Accidie

Eu ando mergulhado em uma preguiça profunda nesses tempos de Lava-Jato. A internet é, ao mesmo tempo, boa e ruim. Boa porque dá acesso a mais pessoas a um maior volume de informações; e ruim porque, em contrapartida, democratiza a asnice. A sociedade em rede virou um lugar em que as pessoas se encontram coletivamente para imbecilizar umas às outras, salvo raríssimas exceções.

Isso tudo me levou a um estado de accidie — profundo desinteresse por todas as questões de que deveriam sublimar minha atenção. O que eu ganho com isso? Simples: não me irrito.

Não tenho contato com aqueles textões horrorosos, cheios de vírgulas indevidas entre sujeitos e verbos, em que os pensamentos ficam desesperadamente em busca de uma conclusão que nunca chega. Uma ideia primeira abre uma segunda. À espera da terceira, que, em tese, arremataria as anteriores, vêm anacolutos soltos, dispersos. E o leitor, coitado, fica ali, lendo aquela geringonça, não entendendo nada, achando que sua inteligência não alcança o raciocínio do autor.

O caso da babá negra levada à manifestação por seus patrões para que ficasse cuidando de seus filhos foi emblemático. Houve gente dizendo que a escravidão no País não havia acabado (ai, que sono!). Outros anotaram que os patrões, brancos, levando uma empregada negra para trabalhar naquele ato deslegitimaria o espírito da manifestação (já dormi!).

À medida em que os absurdos se acumulavam na timeline do Facebook, minha preguiça se expandia exponencialmente.

Lula pode ser preso qualquer dias desses. O que é uma pena que isso ocorra só agora. Já era pra ele estar vendo o sol nascer quadrado há muito tempo. Só fico cá pensando em quanto esse fato potencializará todo o poder de análise dos “colunistas de Facebook”.

Por isso fico com minha accidie. Não sofro decepção.

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