Sua Rede estaria fora do campo gravitacional em torno do qual giram todas as demais agremiações políticas. E há quem caia de amores por esse discurso.

Sim, eu quero o PT fora do poder. Se vocês recorrerem aos arquivos deste blog, encontrarão uma fartura de posts que justificam essa minha posição. Só que, vejam como sou exótico, quero apear o PT do governo via urnas, via voto. Não quero – nem admito – quaisquer tentativas de golpes. Goste-se ou não, Dilma governa porque foi eleita, obedecendo todos os ritos democráticos previstos em lei. Se Dilma – ou Sérgio Cabral, ou Geraldo Alckmin, ou o prefeito de Arceburgo… – tiverem de cair fora, que sejam por esses valores.

O problema é que os manifestantes ignoram solenemente esses princípios. Eu tenho horror a minorias que querem impor sua vontade à maioria. Sempre vi com muita desconfiança ondas de coletivismos. Rogam para si uma legitimidade que ninguém lhes conferiu e, com isso, acham-se acima da ordem. Por que digo isso? Simples: desde junho, a Avenida Paulista foi travada por manifestantes inúmeras vezes. Dizem-se pacíficos. Mas não são. O que há de pacífico interromper abruptamente o direito de ir e vir da maioria? Como se julgam os portadores do bem, acham razoável que suas vontades sejam impostas aos demais. Eles acreditam Alckmin tem de ser deposto. Logo, tomam as ruas,  impedem motoristas de trafegar e, por que não?, pensam ser justo tomar a Assembleia Legislativa à base da força. Houve gente que só faltou ter orgasmos quando um bando de delinqüentes subiu ao teto do Congresso Nacional, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Não, meus caros, não é. “Mas são pacíficos”, dizem uns. O escambau! “Invasão” e “pacificidade” são termos que não se conjuminam.  

Pacíficos uma ova – O Datafolha realizou uma pesquisa para apurar o grau de aprovação às manifestações. 66% dos paulistanos são favoráveis; 34%, contra. Ora, isso também aprovo, até porque não tenho vocação pra ditador. Quando os protestos passam a atrapalhar a vida de quem optou por não se manifestar por nada, aí sou contra. 78% acham justa a ocupação da Paulista. Eu não acho. Dou, nesse caso, de ombros à maioria. Não é porque a maioria gosta e aprova que signifique que obnubilar o direito de ir e vir das pessoas é legítimo. Pensem no pandemônio que viraria a cidade se todo mundo com uma reivindicação embaixo do braço resolvesse tomar a Paulista. A praça é do povo como o céu é do condor, bem sei. Então que se faça esses protestos no Vale do Anhangabaú, por exemplo. Por que não marcam manifestações na Jacu Pêssego? Simples: porque esses valentes querem, sim, impor sua vontade a todo mundo.

“Ah, mas a maioria é de bem e não quer confusão”, dizem uns cândidos. Pode até ser verdade. Só que temos de levar em consideração os sentimentos que se arregimentam quando fazemos determinadas vindicações. Mais: nunca vi tantas manifestações infiltradas por vândalos. Tanto que vandalismo, em certa altura do campeonato, virou novilíngua: passou a ser manifestações pacíficas infiltradas por vândalos. “Os quebra-quebras são exceções”, dizem muitos. Nunca vi tanta exceção se repetir como se regra fosse. Mais: pesquisa encomendada pela TV Globo feita com participantes de manifestação e exibida no Fantástico recentemente traz um dado alarmante: 5% dos que engrossam o caldo desses protestos acham que depredações são válidas; 28% as interpretam como justificadas em alguns casos. Vamos à frieza cáustica dos números: 33% dos “pacíficos”, portanto, têm pré-disposição para sair por aí arrebentando lojas bancárias, depredando patrimônio público, promovendo cenas de violência pelas cidades. É pouca gente? Não, não é. Significa que se uma passeata reunir 100 mil pessoas na Paulista, 33 mil delas acham justo recorrer a métodos pouco republicanos para expressar seu descontentamento.

A Globo mostrou esse dado com a mesma naturalidade que se descortina a preferência do povo por chuchu ou abobrinha. Como o jornalismo anda em crise, não ocorreu ao repórter e ao editor fazer uma regra de três simples. Houve manifestações no Rio de Janeiro cujo público fora, segundo a Polícia Militar, de meio milhão de pessoas. Por que a Globo não disse que, perante os resultados de sua própria pesquisa, 165 mil pessoas, no mínimo, eram vândalos em potencial? Nadica!

A satanização das polícias – Para complicar, teve início o processo de demonização das Polícias Militares País afora. Ações legítimas de policiais passaram a ser encaradas como repressão, barbárie. Jovenzinhos idiotas e descolados quiseram logo brincar de um passado que desconhecem – ah, os livros, que falta fazem a muitos! – e nunca viveram a fim de evocar a sombra da ditadura. Disseram-se reprimidos. Tadinhos! Não se pode nem mais sair por aí travando uma cidade e quebrando tudo que se vê pela frente que a PM vem coibir, não é mesmo?

A fenda dessa retórica teve início em 13 de junho, em São Paulo. Os protestantes haviam firmado um acordo com a PM de não tomar a Paulista. Mas quê… Desobedeceram flagrantemente o compromisso assumido. Às 19h08, policiais pediram aos manifestantes que não subissem a Consolação rumo à Paulista. Os valentes deram de ombros e enfrentaram o cordão de isolamento da polícia. Ora, se é CORDÃO DE ISOLAMENTO, é pra não ser passado, certo? Teve aí o início da confusão, que foi maior desde o início dos protestos. Nota à margem: em nenhuma democracia do mundo a polícia fica quieta quando apanha. Por aqui, o povo acha lindo ver um agente da ordem levando paulada sem reagir. Adiante. Pipocaram cenas de policiais militares agredindo pessoas. Jornalistas feridos passaram a ser exibidos aos montes em milhares de sites.

Se houve abusos por parte da polícia, que sejam investigados e os culpados punidos. Ponto. Isso não significa que a PM, a partir de então, tivesse de ficar acossada pela patrulhae, consequentemente, constrangida de cumprir o papel que a lei lhe faculta. Os baderneiros passaram a contar com salvo-conduto da opinião pública e da imprensa para fazer o que bem lhes derem no juízo. As ruas foram seqüestradas. O direito de ir e vir foi cassado. Aos policiais restaram apenas acompanhar os manifestantes. Qualquer bomba de gás lacrimogêneo para reprimir ações de vandalismo passou a ser arrostada como abuso policial. A gritaria superabundou o imperativo da democracia. Pior: sob os aplausos de muitos.

Semanas depois, no Rio de Janeiro, assistiu-se a verdadeiras ações de terrorismo contra o patrimônio histórico, quando a sede da Alerj foi depredada. Um policial foi violentamente espancado. Seu sangue banhou as calçadas do centro. Seu drama não foi destaque, no dia seguinte, em nenhum telejornal. Não vi nas redes sociais indignação contra tamanha truculência. Já em favor dos baderneiros, bem, creio ser desnecessário mencionar os gracejos havidos.

“É por direitos” – O discurso catalisador que sequestrou psiquicamente as massas veio do Movimento Passe Livre. Mobilizaram-se contra os R$ 0,20 de aumento nas tarifas de ônibus e metrô e foram às ruas. Reuniram, no início, alguns gatos pingados. É possível que a iniciativa tenha sido o agente hegeliano do processo, pra remeter um tiquinho ao livro A filosofia da história, de Hegel. Nesta obra, o filósofo diz-se estar consciente de que as forças da sociedade se inserem nas ações de líderes, a fim de realizar seus propósitos inconscientes. Hegel afirma que Júlio César derrotou seus inimigos e destruiu a Constituição de Roma visando uma posição de supremacia, é verdade; no entanto, o que o torna uma figura importante para história é que ele fez o necessário para unificar o Império Romano, e o autoritarismo era o único caminho para isso. “Assim, não foi apenas seu interesse pessoal, e sim um impulso inconsciente, que ocasionou a realização daquilo cujo momento havia chegado”, escreveu o filósofo.

Colocar Hegel e MPL num mesmo parágrafo soa mal, eu sei. Mas recorrer à teoria é um caminho para explicar momentos e momentos. Em nenhum momento, até o arborescer dos grandes protestos, os líderes do movimento expuseram descontentamento contra as condições adversas do País em questões como educação, saúde e segurança. Sua pauta era, sim, única: contra os R$ 0,20. Se não baixassem as tarifas, São Paulo iria parar, de acordo com eles. “Os 20 centavos eram a gota d’água que faltavam para a explosão da indignação geral”, muitos constaram. Estava, então dada a senha para a materialização de uma máxima do interior: cada enxadada, uma minhoca. “Não é por R$ 0,20; é por direitos”, muitos emplacaram.

É claro o Brasil é violento. Os 50 mil homicídios ocorridos anualmente são a prova disso. Os hospitais públicos padecem de médicos e equipamentos. Nossas escolas, adeptas de Paulo Freire — cujos métodos de ensino abomino – e do besteirol do Construtivismo, não conseguem ensinar os alunos a destrincharem os objetos diretos do Hino Nacional. A claque política continua vivendo num paraíso paralelo, desconectada da realidade dos brasileiros e ensimesmada com seus próprios interesses. São, sim, reais e legítimos o combustível das reivindicações.  Há razões às dezenas para protestar, mas o clima criado para a realização das manifestações advém de tensões artificiais. Querem a prova? Comparem a quantidade de presentes aos protestos antes do dia 13 de junho e depois. A ação mais firme da PM de São Paulo somada à capacidade que as mentiras têm de ganhar corpo nas redes sociais confluiu para a criação uma espécie de mal estar geral. A partir daí, corolários equivocados foram alçados à condição de verdades imperativas.

Os manifestantes são pacíficos. Os casos de vandalismo são exceções.
Depredar é feio, mas fazer da cidade um território livre à ocupação é bonito.
Aqueles que impedem o acesso aos 16 hospitais da região da Paulista são democratas.
Os jovens estão mudando o Brasil. Eventuais vandalismos são efeitos colaterais. Só.
O importante é ir pra rua gritar. Contra o que? Qualquer coisa! O importante é berrar.
Não importa se os métodos são errados. Pelo menos alguém está fazendo algo.
Qualquer ação da polícia é repressão.

Dilma ouviu a voz das ruas. E no que deu? – A presidente Dilma resolveu dar aquela afagada na cabeça das ruas. Quebrou a cara, e várias vezes. A primeira proposta do Planalto foi uma constituinte exclusiva para a reforma política, algo escandalosamente autoritário e inconstitucional. Hugo Chavez recorreu a esse expediente na Venezuela para atrair para si todos os poderes. Até mesmo o vice-presidente da República, Michel Temer, veio a público dizer que o projeto era inviável. O PT é mesmo muito engraçado: essa gente está há 10 anos no poder; e só agora tiveram esse surto de boa vontade para fazer a reforma política. Foi uma tentativa natimorta. Dilma viu-se obrigada a voltar atrás.

Um investimento de R$ 50 bilhões em mobilidade urbana também foi prometido, bem como a destinação total dos royalties do pré-sal – que nem sequer existem ainda – à educação. Como executar essas cifras é o grande mistério. Números oficiais do governo mostram o abismo que há entre orçamento autorizado e recursos efetivamente aplicados. Dos R$ 50,6 bilhões prometidos para a saúde, apenas 39,6% foram executados; em saneamento, 48,6% dos R$ 16,7 bilhões; na educação, 61,3% dos R$ 53,3 bilhões; em transportes, 60,5% dos R$ 118,5 bilhões. Se o governo mal dá conta de investir o que tem, de que adianta anunciar mais recursos para isso ou aquilo? Mais: quem disse que o problema da educação é de financiamento? É, sim, de falta de gestão adequada de recursos. O resto é conversa pra boi dormir.

O Mais Médicos, programa que impingia a todos os estudantes de medicina o exercício do ofício em hospitais públicos para poderem ter diploma sob o argumento de que o sistema público de saúde carece de médicos, também foi por água abaixo. De um autoritarismo tremendo, o precedente que se abriria seria um perigo. Se amanhã os engenheiros em obras do PAC se tornarem escassos, o governo vai obrigar estudantes de engenharia a serem “engenheiros públicos”? Se faltarem professores, os estudantes de magistério terão de dar aulas compulsoriamente nas escolas do Estado? Se dentistas se tornarem raro no Amazonas, os formandos em Odontologia serão enviados às comunidades ribeirinhas, do contrário, não têm diploma?

Perceberam? No afã de dar resposta aos anseios das ruas, o governo pôs em xeque a Constituição, a liberdade individual, o apreço pelas instituições e, por conseguinte, a própria essência da democracia. É claro que não se pode culpar o povo pelas respostas desastradas que Dilma deu. As pessoas levam à praça suas reivindicações. Ponto. O PT, ruim de governo, é que tem de ser questionado pela desgraça de suas réplicas.

Concluindo – Fosse o Brasil um País com partidos políticos sólidos, que não servissem apenas como moeda de troca para tempo de propaganda partidária e alimento ao deplorável sistema de presidencialismo de coalizão, talvez tantas insatisfações represadas teriam sido captadas antes de eclodir todas essas manifestações. Boa parte de quem está nas ruas tem como referência de governo apenas os 10 anos do PT e tudo o que de ruim fizeram ao Brasil. O avanço social cantado em prosa e verso pela dupla Lula-Dilma perdeu o fôlego. As pessoas não querem mais apenas a TV de 42 polegadas, o notebook comprado a longas prestações e o iogurte na geladeira, igualmente financiada. Esses novos menos pobres querem qualidade fora de casa também: escolas boas, hospitais decentes e sentirem-se seguras. 

Demorou pro povo ir pras ruas porque durante muito tempo o PT teve o monopólio da praça. O partido deu dinheiro a ONGs, à UNE, ao MST, às centrais sindicais – ou seja, a todas as franjas capazes de mobilizar multidões. Num passado não muito distante, as pessoas foram às ruas para protestar contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, as privatizações, o Fundef e o Plano Real. Por trás das manifestações estava o PT, que arrebanhava multidões. Pergunto: a LRF não era boa? Não era igualmente benéficos o Fundef, o Plano Real e as privatizações? Sim, eram todos bons e deram inestimáveis contribuições ao Brasil. Mas e  daí? A turma engoliu as abobrinhas do PT e, bovinamente, foi protestar.

O momento do País serve para atestar a inapetência das oposições, que foram incapazes de detectar tantas reclamações reprimidas. Mas fazer o quê, não é mesmo? No Brasil, partidos de oposição sentem-se constrangidos de criticar, botar o dedo na ferida e representar o eleitor de…oposição.  Tanto que Marina Silva, virtual candidata à Presidência da República, foi a que mais ganhou com isso. Se Marina Silva foi a grande beneficiada, em boa coisa não vai acabar.

Assim, meus caros, como gosto da democracia, digo não às manifestações tal qual estão ocorrendo. O direito de tomar a praça e de se expressar é livre. Pena que essa liberdade tem sido usada para depredar patrimônio público e privado, censurar jornalistas, atacar agentes da ordem, impedir o sagrado de direito de ir e vir, invadir prédios públicos, promover bagunça, fazer apologia ao fim da representação política, desvirtuar a democracia, criar falsas tensões…

PORQUE GOSTO DA DEMOCRACIA, DIGO NÃO ÀS MANIFESTAÇÕES

EM PASSAGEM PELA ÁFRICA, LULA VISITARÁ PELA OITAVA VEZ MAIS UM DITADOR. NÃO É SÓ A SELEÇÃO QUE MERECE VAIA…

Os brasileiros que estão na África vaiando a seleção brasileira em frente ao hotel bem que poderiam estender um pouco mais suas estadas no continente. Não é por futebol ou coisa parecida, não. É por uma causa nobre, melhor do que o ramerrão inerente à festança mundial em curso. Amanhã, domingo, Lula deve visitar pela oitava vez o ditador Teodoro Obiang Mbasogo, governante de Guiné-Equatorial.

Há 31 anos Obiang mantém seu país sub repressão. Entidades que zelam pela garantia dos Direitos Humanos o classificam como um dos mais sanguinários e corruptos ditadores da história. Dentre as acusações que pesam contra ele estão crimes de tortura, assassinato e fraudes. Não custa nada, em nome do bom senso, a torcida brasileira ir até Guiné-Equatorial vaiar Lula também.

Um relatório de 107 páginas feito pela Human Rights Watch (íntegra disponível aqui) dá um panorama do atual momento do país pelo qual Lula passará durante sua estada na África. O documento afirma que durante essas mais de três décadas de governo Obiang, sua família e entidades privadas que atendem unicamente seus interesses têm tomado conta da vida política nacional e da produção de petróleo. Em toda a África Subsariana, Guiné-Equatorial é o quarto maior país produtor de petróleo, atrás apenas da Angola, Nigéria e Sudão. Enquanto a população do país vive em plena miséria, Obiang acumulou entre os anos de 2004 e 2006 uma fortuna estimada em 42 milhões de dólares. Dentre as posses do presidente estão mansões e carros luxuosos adquiridos na África do Sul e na Califórnia.

Frente a esse cenário tão avassalador, é bem provável que, antevendo críticas da, como é mesmo?, direita reacionária, que nunca aceita diálogo com ninguém, Marco Aurélio Garcia ou Celso Amorim venha nos informar que Obiang é um governante eleito pelo povo, e que, sim, incontestavelmente, Guiné-Equatorial é uma democracia. Se tal discurso for proferido, tratar-se-á de mais uma das muitas vigarices intelectuais de nossa diplomacia. Nas eleições de fevereiro de 1996, Obiang foi reeleito com 98% dos votos! A história comprova que altíssimos índices como este só são registrados em países cujo pleito se dá sub repressão. Vistas às últimas eleições do Irã, por exemplo.

As últimas eleições guiné-equatorianas ocorreram em 2008, e foram para o legislativo. Militares marcaram presença em todas as ruas e há indícios indiscutíveis de fraude pró-partidos do governo. À época, o departamento de estado norte-americano não reconheceu as eleições, e afirmou que o processo não obedeceu a critérios que tornem o processo transparente, como mandam os manuais da democracia.

O saldo de tudo isso pode ser visto nas ruas de Guiné-Equatorial: miséria, medo, fome, crianças sem educação e oposição acuada, agredida.

Eis mais um dos ditadores que trocará cartão de visita com Lula.
Eis mais um vexame para nossa diplomacia.
Eis mais um exemplo de alinhamento político abominável.

EM PASSAGEM PELA ÁFRICA, LULA VISITARÁ PELA OITAVA VEZ MAIS UM DITADOR. NÃO É SÓ A SELEÇÃO QUE MERECE VAIA…